Brasil responde por 70% do comércio mundial de bexiga de peixes para a Ásia


Ouro oculto nas redes e a rota clandestina das vísceras brasileiras

Nas águas turvas que banham as costas Norte e Nordeste do Brasil, um mercado invisível aos olhos do grande público movimenta cifras que rivalizam com o tráfico de drogas e pedras preciosas. O objeto de desejo não é a carne do peixe, mas um órgão interno muitas vezes descartado no consumo doméstico: a bexiga natatória. Esse subproduto, essencial para a flutuabilidade das espécies, tornou-se o ouro das águas, alimentando uma cadeia de exportação ilegal que tem como destino final as mesas da elite asiática. O Brasil consolidou-se como um dos pilares desse comércio global, respondendo, ao lado de um punhado de outras nações, por até setenta por cento das bexigas que chegam à China. O apetite estrangeiro por sopas e remédios tradicionais transformou peixes como a pescada-amarela em alvos de uma caça predatória que ignora fronteiras e leis.

Pescada amarela no Brasil - Reprodução

Uma iguaria movida pelo crime transnacional

A valorização dessas vísceras no mercado asiático é tão extrema que a logística para sua extração e transporte assumiu contornos profissionais de criminalidade organizada. O interesse recai sobre espécies específicas cujas características biológicas conferem às bexigas uma textura e valor cultural diferenciados. A pescada-amarela e a corvina do Atlântico são as principais vítimas dessa engrenagem. O processo começa na pesca ilegal, muitas vezes dentro de áreas de proteção ambiental, e segue por uma rede de processamento que opera nas sombras. Em uma operação recente conduzida pelas autoridades, foram descobertas toneladas de barbatanas e bexigas natatórias em galpões clandestinos em Santa Catarina. Esses locais funcionam sem qualquer higiene ou a chancela do Serviço de Inspeção Federal (SIF), preparando o produto para atravessar o oceano sob declarações falsas.

A engrenagem da corrupção e os portos da ilegalidade

Para que esse comércio prospere, a corrupção em níveis locais atua como o óleo que lubrifica as engrenagens da exportação. O tráfico de vida selvagem não é um crime isolado; ele está profundamente entrelaçado a falhas nos sistemas financeiros globais e à subversão de agentes públicos. Relatórios produzidos pelo World Resources Institute (WRI) apontam que o estrangulamento desses fluxos financeiros é a única forma de combater a atividade com eficácia. Quando o lucro é astronômico, as multas administrativas tornam-se apenas um detalhe contábil. A legislação brasileira, por meio da Lei de Crimes Ambientais, permite que as sanções sejam triplicadas caso o benefício econômico seja desproporcional à multa base, mas a morosidade do Judiciário e a dificuldade em rastrear o dinheiro lavado tornam a punição uma miragem distante. Sem uma fiscalização rigorosa nos portos e uma cooperação internacional de inteligência, o ouro das águas continuará fluindo livremente.

Foto: lena_serditova

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Estratégias de estrangulamento financeiro e controle

Atualmente, o Brasil lida com o desafio de transformar suas leis em ferramentas de dissuasão real. O IBAMA enfrenta a hercúlea tarefa de vigiar uma costa imensa com recursos limitados, enquanto as redes criminosas utilizam tecnologias de ponta para ocultar seus rastros. O debate sobre a progressividade das multas, inspirado em modelos internacionais e em propostas que já tramitam na Câmara dos Deputados para o setor de trânsito, surge como uma alternativa viável para o campo ambiental. Se a punição fosse calculada com base no faturamento das empresas envolvidas ou no patrimônio dos infratores, o risco de operar na ilegalidade deixaria de valer a pena. Enquanto a sanção for um valor fixo e muitas vezes baixo perante o mercado chinês, o incentivo para burlar as normas sanitárias e ambientais permanecerá alto, mantendo o ciclo de degradação da biodiversidade marinha e a evasão de divisas.

Impacto humano e o silêncio das comunidades costeiras

Além do prejuízo biológico irreparável, o tráfico de bexigas natatórias impõe um clima de medo e violência às comunidades tradicionais. Pescadores artesanais veem seus estoques pesqueiros minguarem devido à pesca industrial predatória, enquanto líderes comunitários que tentam denunciar as irregularidades tornam-se alvos de represálias. A FUNAI e outras entidades de proteção aos direitos humanos alertam que a invasão de territórios protegidos por redes de tráfico de vida selvagem desestrutura os modos de vida locais. O cenário é agravado pela crise climática, que já ameaça regiões litorâneas com a erosão e o aumento do nível do mar, conforme monitorado pela ONU. O desterro causado pela falta de peixe e pela insegurança transforma moradores em refugiados em sua própria terra. Resolver o enigma do ouro das águas não é apenas uma questão de preservação de espécies, mas um imperativo de justiça social e soberania nacional.