Cajueiro de Pirangi ganha proteção integral como monumento natural


Um gigante da natureza finalmente protegido por lei

Na praia de Pirangi do Norte, em Parnamirim, no litoral do Rio Grande do Norte, um símbolo vivo da relação entre natureza, cultura e território acaba de ganhar proteção definitiva. O maior cajueiro do mundo, conhecido internacionalmente como Cajueiro de Pirangi, foi oficialmente transformado em Unidade de Conservação com a criação do Monumento Natural Estadual Cajueiro de Pirangi. A medida assegura proteção integral a uma das árvores mais extraordinárias do planeta e a todo o ecossistema que se desenvolveu ao seu redor.

Foto: João Vital

A criação da unidade foi formalizada por decreto estadual assinado no final de dezembro pela governadora Fátima Bezerra, do Governo do Rio Grande do Norte. Com área total de 8.497,54 metros quadrados, o monumento natural abrange toda a extensão do cajueiro, cujo perímetro chega a cerca de 500 metros. Mais do que um ponto turístico, a árvore passa a ser reconhecida como patrimônio ambiental protegido por lei, com regras específicas de manejo, pesquisa e visitação.

Uma árvore que desafia a biologia e o tempo

O Cajueiro de Pirangi não impressiona apenas pelo tamanho, mas pela forma como cresce. Seu porte monumental é resultado de uma anomalia genética rara, que faz com que seus galhos se desenvolvam horizontalmente. Ao tocar o solo, esses ramos criam novas raízes, dando origem a troncos secundários que continuam o processo de expansão. O resultado é uma única árvore que se espalha como uma floresta, ocupando uma área estimada em quase 9 mil metros quadrados.

Esse fenômeno levou ao reconhecimento oficial pelo Guinness World Records em 1994, consolidando o cajueiro potiguar como o maior do mundo. Desde então, o local se tornou um dos principais cartões-postais do litoral potiguar, atraindo turistas, pesquisadores, estudantes e curiosos interessados em compreender como a natureza pode ultrapassar limites considerados improváveis.

Ao completar cerca de 137 anos, o cajueiro segue vivo, produtivo e resiliente. Sua longevidade e singularidade reforçam a importância de políticas públicas voltadas não apenas à conservação de áreas extensas, mas também à proteção de elementos naturais únicos, cuja perda seria irreversível.

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Conservação, ciência e espécies ameaçadas

A criação do Monumento Natural Estadual Cajueiro de Pirangi vai além da proteção da árvore em si. O decreto estabelece objetivos claros de incentivo à pesquisa científica, à educação ambiental e à preservação da fauna local. Entre os destaques estão duas espécies ameaçadas de extinção que encontram refúgio no entorno do cajueiro: o lagartinho-do-foliço (Coleodactylus natalensis) e a cobra-de-duas-cabeças (Amphisbaena heathi).

Esses animais dependem de microambientes específicos, como o solo protegido, a serapilheira e a vegetação associada ao cajueiro. A conversão da área em unidade de conservação cria condições para o monitoramento dessas espécies, o desenvolvimento de estudos científicos e a adoção de estratégias de manejo que reduzam impactos humanos, como pisoteamento excessivo, compactação do solo e degradação do habitat.

Além disso, o monumento natural se propõe a ser um espaço de aprendizado. Escolas, universidades e instituições de pesquisa poderão utilizar o local como laboratório vivo, conectando ciência, educação e sensibilização ambiental. Ao transformar o turismo em ferramenta pedagógica, o Estado fortalece uma visão de conservação que envolve a sociedade e gera pertencimento.

Turismo sustentável e identidade potiguar

Durante a solenidade de criação da unidade de conservação, realizada no aniversário de 137 anos do cajueiro, a governadora Fátima Bezerra destacou o valor simbólico da iniciativa. Para ela, o Cajueiro de Pirangi representa mais do que um recorde natural: é parte da identidade cultural e histórica do povo potiguar. Ao transformá-lo em unidade de conservação, o Estado garante proteção legal, gestão adequada e a preservação desse patrimônio para as futuras gerações.

O reconhecimento como monumento natural também abre caminho para o fortalecimento do turismo sustentável. A expectativa é que a visitação seja organizada de forma a equilibrar fluxo turístico, geração de renda e conservação ambiental. Guias locais, comércio de artesanato, serviços e atividades educativas podem se beneficiar diretamente da valorização do espaço, impulsionando a economia local sem comprometer o ecossistema.

Como a 12ª unidade de conservação estadual do Rio Grande do Norte, o Monumento Natural Cajueiro de Pirangi reforça o papel do Estado na ampliação de áreas protegidas e na diversificação de categorias de conservação. A iniciativa demonstra que proteger a biodiversidade não significa isolar a natureza, mas integrá-la de forma responsável ao cotidiano das pessoas.

Em um país marcado por perdas ambientais aceleradas, a proteção do maior cajueiro do mundo surge como um gesto simbólico e concreto. É a afirmação de que preservar também é reconhecer histórias vivas, respeitar a ciência e garantir que a relação entre sociedade e natureza possa florescer — assim como os galhos do cajueiro que, ao tocar o chão, insistem em continuar crescendo.