SBN ganham espaço nas políticas urbanas brasileiras

Divulgação SBN
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SBN: quando natureza se torna infraestrutura estratégica

Soluções Baseadas na Natureza, conhecidas pela sigla SBN, deixaram de ser conceito acadêmico para ocupar o centro das políticas públicas de adaptação climática. A ideia é direta e poderosa: utilizar o funcionamento saudável dos ecossistemas para enfrentar desafios urbanos e ambientais como enchentes, secas prolongadas, ilhas de calor, escassez hídrica e erosão costeira. O critério essencial é que essas intervenções beneficiem simultaneamente a biodiversidade e a sociedade.

Diferentemente de abordagens apenas inspiradas na natureza, como a biomimética, as SBN dependem da integridade ecológica para gerar resultados. Não se trata de copiar formas naturais, mas de restaurar rios, proteger manguezais, criar parques lineares, infiltrar água no solo e recuperar vegetação nativa. A natureza deixa de ser paisagem decorativa e passa a atuar como infraestrutura viva.

No Brasil, essa abordagem ganhou tração diante da intensificação de eventos extremos. Cidades que antes respondiam às chuvas com canalizações e concreto começam a redescobrir o valor das áreas permeáveis, das várzeas e das florestas urbanas. A transição da chamada infraestrutura cinza para sistemas híbridos ou predominantemente verdes revela mudança de paradigma: prevenir custa menos do que reparar danos.

Benefícios sistêmicos: clima, água, saúde e economia

As SBN oferecem um conjunto de benefícios interligados. Do ponto de vista climático, funcionam como amortecedores naturais. Parques lineares e áreas alagáveis reduzem o pico de cheias, jardins de chuva captam e infiltram águas pluviais, e telhados verdes diminuem a temperatura interna das edificações. Em vez de acelerar o escoamento, a cidade aprende a reter, absorver e desacelerar.

Na segurança hídrica, a restauração de nascentes e mananciais melhora a qualidade da água e reduz custos de tratamento. Ao recompor matas ciliares e proteger bacias hidrográficas, diminui-se o assoreamento e aumenta-se a capacidade de recarga do lençol freático. A lógica é simples: água limpa começa na paisagem.

Foto: Gabriel Rinaldi
Foto: Gabriel Rinaldi

A saúde pública também se beneficia. Áreas verdes reduzem ruído, filtram poluentes atmosféricos e criam espaços de convivência. Parques multifuncionais não apenas controlam enchentes, mas promovem lazer, atividade física e integração social. Em bairros vulneráveis, essas intervenções ajudam a mitigar desigualdades ambientais históricas.

Há ainda impacto econômico. Ao reduzir prejuízos associados a desastres climáticos, as SBN representam economia futura. Além disso, impulsionam uma economia regenerativa, gerando empregos em restauração ecológica, manejo florestal, arquitetura paisagística e inovação verde. A agenda climática deixa de ser custo e passa a ser oportunidade.

Financiamento climático e papel institucional

A expansão das SBN no Brasil está diretamente ligada à estrutura de financiamento climático. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, exerce papel central ao operar linhas de crédito voltadas à mitigação e adaptação. Em parceria com o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, o Fundo Clima, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o banco viabiliza tanto recursos reembolsáveis quanto não reembolsáveis.

O modelo combina apoio direto para grandes projetos, com valores mínimos expressivos, e financiamento indireto por meio de instituições credenciadas, permitindo acesso a empresas de menor porte e até pessoas físicas. As modalidades contemplam desenvolvimento urbano resiliente, transição energética, florestas nativas, indústria verde, mobilidade sustentável e inovação climática.

Um caso emblemático ocorreu em Campinas, onde um projeto de macrodrenagem recebeu financiamento robusto, incluindo recursos do Fundo Clima. A iniciativa integrou infraestrutura tradicional com parques lineares e recuperação vegetal na bacia do Ribeirão Anhumas. Ao mesmo tempo em que controla enchentes, o projeto cria espaços públicos e restaura ecossistemas degradados.

A priorização de SBN dentro dessas linhas de crédito revela compreensão crescente de que adaptação climática precisa considerar justiça climática. Comunidades mais expostas a inundações, deslizamentos e calor extremo devem ser priorizadas, reduzindo vulnerabilidades estruturais.

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Cidade-esponja: experiências brasileiras em curso

O conceito de cidade-esponja sintetiza a aplicação urbana das SBN. Trata-se de reorganizar o território para que ele absorva e infiltre água, em vez de simplesmente drená-la. No Brasil, diferentes cidades vêm adotando essa lógica com resultados visíveis.

Em Curitiba, o Parque Barigui transformou área suscetível a cheias em lago de contenção e espaço de lazer. O Parque Bacacheri e o Parque Guairacá seguem a mesma estratégia de integrar drenagem e uso público. A cidade consolidou reputação histórica em planejamento ambiental ao reconhecer que várzeas podem funcionar como aliadas.

Em Niterói, o Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis tornou-se referência nacional. Com milhares de metros quadrados de alagados construídos e biovaletas, o projeto filtra a água antes que ela alcance a lagoa, reduzindo poluição e melhorando a qualidade ambiental.

São Paulo ampliou a implantação de jardins de chuva, incluindo complexos conectados ao sistema de drenagem no bairro do Pacaembu. Iniciativas como o Bosque da Batata e o Parque da Juventude recuperaram solos e introduziram vegetação nativa, ampliando a permeabilidade urbana.

Outras capitais também avançam. Salvador implementou jardim de chuva na Pituba para enfrentar alagamentos recorrentes. Belo Horizonte desenvolveu o Programa Drenurbs, reintegrando cursos d’água à paisagem. Goiânia criou legislação para estimular jardins de chuva em rotatórias e canteiros. Recife utiliza jardins filtrantes no Parque do Caiara para tratar águas do Riacho do Cavouco. Fortaleza requalificou o Parque Rachel de Queiroz com lagoas de retenção. Londrina recuperou nascentes no Lago do Cabrinha. Uberlândia ampliou retenção hídrica com o Programa Buriti Cidade. Sobral integrou jardim filtrante ao Parque Pajeú.

Tecnologias complementares reforçam esse movimento. Telhados verdes, como iniciativas comunitárias no Rio de Janeiro e projetos corporativos na Avenida Paulista, contribuem para retenção de água e redução térmica. Na proteção costeira, a recuperação de restingas em praias cariocas demonstra como vegetação nativa pode atuar como barreira contra erosão e ressacas.

A multiplicação dessas experiências revela mudança estrutural na forma como o país enxerga infraestrutura. A natureza deixa de ser obstáculo ao crescimento urbano e passa a integrar a solução. SBN tornam-se ponte entre planejamento territorial, adaptação climática e qualidade de vida.

Em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes, investir em ecossistemas funcionais não é romantismo ambiental. É estratégia de sobrevivência urbana. Ao transformar rios, parques, manguezais e florestas em aliados, cidades brasileiras começam a construir resiliência com base na própria paisagem.