
Desinformação como obstáculo estrutural à ação climática
A crise climática já não é apenas uma disputa em torno de metas de emissões ou financiamento verde. Ela se tornou também uma batalha pela qualidade da informação. Em um cenário em que o mundo se afasta da trajetória necessária para limitar o aquecimento global a 1,5°C, a desinformação emerge como força corrosiva, capaz de atrasar políticas públicas, enfraquecer consensos científicos e alimentar disputas políticas.
É nesse contexto que o Fórum sobre Informação e Democracia lançou um relatório internacional com dez prioridades para enfrentar a desinformação relacionada ao clima e ao meio ambiente. O documento é resultado de um ano de trabalho do Grupo de Trabalho sobre Integridade da Informação sobre Mudança do Clima e Meio Ambiente, copresidido pelos governos do Brasil e da Armênia.
A iniciativa parte de um diagnóstico claro: não há ação climática eficaz sem integridade da informação. Quando dados científicos são distorcidos, quando campanhas coordenadas semeiam dúvida sobre consensos consolidados ou quando interesses econômicos ocultos impulsionam narrativas enganosas, o debate público perde qualidade e a formulação de políticas se fragiliza.
Camille Grenier, diretor-executivo do Fórum sobre Informação e Democracia, sintetizou o desafio ao afirmar que a desinformação climática tem sido instrumentalizada para ganhos políticos, exigindo resposta coordenada dos Estados e de outros atores relevantes. Para ele, o relatório apresenta reformas viáveis que respeitam princípios fundamentais como a liberdade de opinião e expressão, consagrados na Parceria sobre Informação e Democracia.
Cooperação internacional e protagonismo do Sul Global
O grupo de trabalho reuniu quase 100 formuladores de políticas públicas, pesquisadores e representantes da sociedade civil de 30 países. A diversidade geográfica e institucional reforça a percepção de que a desinformação climática é um fenômeno transnacional, que circula por plataformas digitais sem respeitar fronteiras.
Os primeiros resultados desse esforço foram apresentados durante a COP30, realizada em Belém do Pará. Na ocasião, países participantes endossaram a Declaração de Belém sobre Integridade da Informação sobre Mudança do Clima, sinalizando que a agenda da informação passa a integrar o núcleo das negociações ambientais.
O relatório também dialoga com a Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre Mudança do Clima, liderada pelo Brasil em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Ao articular governos nacionais e organismos multilaterais, a proposta busca alinhar políticas domésticas com compromissos internacionais.
O protagonismo compartilhado entre Brasil e Armênia chama atenção. Ao unir um país amazônico, central na geopolítica climática, e uma nação do Cáucaso, com trajetória própria em governança democrática, o grupo de trabalho sinaliza que a integridade da informação não é pauta restrita a grandes potências. Trata-se de um eixo estruturante da democracia contemporânea.
Além disso, países como Bélgica e França já iniciaram a implementação de recomendações contidas no documento, indicando que o relatório não se limita ao campo declaratório. A expectativa é que novas medidas sejam acompanhadas pelo Fórum sobre Informação e Democracia ao longo de 2026.

Dez prioridades para proteger informação, imprensa e democracia
O relatório organiza suas recomendações em dez frentes estratégicas. A primeira delas é incorporar a integridade da informação diretamente nos marcos de governança climática e ambiental. A proposta é reconhecer formalmente que políticas climáticas dependem de acesso a dados confiáveis e comunicação transparente.
Outro ponto central é a reforma da publicidade digital. O documento identifica que modelos econômicos baseados em cliques e engajamento podem favorecer a circulação de conteúdos enganosos. Interromper a monetização da desinformação ambiental torna-se, assim, uma prioridade regulatória.
A transparência corporativa também aparece como eixo relevante. O relatório recomenda ampliar mecanismos que exponham interesses particulares, combatam o greenwashing e regulem alegações ambientais. Ao exigir clareza sobre práticas e compromissos empresariais, busca-se reduzir a distância entre discurso e ação.
A proteção de jornalistas e defensores ambientais ocupa posição estratégica. Em diversas regiões do mundo, profissionais que investigam crimes ambientais ou expõem irregularidades enfrentam ameaças, processos judiciais abusivos e violência. Garantir segurança e sustentabilidade ao jornalismo ambiental é condição para um debate público qualificado.
O documento também propõe fortalecer marcos regulatórios para responsabilizar plataformas digitais por seus sistemas de recomendação e moderação. A ideia não é restringir a liberdade de expressão, mas assegurar que esses ambientes não amplifiquem conteúdos comprovadamente falsos ou manipulados.
Outras recomendações incluem reforçar a comunicação científica, ampliar a educação midiática e ambiental, investir em pesquisa e monitoramento de operações de influência e fortalecer a coordenação multilateral. Em conjunto, essas medidas desenham uma arquitetura de proteção à integridade da informação.

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Integridade da informação como pilar da ação climática
Ao posicionar a desinformação como ameaça global, o relatório amplia o conceito tradicional de política climática. Não se trata apenas de reduzir emissões ou financiar transição energética, mas de criar condições para que decisões públicas se baseiem em evidências.
A integridade da informação passa a ser vista como infraestrutura democrática. Sem ela, consensos científicos podem ser corroídos por campanhas organizadas; políticas públicas podem ser sabotadas por narrativas falsas; e a confiança social, elemento central para mudanças estruturais, pode se dissolver.
O avanço dessa agenda ocorre em um momento em que plataformas digitais concentram poder significativo na circulação de conteúdos. A responsabilização desses ambientes, aliada à promoção da liberdade e sustentabilidade da imprensa, busca equilibrar direitos fundamentais com deveres institucionais.
O Fórum sobre Informação e Democracia anunciou que continuará monitorando a implementação das recomendações e prevê a publicação de um novo relatório ainda em 2026. A expectativa é que o tema da desinformação climática deixe de ser periférico e se torne parte integrante das negociações internacionais.
Se a crise climática exige ação rápida e coordenada, a batalha contra a desinformação é parte inseparável desse esforço. Ao liderar o relatório, Brasil e Armênia colocam a integridade da informação no centro da agenda global, reconhecendo que proteger o clima também significa proteger o direito coletivo a fatos verificáveis.












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