Povos tradicionais são as maiores vítimas da disputa territorial na Amazônia

Andressa Zumpano/Comissão Pastoral da Terrra
Andressa Zumpano/Comissão Pastoral da Terrra

O mapa da violência no coração da Amazônia Legal

A vasta extensão da Amazônia Legal, que abrange nove estados e representa quase 60% do território nacional, tornou-se o principal palco de tensões agrárias no Brasil. Segundo o estudo “Amazônia em Disputa”, divulgado pela Oxfam Brasil, a região concentrou quase metade de todos os conflitos fundiários registrados no país em 2023. Essa pressão territorial não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma engrenagem que envolve grilagem de terras, desmatamento ilegal, garimpo e a expansão desenfreada do agronegócio. Estados como Pará e Maranhão figuram no topo dessa lista alarmante, acumulando milhares de ocorrências que expõem a fragilidade da governança fundiária em áreas de fronteira econômica.

A gravidade do cenário é acentuada pela atuação de redes criminosas que se aproveitam da ausência do Estado para impor o domínio sobre a terra. No Pará, o recordista de casos, as disputas estão frequentemente atreladas à invasão de terras públicas e à conversão da floresta em pastagens ou áreas de mineração. Essa dinâmica gera um ambiente de insegurança constante para quem vive na região, transformando o solo amazônico em um território de “faroeste” moderno, onde a posse da terra é decidida pela força e pela intimidação, longe dos marcos legais e dos registros oficiais.

Povos tradicionais e o custo humano da grilagem

A violência no campo não atinge a todos de forma igual. O relatório da Oxfam Brasil destaca que povos indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas são os alvos preferenciais das investidas territoriais. Para esses grupos, a terra não é apenas um ativo econômico, mas a base de sua reprodução cultural e física. Quando uma área é invadida para fins de exploração predatória, o impacto vai além da perda do solo; destrói-se um modo de vida e compromete-se a preservação da biodiversidade que essas comunidades tradicionalmente protegem. A disputa, portanto, é também uma luta pela sobrevivência de saberes e heranças ancestrais.

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A situação é ainda mais crítica para os defensores de direitos humanos e líderes ambientais. Atuando na linha de frente contra o desmatamento, esses ativistas enfrentam ameaças de morte e perseguições constantes. O estudo aponta que o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos possui limitações estruturais severas, operando de maneira desigual e muitas vezes insuficiente para garantir a integridade física daqueles que denunciam ilícitos. Sem uma proteção estatal robusta e capilarizada, as lideranças comunitárias tornam-se vulneráveis em regiões onde o isolamento geográfico facilita a impunidade dos agressores.

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O elo entre carência social e violência territorial

Uma das revelações mais contundentes do levantamento é o cruzamento de dados com o Índice de Progresso Social (IPS Brasil). Existe uma correlação direta entre municípios com baixos indicadores de necessidades básicas — como saneamento, saúde e segurança — e a incidência de conflitos violentos. Onde o Estado falha em prover o básico, abrem-se brechas para que grupos armados e redes de exploração ilegal se estabeleçam e cooptem a mão de obra local. A vulnerabilidade social atua como um catalisador das disputas, pois a falta de alternativas econômicas e de presença institucional deixa as comunidades à mercê de poderes paralelos.

Portanto, combater a violência fundiária na Amazônia exige mais do que apenas fiscalização ambiental ou operações policiais. Requer um investimento maciço em infraestrutura social e na regularização de territórios tradicionais. O fortalecimento das redes de proteção e o acesso a serviços públicos de qualidade são ferramentas fundamentais para reduzir a vulnerabilidade das populações locais e dificultar o avanço das redes criminosas. Resolver a “questão da terra” na Amazônia é, em última instância, uma tarefa de justiça social e consolidação democrática, garantindo que o progresso da região não seja medido apenas pelo PIB do agronegócio, mas pela segurança e dignidade de quem nela habita.