
Refil como eixo estratégico da transformação ambiental
Durante décadas, a indústria de cosméticos prosperou apoiada em embalagens sofisticadas, frascos robustos e camadas de plástico que simbolizavam valor agregado. Hoje, esse mesmo setor se vê diante de um novo imperativo: reduzir resíduos, cortar emissões e responder a um consumidor cada vez mais atento ao impacto ambiental do que consome. Nesse cenário, o refil deixou de ser uma alternativa discreta na prateleira para se tornar o centro da estratégia de economia circular.
O conceito é simples, mas poderoso. Em vez de descartar a embalagem original após o uso, o consumidor mantém o frasco e adquire apenas o conteúdo de reposição, acondicionado em uma embalagem mais leve e com menor uso de material. O efeito cumulativo é expressivo. A redução de plástico na fabricação de versões refil pode variar entre 80% e 97%, dependendo do produto e do formato adotado.
Empresas brasileiras lideram esse movimento. A Natura, por exemplo, afirma utilizar refis em cerca de metade de suas marcas, evitando o descarte de aproximadamente 1,6 mil toneladas de resíduos plásticos por ano. O Boticário incorporou o modelo em linhas como Nativa SPA e Cuide-se Bem, alcançando reduções de até 78% no uso de plástico e oferecendo preços entre 24% e 30% menores em comparação com as embalagens tradicionais. A Granado também aposta na reposição em sabonetes líquidos, com embalagens que utilizam 84% menos plástico do que os frascos originais. Já a The Body Shop implantou estações de refil em lojas físicas, convidando o consumidor a participar diretamente do ciclo de reutilização.
Esses números não representam apenas economia de material. Eles indicam uma mudança estrutural no desenho do produto, na relação com o cliente e na forma como as empresas calculam valor.
Economia concreta: indústria, logística e consumidor
A adoção do refil gera impactos financeiros tangíveis ao longo de toda a cadeia produtiva. Na indústria, a simplificação da embalagem reduz custos com matéria-prima e processos de fabricação. Ao utilizar menos plástico e menos componentes, a empresa economiza energia, insumos e etapas produtivas.
Há ainda a substituição gradual de polímeros convencionais por polímeros verdes, produzidos a partir de fontes renováveis como cana-de-açúcar, milho ou celulose. Esses materiais reduzem a dependência de derivados de petróleo, cuja cotação oscila conforme crises geopolíticas e variações internacionais. Ao diversificar sua base de insumos, a indústria ganha previsibilidade e maior estabilidade de custos.
A logística também se transforma. Embalagens de refil são menores, mais leves e ocupam menos espaço. Isso significa mais unidades transportadas por carga, melhor aproveitamento de armazéns e redução no custo por unidade distribuída. A compactação do produto não é apenas uma escolha ambiental, mas uma estratégia operacional.

Para o consumidor, o benefício se traduz em preço. Parte da economia obtida na produção e no transporte é repassada ao mercado. No caso do Boticário, os refis chegam a custar entre 24% e 30% menos do que as versões tradicionais. O gesto de reutilizar passa a ser, simultaneamente, um ato ambiental e uma decisão financeira racional.
A soma desses fatores cria um círculo virtuoso. A empresa reduz custos e resíduos, o consumidor paga menos, e o volume de plástico descartado diminui de forma consistente.
Logística reversa, créditos reciclagem marco regulatório
O avanço do refil não ocorre isoladamente. Ele se conecta à Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabeleceu a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos no Brasil. Com a criação do Sistema de Logística Reversa de Embalagens de Plástico, regulamentado pelo Decreto nº 12.688/2025, as metas deixaram de ser apenas compromissos voluntários e passaram a ter caráter obrigatório.
Para 2026, a meta nacional de recuperação foi fixada em 32% das embalagens plásticas colocadas no mercado. Esse percentual pressiona empresas a estruturar sistemas eficazes de retorno e comprovação de reciclagem.
Uma das ferramentas mais utilizadas são os créditos de reciclagem, também chamados de créditos de logística reversa. Por meio deles, as empresas comprovam que uma massa equivalente de resíduos foi coletada e destinada corretamente. Esse processo envolve cooperativas de catadores, que realizam coleta e triagem, e a emissão de Notas Fiscais Eletrônicas que asseguram rastreabilidade e autenticidade do material recuperado.
Plataformas digitais como a Recircula Brasil ampliam a transparência desse sistema, permitindo acompanhar o trajeto do plástico reciclado e oferecer dados auditáveis a órgãos reguladores e investidores.
Nesse contexto, o refil atua como facilitador. Ao reduzir a quantidade de plástico colocada no mercado, a empresa diminui proporcionalmente sua obrigação de compensação. A prevenção do resíduo torna-se mais eficiente do que a gestão posterior do descarte.

VEJA TAMBÉM: Brasil tenta conter excesso de embalagens em meio à crise do plástico
Polímeros verdes marketing ambiental cultura consumo
A incorporação de polímeros verdes amplia o impacto positivo do refil. Diferentemente dos plásticos convencionais, derivados de combustíveis fósseis, esses materiais utilizam biomassa renovável como matéria-prima. Durante o crescimento das plantas, há captura de dióxido de carbono da atmosfera. Parte desse carbono permanece incorporada ao material final, contribuindo para uma pegada mais equilibrada.
Estima-se que a reciclagem de uma tonelada de garrafas produzidas com esse tipo de material possa evitar a emissão de até 1,5 tonelada de CO2. Além disso, a compatibilidade com sistemas de reutilização e reciclagem reforça sua aderência ao modelo de economia circular.
As empresas também comunicam esse esforço de forma estratégica. O marketing ambiental, quando sustentado por práticas reais e mensuráveis, transforma-se em ativo reputacional. Slogans como Nossos produtos têm refil, o planeta não, utilizado pela Natura, sintetizam a mensagem de responsabilidade compartilhada.
Pesquisas indicam que cerca de dois terços dos consumidores consideram a sustentabilidade um fator relevante na decisão de compra. O refil, nesse sentido, não é apenas uma embalagem alternativa; ele simboliza um posicionamento de marca.
Ao integrar refil, logística reversa, créditos de reciclagem e polímeros verdes, a indústria de cosméticos brasileira constrói um modelo que combina obrigação legal, eficiência operacional e valor simbólico. O desafio, daqui em diante, é ampliar escala, manter transparência e evitar que o discurso supere a prática.
A transição para uma economia circular não se resume a trocar materiais. Ela exige repensar desenho de produto, cadeias logísticas, contratos com cooperativas e comunicação com o consumidor. O refil tornou-se o elo visível dessa transformação. Pequeno na forma, mas estrutural em seus efeitos.











Você precisa fazer login para comentar.