
Quando a floresta vira livro
Em muitas regiões da Amazônia, a morte de um ancião não representa apenas uma perda familiar. Pode significar o desaparecimento de bibliotecas inteiras guardadas na memória. Foi essa percepção que mobilizou jovens do povo Matsés, na fronteira entre Brasil e Peru, a organizar um dos mais emblemáticos movimentos contemporâneos de registro de saberes indígenas.
Após a partida de um líder que levou consigo conhecimentos que nunca haviam sido escritos, a comunidade decidiu agir. Com o apoio dos xamãs, nasceu a Enciclopédia Matsés de Medicina Tradicional, um documento com mais de 500 páginas que organiza doenças, tratamentos, rituais e espécies da floresta usadas há gerações. O texto foi redigido na própria língua Matsés, uma escolha estratégica: preservar o conteúdo e dificultar sua apropriação externa.
A iniciativa não foi isolada. Entre os Pataxó Hã-Hã-Hãi, o pesquisador indígena Hemerson Dantas dos Santos conduziu um levantamento que catalogou 175 plantas medicinais. O trabalho não apenas organizou informações botânicas, mas ajudou a recompor laços culturais afetados pela dispersão territorial e pela devastação ambiental.
No Amapá, o Plano de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Wajãpi fortaleceu a formação de pesquisadores e documentaristas indígenas. Em vez de esperar que universidades ou instituições externas definam o que deve ser registrado, são os próprios Wajãpi que escolhem os temas que consideram essenciais. O registro, nesse caso, é também exercício de autonomia.
Ciência intercultural e território
O movimento de registro dos saberes indígenas não se restringe à escrita de livros. Ele envolve práticas colaborativas que unem ciência acadêmica e conhecimento tradicional.
Na aldeia Ipaupixuna, no Pará, o povo Munduruku participou de um levantamento etnobotânico que identificou 88 espécies úteis, das quais 68 têm aplicação medicinal. A pesquisa foi conduzida em parceria com pesquisadoras da Universidade Federal do Oeste do Pará, a Ufopa, e resultou em uma proposta concreta: criar florestas medicinais e etnoquintais.
Essas florestas medicinais não são fragmentos de mata preservada ao acaso. São sistemas agroflorestais planejados, compostos exclusivamente por espécies com propriedades curativas. Organizadas para facilitar o acesso e reduzir o tempo de coleta, funcionam como farmácias vivas em regiões onde hospitais e medicamentos industrializados estão a dias de viagem.
Os etnoquintais, por sua vez, fortalecem o cultivo tradicional ao redor das casas, ampliando a diversidade de plantas úteis e garantindo que o conhecimento circule entre gerações. Ao sistematizar práticas que já existiam, a comunidade transforma tradição em estratégia de segurança sanitária e soberania territorial.
No Alto Rio Içá, no Amazonas, o Inventário Rápido Biológico e Social reuniu povos Kukama, Tikuna e Kambeba em um esforço de ciência intercultural. Eles atuaram como guardiões da floresta e dos rios, colaborando ativamente na documentação da flora e na identificação de usos tradicionais. A produção de dados não foi imposta de fora; emergiu do diálogo entre pesquisadores e comunidades.
Na região do Rio Tiquié, também no Amazonas, um programa de longo prazo resultou na elaboração de um Manual de Etnobotânica que ensina técnicas de coleta, identificação e registro de espécies. O documento é ferramenta pedagógica e instrumento político: permite que jovens pesquisadores indígenas conduzam seus próprios inventários, ampliando a capacidade de gestão do território.

Saúde, identidade e transmissão
Em comunidades Macuxi e Wapixana, nas aldeias Vista Alegre e Darora, em Roraima, foram registradas 82 espécies medicinais. O levantamento revelou algo que números não capturam totalmente: o conhecimento é transmitido em rodas de conversa, no preparo de chás, na coleta de cascas e raízes, na observação paciente da floresta.
Em áreas onde o acesso a medicamentos industrializados é limitado, as plantas não são alternativa folclórica, mas recurso vital. O saber tradicional integra diagnóstico, preparo e aplicação, formando um sistema coerente de cuidado.
Esses inventários funcionam, portanto, como mecanismos de proteção cultural. Ao registrar nomes, modos de preparo e indicações terapêuticas, as comunidades reforçam identidades e reafirmam vínculos com o território. A floresta deixa de ser apenas paisagem e se afirma como espaço de cura, aprendizagem e continuidade histórica.

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Leis, lacunas e disputas globais
Se o protagonismo indígena cresce no campo do registro, o cenário jurídico ainda apresenta fragilidades. O Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado, o SisGen, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, concentra o cadastro de pesquisas e usos econômicos da biodiversidade. No entanto, cerca de 87 por cento dos registros não identificam claramente qual comunidade detém o conhecimento associado.
Essa invisibilidade compromete a repartição justa de benefícios e dificulta o reconhecimento de direitos. A Lei da Biodiversidade, Lei 13.123 de 2015, estabeleceu regras para acesso ao patrimônio genético e aos saberes tradicionais. Apesar de considerada estruturada por especialistas, enfrenta críticas por sua complexidade e pela dificuldade de aplicação prática, sobretudo para comunidades sem assessoria jurídica.
A assimetria de poder nas negociações com empresas e centros de pesquisa é outro obstáculo. Muitas lideranças não dispõem de apoio técnico para analisar contratos complexos. Em alguns casos, o mesmo conhecimento é compartilhado por diferentes povos, o que torna ainda mais delicada a definição de quem deve negociar e receber benefícios.
No plano internacional, a discussão ganhou novos contornos com o avanço do acesso digital a informações genéticas, conhecido como Digital Sequence Information. A possibilidade de utilizar sequências genéticas armazenadas em bancos de dados, sem acessar fisicamente a espécie na floresta, desafia modelos tradicionais de repartição de benefícios e tem sido tema central em conferências globais sobre biodiversidade.
Estima-se que a biopirataria gere prejuízos bilionários ao Brasil todos os anos. Diante desse cenário, estratégias como a adoção de idiomas tradicionais em documentos internos, a formação de pesquisadores indígenas e a construção de parcerias equilibradas com universidades e instituições científicas tornam-se formas concretas de defesa.
O registro dos saberes indígenas, portanto, não é apenas exercício de memória. É ato político, instrumento de gestão territorial e afirmação de autonomia. Ao transformar a floresta em livro, manual ou jardim organizado, essas comunidades demonstram que tradição e inovação não são opostas. São, na verdade, partes de um mesmo movimento de continuidade.










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