A cutia é a jardineira das florestas garante o futuro das matas tropicais


A engenheira invisível: o papel vital da cutia no coração da floresta

No intrincado xadrez da natureza, existem peças que, apesar de discretas, sustentam todo o tabuleiro. A cutia (Dasyprocta spp.) é um desses exemplos. Longe de ser apenas mais um roedor na paisagem, este mamífero atua como uma verdadeira jardineira das florestas tropicais. Sua sobrevivência está intimamente ligada à integridade das matas, mas é o seu comportamento peculiar que garante que a floresta continue em pé. Através de um instinto de sobrevivência apurado, a cutia assume a responsabilidade de plantar as gerações futuras de árvores gigantescas, um serviço ecológico que nenhuma tecnologia humana conseguiu replicar com tamanha eficiência.

Cutia - Foto: Christian Ziegler

A estratégia mestre deste animal é conhecida cientificamente como scatter-hoarding, ou estocagem dispersa. Durante os períodos de fartura, as cutias não apenas consomem frutos, mas enterram sementes em centenas de esconderijos rasos espalhados por seu território. Elas limpam meticulosamente os odores da casca para não atrair competidores e camuflam os buracos com folhas. Como recuperam apenas cerca de 80% do que guardam, os 20% restantes tornam-se o embrião de novas florestas. Ao enterrar esses recursos, a cutia protege a vida vegetal contra fungos, decomposição e predadores menores, oferecendo à semente a profundidade e a segurança ideais para germinar.

Foto: Renato A. C. R. Couto
Foto: Renato A. C. R. Couto

As herdeiras da megafauna e a exclusividade do Jatobá

A relevância da cutia ganha contornos dramáticos quando olhamos para a história evolutiva. Muitas árvores tropicais possuem frutos tão grandes e cascas tão duras que foram moldadas para serem dispersas por animais gigantes, a megafauna, que desapareceu há milhares de anos. Atualmente, as cutias são os únicos animais neotropicais com mandíbulas potentes o suficiente para abrir essas sementes e transportá-las a distâncias seguras. Sem elas, árvores majestosas como o Jatobá (Hymenaea courbaril) e a Castanha-do-pará (Bertholletia excelsa) enfrentariam um colapso reprodutivo.

Essa dependência exclusiva cria o que os ecólogos chamam de hipótese de escape. Na natureza, uma semente que cai diretamente sob a sombra da árvore-mãe tem poucas chances de sobreviver, devido à alta concentração de patógenos e à competição por luz. Ao carregar esses frutos para distâncias que podem chegar a 300 metros, a cutia permite que a prole da árvore “escape” da zona de perigo. Ela também atua na dispersão secundária, reorganizando sementes que animais maiores, como as antas, deixaram para trás. Sem esse trabalho minucioso, a diversidade das matas seria substituída por uma paisagem simplificada e empobrecida.

 

Heris Luiz Cordeiro Rocha
Heris Luiz Cordeiro Rocha

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Monitoramento e o escudo das terras protegidas

Para garantir que este ciclo não seja interrompido, o Brasil utiliza uma combinação de proteção territorial e alta tecnologia. O Sistema Nacional de Unidades de Conservação, gerido pelo ICMBio, é o pilar que mantém habitats seguros para a espécie. Reservas como a do Morro Grande, em Cotia, e territórios quilombolas no Maranhão servem como santuários onde a pressão da caça e do desmatamento é reduzida. Estudos em instituições como o Nepas focam na biologia reprodutiva em cativeiro, criando um banco de conhecimento para manejar populações em áreas fragmentadas.

O monitoramento dessas populações também se modernizou. O uso de armadilhas fotográficas e sensores acústicos permite que pesquisadores observem a densidade das cutias sem interferir em seu comportamento natural. Ferramentas como drones auxiliam a Polícia Ambiental na vigilância contra atividades ilegais, garantindo que o roedor não se torne alvo da caça predatória. Essas tecnologias são fundamentais para entender como a fragmentação urbana, em locais como o Bosque dos Jequitibás em Campinas, afeta a saúde dos animais e, consequentemente, a capacidade de regeneração do verde urbano.

Foto: Jairmoreirafotografia
Foto: Jairmoreirafotografia

O risco do silêncio florestal e as políticas de futuro

O desaparecimento das cutias não seria apenas a perda de uma espécie, mas o silenciamento de um processo vital. Sem elas, as sementes de grandes árvores ficariam expostas à decomposição na superfície do solo ou seriam destruídas por predadores não especializados. A longo prazo, a floresta perderia sua capacidade de se recuperar de perturbações, tornando-se menos resiliente às mudanças climáticas. O equilíbrio da cadeia trófica também seria abalado, uma vez que a biomassa das cutias sustenta diversos predadores de topo, como as onças.

Por isso, políticas municipais e planos diretores ganham importância estratégica. Cidades que priorizam a preservação de mananciais e fragmentos florestais urbanos estão, indiretamente, investindo no trabalho gratuito de reflorestamento das cutias. A integração entre a pesquisa acadêmica, a fiscalização rigorosa e a educação ambiental é a única forma de evitar que a “jardineira da floresta” seja varrida do mapa. Proteger a cutia é, em última análise, proteger a própria estrutura da vida tropical, garantindo que as sementes de hoje encontrem o solo fértil que as transformará nos gigantes de amanhã.