Cidades redescobrem rios e reduzem enchentes

Parque Jinhua Yanweizhou, na cidade de Jinhua - NATGEO

A cidade que volta a ouvir seus rios

Durante décadas, o avanço urbano tratou rios como entraves ao crescimento. Eles foram retificados, aprisionados em galerias de concreto ou simplesmente soterrados sob avenidas. A lógica era direta: escoar a água o mais rápido possível, abrir espaço para carros, afastar odores e doenças. O resultado, no entanto, produziu um paradoxo. Ao tentar dominar os cursos d’água, as cidades passaram a conviver com enchentes mais violentas, calor intenso e paisagens empobrecidas.

Hoje, esse modelo é questionado. Em seu lugar, ganha força uma abordagem que recoloca o rio no centro do planejamento urbano. A renaturalização surge como resposta à crise climática, à saturação das redes de drenagem e à necessidade de reconectar pessoas ao ambiente natural. Não se trata apenas de limpar a água, mas de devolver ao rio sua forma, seu ritmo e sua função ecológica.

Canalização: a solução que agravou o problema

A engenharia do século 20 apostou na retificação e no concretamento como sinônimo de progresso. Ao transformar rios sinuosos em canais rígidos, as cidades acreditavam controlar enchentes. O que ocorreu foi o oposto. A água acelerada em trechos canalizados atinge áreas a jusante com maior volume e velocidade, elevando o pico das cheias e deslocando o risco para bairros mais vulneráveis.

Além do impacto hidrológico, o concreto rompe a relação entre o rio e o solo. A infiltração diminui, a recarga de aquíferos se reduz e o microclima urbano se deteriora. Margens antes sombreadas por vegetação dão lugar a superfícies que absorvem calor durante o dia e o liberam à noite, intensificando as ilhas de calor.

O prejuízo também é simbólico. Rios ocultos sob viadutos deixam de ser espaços de encontro, lazer e contemplação. A paisagem se torna funcional e hostil, e a cidade perde parte de sua memória.

Foto: Diego Delso
Río_Isar – Foto: Diego Delso

Revitalização e renaturalização: diferenças que importam

A recuperação de rios urbanos não é um processo único. Há etapas e níveis de intervenção distintos. A revitalização costuma ser o primeiro movimento. Ela se concentra na melhoria da qualidade da água, no corte de fontes de poluição, na recomposição da mata ciliar e na reorganização de usos no entorno. É um esforço para tornar o rio novamente visível e utilizável.

A renaturalização vai além. Envolve a recomposição morfológica do leito, a retirada de estruturas rígidas, a ampliação de áreas de várzea e a recriação de habitats para fauna e flora nativas. O objetivo não é apenas tornar o rio agradável, mas restabelecer suas funções ecológicas: dissipar energia das cheias, filtrar poluentes, sustentar biodiversidade e regular o clima local.

Ao devolver espaço ao rio, a renaturalização reduz a velocidade das águas e cria áreas capazes de absorver excedentes durante eventos extremos. É uma mudança de paradigma: em vez de expulsar a água, a cidade aprende a conviver com ela.

Infraestrutura verde e cidade-esponja

A transição para modelos mais resilientes passa por soluções baseadas na natureza. O conceito de cidade-esponja propõe que o tecido urbano funcione como um sistema capaz de absorver, armazenar e reutilizar a água da chuva. Em vez de concentrar o escoamento em galerias subterrâneas, a água é tratada como recurso.

Pavimentos permeáveis permitem infiltração em calçadas e estacionamentos. Telhados verdes retêm parte da precipitação e reduzem a temperatura das edificações. Jardins de chuva e biovaletas filtram e desaceleram o fluxo superficial. Cisternas domésticas armazenam água para reuso, aliviando o sistema público.

Essas medidas operam sob o princípio da invariância hidráulica: novos empreendimentos não devem gerar escoamento superior ao existente antes da urbanização. Bacias de detenção e retenção amortecem picos de vazão, enquanto a infiltração favorece a recarga de aquíferos e sustenta rios em períodos de estiagem.

Mais do que técnica, trata-se de uma mudança cultural. A água deixa de ser inimiga e passa a ser elemento estruturante do desenho urbano.

Rio Cheonggyecheon - Francisco Anzola
Rio Cheonggyecheon – Francisco Anzola

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Casos que inspiram o mundo

Poucos exemplos ilustram essa transformação com tanta força quanto o rio Cheonggyecheon, em Seul. O projeto liderado pela Prefeitura de Seul removeu um viaduto e reabriu um curso d’água que estava oculto sob concreto e tráfego intenso. .

A intervenção reduziu a temperatura média da área central em cerca de 3,6°C, favoreceu a circulação de brisas e eliminou uma fonte significativa de poluição atmosférica. Antes da obra, a via expressa sobre o rio recebia aproximadamente 80 mil veículos por dia. A concentração de metano na galeria subterrânea era 23 vezes maior que no ambiente externo. Após a renaturalização, o corredor verde tornou-se espaço de convivência e biodiversidade, capaz de suportar chuvas com tempo de retorno de 200 anos.

Na Alemanha, o rio Isar, em Munique, passou por um amplo processo de reconfiguração. Diques de concreto foram removidos, margens foram alargadas e áreas de inundação foram restauradas. O resultado é um rio onde a população pode nadar e conviver com ecossistemas recuperados.

No Brasil, iniciativas locais começam a incorporar essas diretrizes. A requalificação do Arroio Marrecão, no Rio Grande do Sul, e políticas públicas no Distrito Federal buscam integrar parques lineares, recuperação de mata ciliar e controle de cheias baseado em infraestrutura verde.

Essas experiências demonstram que a renaturalização não é luxo paisagístico. É estratégia de adaptação climática, política de saúde pública e investimento em qualidade de vida. Ao restaurar a dinâmica dos rios, as cidades recuperam serviços ecossistêmicos essenciais: regulação térmica, depuração da água, abrigo para espécies e espaços de encontro.

A crise climática intensifica eventos extremos e expõe fragilidades da infraestrutura tradicional. Frente a esse cenário, a pergunta não é se as cidades podem se dar ao luxo de renaturalizar seus rios, mas se podem continuar ignorando-os. Reabrir cursos d’água, ampliar várzeas e permitir que a água encontre seu caminho natural é também reabrir possibilidades de futuro urbano mais equilibrado.

A renaturalização redefine a relação entre cidade e natureza. Ela não elimina riscos, mas os redistribui de forma inteligente, combinando engenharia e ecologia. Ao fazer isso, transforma rios de problema invisível em eixo estruturador de um novo projeto urbano.