Comissão aprova uso de verba da Zona Franca para impulsionar bioeconomia

Reprodução - Econet
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O Novo Ciclo da Inovação na Amazônia

A engrenagem econômica da Zona Franca de Manaus está prestes a ganhar uma nova funcionalidade, conectando o parque industrial tecnológico à preservação biológica da maior floresta tropical do mundo. Uma proposta aprovada pela Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados estabelece um vínculo direto entre os benefícios fiscais concedidos às empresas e o financiamento da bioeconomia. O texto determina que as companhias do polo industrial, que já possuem a obrigação legal de investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação, direcionem uma parcela progressiva desses recursos para projetos que transformem a biodiversidade em ativos econômicos de alto valor e baixo impacto.

O movimento, capitaneado pelo relator Lucas Ramos, não altera a carga tributária das empresas, mas refina a aplicação dos investimentos previstos na Lei de Informática. A estratégia é converter o faturamento bruto das indústrias em ciência aplicada à floresta, garantindo que o desenvolvimento tecnológico de Manaus não ocorra isolado do bioma que o cerca. Ao estabelecer esse fluxo financeiro, o poder público busca criar um ecossistema onde a floresta em pé seja mais lucrativa do que qualquer outra forma de uso da terra, posicionando a Amazônia Ocidental e o Amapá como centros globais de biotecnologia.

Engrenagens Financeiras e Metas Progressivas

A estrutura do projeto de lei foca em uma fatia específica dos investimentos obrigatórios em inovação. Atualmente, as empresas beneficiadas destinam 5% de seu faturamento para atividades de pesquisa, sendo que 2,7% desse montante possuem flexibilidade de aplicação em fundos ou projetos tecnológicos diversos. É exatamente sobre essa margem que a nova regra incide, estabelecendo um cronograma crescente de obrigatoriedade para a bioeconomia. No primeiro ano de vigência, a exigência será de 4%, escalonando anualmente até atingir a marca de 20% a partir do quinto ano.

Essa progressão permite que o setor industrial se adapte à nova realidade e que os institutos de pesquisa e organizações sociais se estruturem para absorver os recursos. O objetivo é evitar o desperdício de capital e garantir que os projetos selecionados tenham maturidade técnica. Ao redirecionar esses valores, o governo espera fomentar uma indústria de princípios ativos, cosméticos, fármacos e novos materiais que utilizem a riqueza genética amazônica de forma ética e sustentável. A medida transforma a obrigação de gasto em um investimento estratégico para a soberania tecnológica do Brasil.

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Fonte: Bioeconomia

Definições e Horizontes da Bioeconomia

O conceito de bioeconomia adotado pela proposta vai muito além da simples extração de produtos naturais. Ele engloba a biotecnologia de ponta, a engenharia genética e o desenvolvimento de bioenergia, buscando soluções que atendam desde a agricultura familiar até as grandes cadeias produtivas florestais. O foco está no reaproveitamento de resíduos e na criação de materiais que possam substituir plásticos e derivados de petróleo por alternativas biodegradáveis oriundas da floresta. Esse modelo produtivo é visto como o pilar de uma nova revolução industrial que coloca a conservação ambiental no centro do balanço contábil.

A execução desses projetos ficará a cargo de organizações sociais vinculadas ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Para assegurar a eficácia das aplicações, o projeto impõe rígidos critérios de transparência: todas as entidades deverão manter portais na internet com informações detalhadas sobre os valores investidos, o andamento das pesquisas e, crucialmente, os impactos ambientais e sociais gerados. Essa visibilidade é fundamental para atrair novos parceiros e demonstrar ao mercado internacional que a Amazônia pode liderar a transição para uma economia de baixo carbono.

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Tramitação e Impacto Regional no Curto Prazo

Embora a aprovação na comissão técnica seja um passo decisivo, a proposta ainda percorrerá um caminho legislativo detalhado. O texto será analisado por comissões voltadas aos povos originários, tributação e justiça, antes de seguir para o Senado Federal. O caráter conclusivo da tramitação na Câmara acelera o processo, indicando uma vontade política de consolidar essa agenda ainda em 2026. Se sancionada, a lei beneficiará diretamente os estados do Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima e Amapá.

O impacto regional esperado é a descentralização do conhecimento científico. Ao vincular a verba da Zona Franca a projetos em diversos estados da Amazônia Ocidental, o governo federal estimula a criação de polos de inovação fora da capital amazonense, fortalecendo universidades e centros tecnológicos locais. No horizonte de uma década, essa política pode converter a região de uma mera exportadora de commodities ou montadora de eletrônicos em uma exportadora de soluções biotecnológicas globais, provando que a ciência brasileira é a chave para o desenvolvimento equilibrado entre economia e natureza.

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