
Robótica assume papel estratégico no fim das energias fósseis
Durante décadas, petróleo, gás, mineração e energia nuclear moldaram o desenvolvimento industrial. Agora, à medida que parte dessas infraestruturas envelhece ou se torna incompatível com metas climáticas, surge um desafio silencioso e complexo: desmontar com segurança o que foi construído para durar. É nesse cenário que a robótica deixa de ser promessa futurista e se torna ferramenta central no descomissionamento de atividades consideradas “energias sujas”.
O uso de sistemas automatizados não representa apenas avanço tecnológico. Ele redefine a lógica da segurança do trabalho, da gestão ambiental e da economia circular. Ao assumir tarefas em ambientes extremos — profundidades oceânicas, estruturas instáveis ou áreas contaminadas por radiação — máquinas passam a ocupar o lugar antes reservado a trabalhadores expostos a riscos críticos.
No Brasil, iniciativas desenvolvidas pela Petrobras em parceria com a PUC-Rio exemplificam essa transição. O robô AURI Diverless, sigla para Autonomous Underwater Riser Inspection, simboliza uma nova geração de equipamentos que unem inspeção, limpeza e monitoramento remoto em ambientes submarinos de alta complexidade.
Inspeção submarina: máquinas onde o mergulhador não alcança
Dutos flexíveis offshore, conhecidos como risers, transportam petróleo e gás entre o fundo do mar e plataformas de produção. Localizados a dezenas de metros de profundidade, esses tubos estão sujeitos a desgaste, pressão constante e impactos ambientais. Inspecioná-los sempre foi uma tarefa de alto risco, dependente de mergulhadores especializados.
Com o AURI Diverless, essa equação muda. Equipado com câmeras de alta resolução e capacidade de inspeção em 360 graus, o robô percorre toda a circunferência do duto, identificando bolhas, rasgos e deformações que podem sinalizar vazamentos ou falhas estruturais. Diferentemente de veículos operados remotamente tradicionais, ele consegue acessar áreas próximas ao casco da plataforma, onde a movimentação humana é limitada.
Os números revelam o impacto dessa substituição tecnológica. Estima-se que o uso do equipamento possa evitar mais de 1.300 horas de mergulho em determinadas campanhas de inspeção. Isso significa menos exposição a riscos de descompressão, fadiga e acidentes subaquáticos. Além disso, o robô realiza a limpeza em velocidade até dez vezes superior à de equipes humanas.
O processo não elimina o papel dos profissionais. Operadores a bordo controlam o sistema, enquanto equipes técnicas em terra analisam os vídeos gravados, avaliam a integridade estrutural e constroem um histórico detalhado do ativo. A robótica, nesse caso, não extingue empregos; ela desloca competências para atividades de análise, planejamento e tomada de decisão.

Demolição inteligente e reaproveitamento de materiais
O descomissionamento não se limita ao fundo do mar. Plataformas, refinarias e instalações industriais precisam ser desmontadas após décadas de operação. Tradicionalmente, esse processo envolve risco de colapso estrutural, exposição a poeira tóxica e manuseio de materiais contaminados.
Robôs de demolição remotos, como os desenvolvidos pela empresa sueca Brokk, permitem que operadores conduzam a destruição controlada de estruturas a uma distância segura. Equipamentos compactos entram em áreas instáveis, removem concreto e aço e reduzem drasticamente a chance de acidentes por queda de materiais.
Outra inovação é o robô ERO, projetado para desmontar concreto por meio de hidrojateamento de alta pressão. Em vez de triturar indiscriminadamente, ele separa agregado, cimento e água, possibilitando a reutilização desses componentes em novas construções. O vergalhão é isolado e pode retornar rapidamente à cadeia produtiva.
Esse tipo de tecnologia transforma o desmonte em oportunidade de economia circular. Milhares de toneladas de concreto e metal deixam de ser descartadas e passam a alimentar novos projetos. O encerramento de uma instalação deixa de ser apenas passivo ambiental e passa a integrar uma lógica de reaproveitamento de recursos.
Mineração e nuclear: automação como escudo
A robótica também avança em setores historicamente associados a riscos ocupacionais elevados. Na mineração, a transição de processos analógicos para sistemas digitais e autônomos busca afastar trabalhadores das frentes mais perigosas, como galerias subterrâneas instáveis ou superfícies de extração de carvão.
Veículos autônomos, perfuratrizes automatizadas e sistemas de monitoramento remoto reduzem a presença humana em áreas suscetíveis a desmoronamentos, explosões ou exposição a poeiras tóxicas. Ao mesmo tempo, aumentam a precisão operacional e a previsibilidade dos processos.
No setor nuclear, o descomissionamento de reatores exige descontaminação e desmontagem de estruturas com materiais radioativos. Equipamentos robotizados tornam-se essenciais para manipular componentes sob rigoroso controle regulatório, minimizando a exposição humana à radiação. A operação dessas tecnologias ocorre sob supervisão de órgãos como a Comissão Nacional de Energia Nuclear, responsável por estabelecer padrões de segurança no Brasil.
Em ambos os casos, a robótica atua como barreira física entre o trabalhador e o perigo. Ela não elimina o risco inerente às atividades, mas reduz drasticamente a probabilidade de acidentes graves e doenças ocupacionais associadas a substâncias como amianto, sílica, mercúrio e materiais radioativos de ocorrência natural.

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Robótica e transição energética: eficiência com responsabilidade
À medida que o mundo acelera a transição para fontes renováveis, o encerramento responsável de ativos fósseis torna-se parte da agenda climática. Descomissionar com segurança é tão importante quanto investir em energia limpa.
A integração entre robótica e inteligência artificial amplia esse potencial. Sistemas automatizados podem otimizar rotas de inspeção, prever falhas estruturais e planejar desmontagens com menor emissão de carbono. A precisão reduz desperdícios, enquanto a ausência de fadiga humana garante consistência em tarefas críticas.
Há também impacto financeiro. Ao reduzir acidentes, paralisações e passivos trabalhistas, empresas ganham previsibilidade de custos. Ao reaproveitar materiais, diminuem despesas com descarte e aquisição de novos insumos. A tecnologia, nesse contexto, deixa de ser apenas investimento e passa a ser estratégia.
O avanço da robótica no descomissionamento revela um paradoxo produtivo: máquinas criadas para operar em ambientes extremos ajudam a corrigir excessos de um modelo energético baseado em exploração intensiva. Elas não substituem o debate sobre matriz energética, mas tornam o encerramento das atividades mais seguro, eficiente e alinhado à lógica da economia circular.
Se o século XX foi marcado pela expansão das infraestruturas fósseis, o século XXI pode ser lembrado pela forma como essas estruturas foram desativadas. Nesse processo, a robótica assume papel central, não como símbolo de automação fria, mas como instrumento de proteção humana e responsabilidade ambiental.











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