Safra recorde confirma liderança agrícola do Brasil em 2025


Safra recorde confirma força do agro brasileiro, mas impõe novos dilemas ambientais

O Brasil caminha para encerrar 2025 com a maior safra agrícola de sua história. A produção de cereais, leguminosas e oleaginosas deve alcançar 346,1 milhões de toneladas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um crescimento expressivo de 18,2% em relação a 2024. O número consolida o país como uma das maiores potências agrícolas do planeta e reforça o peso estratégico do campo na economia nacional, na segurança alimentar e no comércio internacional.

Agro PR Soja em Guarapuava

O avanço é puxado principalmente por soja, milho e arroz, culturas que, juntas, respondem por mais de 90% do volume colhido e quase 88% da área plantada. A soja, carro-chefe do agronegócio brasileiro, alcança um novo recorde histórico, com 166,1 milhões de toneladas, enquanto o milho chega a 141,7 milhões de toneladas, impulsionado pela expansão da segunda safra e pela crescente demanda para ração animal e produção de etanol. O algodão também atinge patamar inédito, com 9,9 milhões de toneladas, consolidando o Brasil entre os maiores produtores globais da fibra.

Esse desempenho, no entanto, convive com uma realidade mais complexa. Para 2026, o próprio IBGE projeta uma leve retração, com a produção estimada em 339,8 milhões de toneladas, reflexo de ajustes de área, oscilações climáticas e expectativas mais conservadoras para culturas como milho, arroz, sorgo, trigo e algodão.

SAIBA MAIS: Safra de guaraná no Amazonas cresce e surpreende em 2025

Conab projeta novo ciclo de crescimento, apesar dos riscos climáticos

As projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que o ciclo agrícola 2025/2026 ainda pode surpreender positivamente. De acordo com o Quarto Levantamento da Safra de Grãos, a produção total das principais culturas pode atingir 353,1 milhões de toneladas, superando o desempenho do ciclo anterior. A área cultivada também cresce, alcançando 83,9 milhões de hectares, o que revela a contínua expansão da fronteira agrícola.

O protagonismo permanece concentrado na Região Centro-Oeste, responsável por quase metade da produção nacional, seguida pelo Sul e pelo eixo Norte-Nordeste, que juntos ampliam sua participação no volume total. A soja mantém liderança absoluta, com 176,1 milhões de toneladas, enquanto o milho, apesar da ampliação da área plantada, enfrenta perdas de produtividade em algumas regiões devido a eventos climáticos extremos, como estiagens, granizo e variações bruscas de temperatura.

Outras culturas ganham espaço estratégico. O sorgo avança com força, impulsionado pela rotação de culturas e pela demanda do setor de ração. O girassol e a mamona, estimulados pela indústria de biocombustíveis e óleos vegetais, ampliam área e produção, sinalizando uma diversificação gradual da matriz agrícola brasileira.

A conta ambiental da produtividade em alta

Por trás dos números recordes, cresce o debate sobre os custos ambientais do atual modelo de produção. A agricultura moderna, moldada a partir da chamada Revolução Verde do século XX, elevou drasticamente a produtividade global, mas também intensificou processos de degradação do solo, desmatamento, contaminação da água e perda de biodiversidade.

O uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos transformou a paisagem rural e trouxe impactos diretos à saúde humana. Estudos indicam que milhões de trabalhadores rurais sofrem intoxicações todos os anos, especialmente em países em desenvolvimento. No Brasil, levantamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revelam a presença recorrente de resíduos de pesticidas acima dos limites legais ou não autorizados em alimentos de consumo cotidiano.

Além disso, o avanço da produção sobre áreas naturais pressiona ecossistemas sensíveis e compromete serviços ambientais essenciais, como a regulação do clima e a disponibilidade de água. A própria produtividade, paradoxalmente, passa a depender cada vez mais da integridade desses recursos naturais.

Sustentabilidade como eixo do futuro agrícola

Diante desse cenário, ganha força a transição para modelos de agricultura sustentável, defendidos por organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A proposta é clara: produzir mais, sem comprometer a capacidade das próximas gerações de produzir e viver.

Essa mudança passa por uma reorientação profunda do manejo agrícola, com maior atenção à saúde do solo, à diversidade biológica e à redução do uso de insumos químicos. Especialistas defendem uma abordagem sistêmica, que substitua práticas corretivas por estratégias preventivas, fortalecendo a resiliência dos agroecossistemas.

No Brasil, a incorporação de culturas como canola e gergelim nas estatísticas oficiais do IBGE sinaliza essa adaptação gradual a novos mercados e sistemas produtivos. Ao mesmo tempo, políticas públicas, pesquisa científica e inovação tecnológica serão decisivas para equilibrar produtividade, competitividade e responsabilidade ambiental.

A safra recorde de 2025 simboliza o enorme potencial do campo brasileiro. O desafio que se impõe agora é transformar essa potência em um modelo duradouro, capaz de alimentar o país e o mundo sem esgotar os recursos que sustentam a própria agricultura.