Brasil aposta no cacau para unir renda, floresta e inovação


Cacau brasileiro tenta virar a página após décadas de crise

Durante boa parte do século 20, o cacau foi um dos pilares da economia agrícola brasileira, especialmente no sul da Bahia. Esse protagonismo começou a ruir a partir dos anos 1990, quando a combinação entre a queda dos preços internacionais e o avanço da doença conhecida como vassoura-de-bruxa provocou um colapso produtivo e social em regiões inteiras. A produção despencou, milhares de agricultores abandonaram a atividade e o Brasil perdeu espaço no mercado global.

Reprodução - AIPC

Três décadas depois, o país tenta reescrever essa história. O processo de retomada da cacauicultura brasileira se apoia em uma estratégia que combina ciência, inovação, sustentabilidade ambiental e inclusão social. Hoje, o Brasil ocupa a sexta posição entre os maiores produtores mundiais, com cerca de 210 mil toneladas anuais, mas ainda enfrenta o paradoxo de produzir menos cacau do que sua própria indústria é capaz de processar.

Essa virada começou a ser desenhada com investimentos contínuos em pesquisa e melhoramento genético liderados pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Variedades clonais mais resistentes, técnicas modernas de manejo e a valorização de sistemas agroflorestais passaram a substituir o modelo extensivo e vulnerável do passado.

Um plano nacional para reposicionar o Brasil no mercado global

O esforço ganhou escala com o lançamento do Plano Inova Cacau 2030, uma política nacional que estabelece metas claras para reposicionar o Brasil como referência mundial em produção sustentável de cacau. O plano parte de um diagnóstico objetivo: o país enfrenta um déficit anual de cerca de 300 mil toneladas para atender plenamente o mercado interno e as oportunidades de exportação.

A meta central é ambiciosa: superar 400 mil toneladas de cacau por ano até 2030, combinando aumento de produtividade, qualidade da amêndoa e geração de renda ao longo da cadeia. Para isso, o plano se estrutura em quatro frentes: fortalecimento econômico da produção, inclusão social, conservação ambiental e aprimoramento da governança e da inovação.

Entre as ações previstas estão a expansão sustentável da área cultivada, prioritariamente em áreas já degradadas, o acesso ampliado ao crédito rural, a rastreabilidade da produção e o estímulo à agregação de valor. A proposta também incorpora compromissos sociais, como o combate ao trabalho infantil, o incentivo ao cooperativismo e a ampliação da participação de mulheres e jovens na atividade.

No campo ambiental, o cacau é tratado como aliado estratégico da conservação. Cultivado em sistemas agroflorestais, ele contribui para a recuperação de áreas degradadas, manutenção da biodiversidade e redução da pressão sobre florestas nativas. O plano prevê, inclusive, a inserção gradual da cultura em mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais.

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Cacau sustentável na Amazônia – Fonte: Adriano Venturieri-Portal Embrapa

 

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Do laboratório ao campo: ciência e qualidade como diferenciais

A retomada da cacauicultura brasileira não se limita ao volume produzido. Um dos movimentos mais significativos dos últimos anos é o avanço do país no segmento de cacau fino de aroma, um mercado de alto valor agregado que exige rigor técnico desde a colheita até o pós-processamento.

Atualmente, cerca de 3% da produção nacional é classificada como cacau fino, mas a meta é alcançar 10% até o fim da década. O reconhecimento internacional já começou a chegar. O Brasil foi oficialmente reconhecido pela International Cocoa Organization (ICCO) como produtor de cacau fino e tem acumulado prêmios em concursos internacionais de chocolate.

Para sustentar esse salto qualitativo, foi criada a Unidade Mista de Pesquisa e Inovação do Cacau, resultado da cooperação entre a Ceplac e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A iniciativa concentra esforços em melhoramento genético, defesa fitossanitária, manejo sustentável e inovação tecnológica, conectando ciência aplicada às demandas reais do produtor.

Almeirim mostra como políticas nacionais ganham vida no território

Enquanto o plano nacional traça diretrizes, é no campo que a estratégia se materializa. Um exemplo vem de Almeirim, no Baixo Amazonas, onde a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater-PA), em parceria com a Prefeitura de Almeirim, conduz um trabalho pioneiro de estruturação da cadeia produtiva do cacau.

Na comunidade Morada Nova I, doze famílias iniciaram um processo de qualificação técnica que inclui poda calculada, enxertia e planejamento produtivo. A adoção de práticas simples, de baixo custo, já mostra impacto direto: a poda correta pode elevar a produtividade em até 50% de forma imediata.

A experiência também revela como políticas públicas integradas transformam realidades. Além da assistência técnica, os agricultores contam com ações de regularização fundiária do Instituto de Terras do Pará (Iterpa) e articulação para acesso ao crédito rural. O resultado é um novo horizonte econômico para pequenos produtores que, até pouco tempo, viam a agricultura como atividade de subsistência.

Aos 67 anos, o agricultor Delivaldo Monteiro resume o sentimento local ao apostar no cacau como principal fonte de renda futura. Em sua propriedade, reservou um hectare para o plantio de mais de mil pés de cacau, com planos de irrigação e financiamento orientado.

O que acontece em Almeirim ajuda a explicar por que o cacau voltou ao centro do debate agrícola brasileiro. Mais do que recuperar números, o país tenta construir uma cacauicultura capaz de gerar renda, preservar florestas e atender às exigências de um mercado global cada vez mais atento à origem e à qualidade do que consome.