Rios da Amazônia ganham ‘raio-X’ 3D: tecnologia do SGB revela segredos do leito fluvial

O equipamento, chamado ecobatímetro multifeixe, permite gerar imagens em 3D da morfologia fluvial e identificar detalhes invisíveis a olho nu, como pilares de pontes, oleodutos enterrados e erosões em fundações. — Foto: Foto: Lucas Macedo/g1 AM
O equipamento, chamado ecobatímetro multifeixe, permite gerar imagens em 3D da morfologia fluvial e identificar detalhes invisíveis a olho nu, como pilares de pontes, oleodutos enterrados e erosões em fundações. — Foto: Foto: Lucas Macedo/g1 AM

Um avanço científico sem precedentes está transformando o conhecimento sobre os rios da Amazônia. Pela primeira vez, o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) utiliza tecnologia de sonar multifeixe para produzir um mapeamento tridimensional de alta resolução do leito de rios amazônicos. O projeto, que combina geofísica, navegação de precisão e inteligência de dados, promete revolucionar desde a segurança da navegação ribeirinha até a compreensão dos processos geológicos da maior bacia hidrográfica do planeta.

“Estamos criando um ‘raio-X’ do fundo dos nossos rios. É como se, pela primeira vez, pudéssemos enxergar com clareza o que sempre esteve escondido sob as águas turvas da Amazônia”, explica o geólogo Marcelo Fonseca, coordenador técnico do projeto no SGB.

Como funciona a tecnologia que “enxerga” debaixo d’água

O coração do projeto é o sonar multifeixe (MBES), um sistema acústico que emite centenas de feixes de som em formato de leque, varrendo uma faixa ampla do fundo do rio a cada instante. Ao medir o tempo que o som leva para voltar após atingir o leito, o equipamento calcula a profundidade com precisão centimétrica.

SGB usa tecnologia inédita para mapear fundo dos rios da Amazônia em 3D — Foto: Foto: Lucas Macedo/g1 AM
SGB usa tecnologia inédita para mapear fundo dos rios da Amazônia em 3D — Foto: Foto: Lucas Macedo/g1 AM

 

Mas o MBES não trabalha sozinho. Ele é integrado a:

  • Sistema de navegação GPS/INS: garante posicionamento exato da embarcação, corrigindo movimentos de onda e correnteza;
  • Sonar de varredura lateral (SSS): gera imagens acústicas de alta resolução da textura do fundo, identificando objetos como troncos, rochas e estruturas artificiais;
  • Perfilador de subfundo (SBP): “enxerga” camadas geológicas abaixo dos sedimentos recentes, revelando a estrutura profunda do leito.

A fusão desses dados em um Sistema de Informação Geográfica (SIG) produz um modelo digital 3D dinâmico, onde cada ponto do rio tem coordenada, profundidade, textura e contexto geológico associados.

O que o mapeamento já revelou (e o que ainda pode descobrir)

Tipo de descobertaExemplo identificadoImpacto potencial
Variações batimétricasCanais secundários não cartografadosMelhoria nas rotas de navegação comercial
Estruturas submersasRemanescentes de antigas pontes e atracadourosPreservação do patrimônio histórico fluvial
Anomalias geológicasFalhas e dobras em camadas sedimentaresBase para estudos de riscos geológicos
Habitats bênticosÁreas de substrato rochoso com alta biodiversidadeSubsídio para políticas de conservação

“Não se trata apenas de ‘mapear por mapear’. Cada metro cúbico de dado gerado pode ajudar uma comunidade ribeirinha a navegar com mais segurança, um pesquisador a entender a dinâmica dos sedimentos, ou um gestor público a planejar infraestrutura com menor impacto ambiental”, destaca a oceanógrafa Ana Clara Mendes, parceira do projeto pela :Veja como o mapeamento 3D pode tornar a navegação fluvial mais segura

Por que isso importa para a Amazônia — e para o Brasil

A bacia Amazônica concentra cerca de 20% da água doce superficial do planeta e conecta mais de 30 milhões de pessoas, muitas delas dependentes exclusivamente do transporte fluvial. No entanto, grande parte dos rios da região ainda possui cartografia batimétrica desatualizada ou inexistente.

Serviço Geológico do Brasil (SGB) O novo mapeamento 3D do SGB preenche essa lacuna estratégica com três benefícios imediatos:

  1. Segurança pública: Redução de acidentes com embarcações ao identificar bancos de areia móveis, troncos submersos e variações bruscas de profundidade;
  2. Gestão ambiental: Monitoramento preciso de processos erosivos e de deposição de sedimentos, essenciais para prever impactos de mudanças climáticas;
  3. Soberania de dados: Produção de informação geocientífica nacional, reduzindo a dependência de tecnologias e bases de dados estrangeiras.

Entenda a diferença entre sonar, LiDAR e satélite no monitoramento da Amazônia

Perguntas frequentes sobre o projeto

O mapeamento vai identificar reservas de petróleo?
Não diretamente. O perfilador de subfundo pode revelar estruturas geológicas potencialmente associadas a hidrocarbonetos, mas a confirmação de reservatórios exige perfuração e análises específicas — atribuição da Petrobras, não do SGB.

Segundo o SGB, os resultados consolidados devem ser divulgados em até dois meses, com a produção de artigos científicos, notas técnicas e mapas temáticos. — Foto: Foto: Lucas Macedo/g1 AM
Segundo o SGB, os resultados consolidados devem ser divulgados em até dois meses, com a produção de artigos científicos, notas técnicas e mapas temáticos. — Foto: Foto: Lucas Macedo/g1 AM

Os dados serão públicos?
Sim. Seguindo a política de dados abertos do SGB, os produtos finais (modelos 3D, mapas batimétricos e metadados) serão disponibilizados gratuitamente na Plataforma de Dados Geocientíficos do Brasil, após validação técnica.

Como as comunidades ribeirinhas podem acessar essas informações?
O SGB planeja lançar, ainda em 2026, um aplicativo móvel simplificado com alertas de navegação e mapas offline para áreas com conectividade limitada.

Próximos passos e como acompanhar

  • Portal oficial do SGB/CPRM
  • Siga a hashtag #Amazônia3D nas redes sociais da Revista Amazônia
  • Inscreva-se na newsletter temática Amazônia Tech

Você é pesquisador, gestor público ou membro de comunidade ribeirinha? Conte para a gente: qual informação sobre os rios da Amazônia seria mais útil para o seu trabalho? Deixe seu comentário abaixo ou envie sua sugestão para [email protected].