Cidades resilientes são chave contra crise climática

Como florestas urbanas protegem cidades do clima

Adaptação climática é investimento inadiável para o Sul Global

Ondas de calor que sobrecarregam hospitais, enchentes que paralisam sistemas de transporte e energia, poluição do ar que reduz a expectativa de vida e secas que elevam o preço dos alimentos deixaram de ser eventos isolados. Esses choques passaram a compor a paisagem recorrente de risco no Sul Global. O que antes era exceção agora é padrão. E, diante desse novo cenário, a adaptação climática deixou de ser pauta complementar para se tornar uma decisão estratégica sobre estabilidade econômica e sobrevivência institucional.

A questão central não é mais se os impactos climáticos virão, mas quanto custará ignorá-los. Governos e investidores enfrentam uma escolha objetiva: continuar absorvendo perdas crescentes e imprevisíveis ou investir antecipadamente para reduzir danos antes que se transformem em crises fiscais, sanitárias e sociais. A adaptação, nesse contexto, representa o caminho mais imediato e economicamente eficiente para reduzir risco físico antes que ele se converta em colapso sistêmico.

Ainda assim, a adaptação segue sendo a área mais subfinanciada da agenda climática. Estima-se que apenas até 5% do financiamento climático privado global seja direcionado a iniciativas de adaptação. Em países de baixa renda, cerca de 10% das perdas provocadas por desastres contam com cobertura de seguros. O restante é absorvido por governos com pouco espaço fiscal ou diretamente pelas populações afetadas.

Risco climático tornou-se risco fiscal

Os impactos climáticos atingem o Sul Global de forma desproporcional. Crescimento urbano acelerado, aumento populacional e fragilidade fiscal ampliam a exposição. Quando enchentes interrompem o fornecimento de água ou energia, quando ondas de calor pressionam sistemas de saúde ou quando secas afetam a produção agrícola, as consequências ultrapassam o evento imediato.

As perdas se acumulam nos balanços públicos. O perfil de crédito soberano se deteriora, o custo do endividamento aumenta e governos entram em ciclos de gasto emergencial contínuo. Recursos que poderiam financiar infraestrutura estratégica acabam direcionados para reconstrução, assistência social e importações emergenciais. O resultado é uma espiral que enfraquece capacidade de investimento de longo prazo.

A adaptação atua justamente na prevenção dessa espiral. Quando implementada de forma estruturada, estabiliza receitas, protege ativos e reduz volatilidade econômica. Em vez de reagir ao desastre, cria resiliência antes que ele ocorra.

Miguel Schincariol/AFP
Foto: Miguel Schincariol/AFP

Cidades concentram oportunidade e risco

O impacto sistêmico da adaptação se manifesta sobretudo no nível urbano. Até 2050, cidades africanas deverão abrigar aproximadamente 950 milhões de novos habitantes. A infraestrutura construída nas próximas décadas determinará se essas áreas urbanas consolidarão vulnerabilidades ou estabelecerão bases resilientes.

Sistemas urbanos são interdependentes, hospitais dependem de energia confiável. Energia depende de água. Água depende de redes de drenagem adequadas. Cadeias alimentares dependem de logística funcional. Quando um desses sistemas falha, o efeito se propaga por toda a economia.

Intervenções como florestas urbanas, parques, telhados verdes, corredores térmicos, superfícies refletivas, lagos urbanos e sistemas modernos de drenagem pluvial reduzem estresse térmico e risco de enchentes, além de melhorar a qualidade do ar. Essas medidas não são melhorias estéticas. Funcionam como infraestrutura essencial que protege desempenho econômico e estabilidade social.

O plano de ação contra o calor de Ahmedabad, na Índia, tornou-se referência ao integrar alertas precoces, protocolos de saúde pública e planejamento urbano adaptativo. Em Medellín, na Colômbia, corredores verdes reduziram temperaturas médias em áreas críticas e melhoraram qualidade de vida, demonstrando que adaptação em escala urbana pode gerar retorno econômico e social duradouro.

Retornos econômicos e dividendos de saúde

Estudos indicam que cada dólar investido em adaptação pode gerar mais de 10,50 dólares em benefícios econômicos, considerando perdas evitadas, aumento de produtividade e estabilização fiscal. O retorno não se limita à prevenção de danos materiais. Ele se manifesta também em ganhos de saúde pública.

Em Bangladesh, investimentos contínuos em infraestrutura de abastecimento de água livre de arsênio reduziram a incidência de doenças cardiovasculares e câncer. O resultado foi aumento de produtividade da força de trabalho e redução de custos hospitalares. Sob liderança do Brasil, o Plano de Ação em Saúde de Belém, adotado na COP30 e lançado com compromisso inicial de 300 milhões de dólares da Climate and Health Funders Coalition, propõe incorporar resiliência climática diretamente nos sistemas de saúde. A lógica é clara: adaptação deve ser tratada como seguro estrutural, não como gasto opcional.

Agricultura, água e cidades formam outro ponto crítico. A África Subsaariana perde cerca de 4 bilhões de dólares por ano com perdas pós-colheita, grande parte associada a estresse hídrico e deterioração climática. Esses prejuízos pressionam preços urbanos, ampliam dependência de importações e fragilizam orçamentos públicos.

O programa Agricultura Inteligente para o Clima do Quênia, apoiado pelo World Bank e pelo African Development Bank, mobilizou 250 milhões de dólares combinando capital concessional e comercial. O programa investiu em cultivos resistentes à seca, armazenamento refrigerado e sistemas de microirrigação. Após seis anos, mais de 771 mil pequenos agricultores — 55% mulheres — foram beneficiados, com aumento médio de produtividade de 24%.

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Arquitetura financeira para viabilizar escala

Um dos principais entraves à expansão da adaptação é a percepção de que seus retornos são indiretos ou difíceis de mensurar. Em nível de projeto individual, essa complexidade existe. Mas em nível sistêmico, os mercados já precificam risco agregado. Infraestruturas expostas a eventos extremos tendem a se desvalorizar. Economias vulneráveis enfrentam prêmios de risco mais elevados.

O desafio central não é ausência de retorno, mas desalinhamento entre quem investe e quem se beneficia. A adaptação gera benefícios distribuídos pela economia. Para torná-la atrativa ao capital privado, é necessário estruturar mecanismos de compartilhamento de risco.

O Climate Investment Fund for Pakistan, lançado pelo Reino Unido em parceria com a International Finance Corporation, combina capital concessional de primeira perda, gestão de investimentos e assistência técnica. O objetivo é reduzir riscos iniciais e criar carteira de projetos de adaptação viáveis em setores como agricultura, água e infraestrutura.

Na África, a Adaptation Finance Window for Africa, iniciativa da Investment Mobilisation Collaboration Alliance, comprometeu 40 milhões de euros para reduzir riscos de investimentos privados em infraestrutura resiliente por meio de capital catalítico.

Três elementos são determinantes para viabilizar adaptação em escala: mecanismos de compartilhamento de risco, como garantias e seguros; padronização de estruturas e métricas confiáveis; e alinhamento em moeda local, já que receitas de adaptação são essencialmente domésticas.

Decisão estratégica de alocação de capital

A próxima década será decisiva para o Sul Global. Trilhões de dólares serão investidos em infraestrutura, sistemas urbanos e serviços essenciais. A questão é se esses ativos serão construídos com vulnerabilidades incorporadas ou com resiliência integrada desde o início.

Investidores já incorporam risco climático físico em ativos de longa duração. O que mudou é que mesmo capital de horizonte mais curto passou a precificar eventos extremos recorrentes. A adaptação deixou de ser questão de valores ambientais. Tornou-se questão de avaliação de risco e preservação de retorno.

Mitigação continua essencial para limitar o aquecimento global. Mas sem adaptação, mesmo cenários de emissões controladas não evitarão perdas crescentes nas próximas décadas. Para o Sul Global, adiar esse investimento significa aprofundar fragilidade fiscal, social e econômica.

adaptação não é despesa adicional. É instrumento de proteção estrutural. E, diante da intensidade e frequência dos impactos climáticos atuais, é um investimento que não pode mais ser postergado.