La Niña prolonga estiagem e redefine as secas em São Paulo
A persistência de chuvas abaixo da média histórica em São Paulo deixou de ser um evento pontual e passou a configurar um novo padrão climático de risco. Dados recentes indicam que a estiagem tende a se manter ao longo de todo o primeiro trimestre de 2026, aprofundando um quadro de escassez hídrica que já se arrasta desde 2024. O fenômeno La Niña, ainda ativo no Oceano Pacífico, é apontado como um dos principais fatores por trás da dificuldade de avanço de frentes frias e do bloqueio da umidade que normalmente chega ao Sudeste a partir da Amazônia e do Atlântico.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), praticamente todas as estações de medição da Região Metropolitana de São Paulo registram volumes de chuva inferiores à média para janeiro. A exceção pontual do Mirante de Santana não altera o cenário geral, marcado por déficit acumulado e baixa recarga dos solos. O estado já enfrenta seca severa ou extrema há pelo menos 12 meses, condição que compromete não apenas o abastecimento urbano, mas também a agricultura, a geração de energia e os ecossistemas locais.
Especialistas alertam que o ano de 2025 já entrou para a estatística como um dos mais secos da última década. As chuvas de verão foram insuficientes para recompor os estoques naturais de água, deixando São Paulo mais vulnerável justamente na entrada de um novo período seco.
Reservatórios em queda e pressão sobre o abastecimento urbano
O impacto mais visível da estiagem prolongada está nos reservatórios que abastecem a capital paulista e os municípios vizinhos. O Sistema Integrado Metropolitano, operado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), opera com pouco mais de 27% da capacidade, patamar semelhante ao registrado em janeiro de 2016, durante a lenta recuperação da crise hídrica anterior.
O quadro é ainda mais delicado no Sistema Cantareira, principal manancial da região metropolitana e responsável por mais de 40% da água distribuída. Monitorado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Cantareira opera abaixo de 20% do volume útil, com destaque negativo para o reservatório Jaguari-Jacareí, que concentra a maior parte da capacidade do sistema e apresenta níveis próximos do limite crítico.
Segundo análises do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), mesmo no cenário mais otimista de chuvas em 2026, São Paulo deverá conviver com restrições prolongadas no abastecimento. A redução da pressão da água, cortes noturnos e distribuição intermitente tendem a se tornar mais frequentes, especialmente em áreas periféricas e regiões mais elevadas da cidade.
A situação expõe um dilema estrutural: a demanda urbana segue elevada, impulsionada por ondas de calor cada vez mais intensas, enquanto a oferta natural de água se mostra cada vez mais instável.
Gestão de crise, limites estruturais e o peso das mudanças climáticas
Diante do agravamento do cenário, a Sabesp afirma ter ampliado a captação em sistemas alternativos, como o Alto Tietê, incorporando volumes do Rio Itapanhaú, além de acelerar investimentos em modernização de equipamentos e redução de perdas na rede. Desde agosto de 2025, a companhia adotou a diminuição ou suspensão do abastecimento durante o período noturno como estratégia de contenção.
Ainda assim, a própria empresa reconhece que a Região Metropolitana de São Paulo vive uma situação hídrica historicamente desafiadora. A disponibilidade per capita de água gira em torno de 149 metros cúbicos por habitante ao ano, índice comparável ao de regiões semiáridas e muito abaixo das referências internacionais.
A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) acompanha o cenário em tempo real e classifica o sistema na Faixa 3 de atuação, que já exige medidas de contingência. Caso os níveis caiam ainda mais, novas restrições poderão ser acionadas, conforme previsto no Plano Estadual de Segurança Hídrica, elaborado em conjunto com a SP Águas e a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil).
Para os pesquisadores, no entanto, a crise atual não pode mais ser tratada como episódica. O aquecimento global intensifica bloqueios atmosféricos, altera a distribuição das chuvas e reduz a capacidade de recuperação das bacias hidrográficas. Cada novo período seco começa com reservatórios mais baixos e solos menos capazes de reter água.

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Um retrato nacional da seca e os caminhos da adaptação
O Monitor de Secas da ANA revela que o problema está longe de ser exclusivo de São Paulo. O Nordeste registra avanço da seca extrema em diversos estados, enquanto partes do Sudeste, como Minas Gerais, também enfrentam agravamento dos indicadores. Em contraste, o Sul do país experimenta volumes excepcionais de chuva, outro efeito típico da atuação do La Niña, que redistribui a umidade de forma desigual pelo continente.
Essa assimetria reforça a necessidade de políticas de adaptação mais robustas. Especialistas defendem ações estruturais, como a redução das perdas na distribuição — que ainda consomem uma parcela significativa da água tratada —, o fortalecimento da governança dos recursos hídricos e a incorporação definitiva das mudanças climáticas no planejamento urbano.
Mais do que economizar água em momentos críticos, o desafio é redesenhar a relação das grandes cidades com seus mananciais. Em São Paulo, a seca deixou de ser uma ameaça futura e passou a ser um componente permanente da realidade. O risco agora não é apenas atravessar mais um verão difícil, mas consolidar um novo normal marcado por escassez, disputa por recursos e decisões cada vez mais complexas sobre quem, quando e quanto pode acessar a água.











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