Garantir a segurança alimentar é usar o “prato cheio” como escudo contra os crimes ambientais


A narrativa tradicional sobre o colapso ambiental costuma colocar a produção de alimentos no banco dos réus. No entanto, uma análise profunda da realidade brasileira revela uma inversão necessária de perspectiva: garantir que o alimento chegue à mesa não é apenas uma questão humanitária, mas uma ferramenta estratégica de segurança pública e conservação ambiental. Quando o Estado falha em assegurar a dignidade nutricional, ele abre as portas para que economias ilícitas ocupem o vácuo deixado pela cidadania, transformando a fome em um combustível para a degradação dos ecossistemas.

Reprodução - Amazon Watch

A estabilidade do clima é frequentemente descrita como um insumo invisível da agricultura. Contudo, o movimento contrário é igualmente verdadeiro e também muito urgente. A busca pela segurança alimentar, quando pautada em sistemas sustentáveis, atua como um mecanismo de proteção ativa. Um solo saudável, fundamentado em práticas que visam altos rendimentos biológicos em vez de químicos, deixa de ser apenas um substrato para se tornar um prestador de serviços ambientais. Solos bem manejados funcionam como depósitos de carbono e reguladores hídricos, protegendo as mesmas nascentes que, em última análise, mantêm a agricultura de pé.

Neste cenário, a agroecologia emerge como o elo perdido entre a proteção da biodiversidade e a paz social. Ao contrário da produção em larga escala, que muitas vezes exclui o consumidor de baixo poder aquisitivo e foca em commodities para exportação, a agricultura familiar e os sistemas agroecológicos priorizam a diversidade. Esse modelo cria o que especialistas chamam de agrobiodiversidade, mantendo bancos genéticos vivos que são naturalmente mais resilientes a pragas e choques climáticos. Sem esse escudo, a vulnerabilidade alimentar cresce, e com ela, a pressão sobre os recursos naturais remanescentes.

A necessidade como motor da criminalidade ambiental

A segurança pública brasileira dificilmente pode ser dissociada da pauta alimentar. O Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci II), coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, defende que a violência persiste onde a cidadania é ausente. Na Amazônia Legal, essa correlação é cristalina. A presença de facções criminosas em mais de 260 municípios da região não é apenas um problema de polícia, mas uma consequência da falta de alternativas econômicas viáveis para populações marginalizadas.

Quando um pai de família não encontra meios de sustentar sua casa através da agricultura legal ou do extrativismo sustentável, o garimpo ilegal e a extração predatória de madeira surgem como falsas soluções de sobrevivência. A fome é, comprovadamente, um motor de crimes. Ela reduz o limiar de resistência à cooptação pelo crime organizado, que se aproveita da vulnerabilidade social para expandir fronteiras de desmatamento. A segurança alimentar atua, portanto, como um amortecedor social. Ao garantir o direito à alimentação, o Estado retira do crime sua principal moeda de troca: o desespero humano.

Investir em iniciativas como o Fundo Amazônia e o programa Floresta+ Amazônia é, na prática, financiar a vigilância territorial. Ao oferecer Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) para os guardiões da natureza, cria-se uma rede de proteção que estabiliza as comunidades em seus territórios. Se a floresta viva provê alimento e renda através do extrativismo de produtos como o açaí e a castanha, o incentivo para o desmate desaparece. A sociobioeconomia é a resposta racional para manter a floresta em pé e o prato cheio.

 Foto: Governo Federal
Foto: Governo Federal

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Sistemas familiares: a eficiência que o mercado esconde

Existe um mito persistente de que apenas a agricultura de larga escala pode alimentar o mundo. No entanto, os sistemas de produção familiar mostram-se economicamente mais sustentáveis e socialmente mais justos. Enquanto o agronegócio extensivo frequentemente exaure o solo e depende de insumos químicos caros, a produção agroecológica utiliza a biodiversidade a seu favor. Práticas como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e os Sistemas Agroflorestais (SAFs) recuperam pastagens degradadas, evitando a necessidade de novas frentes de desmatamento.

A eficiência desses sistemas também passa pela tecnologia de ponta, como o uso de carreadores nanoestruturados para fertilizantes, que permitem que a planta absorva nutrientes com desperdício quase nulo. Isso reduz a contaminação de lençóis freáticos e diminui a pegada de carbono do setor. Além disso, a produção familiar é quem realmente garante a segurança nutricional local. Através de circuitos curtos de comercialização e programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o alimento chega onde o mercado globalizado muitas vezes não alcança.

A agroecologia também protege os polinizadores, como as abelhas, que são responsáveis pela produtividade de grande parte das culturas mundiais. O uso indiscriminado de pesticidas na produção em larga escala ameaça essa base biológica. Ao proteger esses insetos, os pequenos agricultores garantem a estabilidade da oferta de alimentos para o futuro. É uma economia de regeneração: quanto mais se produz de forma consciente, mais o ecossistema se fortalece para as próximas safras.

Sistema agroflorestal melhor a segurança alimentar - Reprodução/Ecoagri
Sistema agroflorestal – Reprodução/Ecoagri

A conversão ecológica e o direito à cidadania

A saúde humana é o reflexo direto da saúde dos ecossistemas. Onde o saneamento é precário e a alimentação é de baixa qualidade, surgem ciclos de doenças e malnutrição que sobrecarregam o sistema público e fragilizam o tecido social. Instituições como a CNBB, por meio da Campanha da Fraternidade, têm enfatizado que a terra e a água não devem ser tratadas apenas como mercadorias, mas como bens comuns destinados à preservação da vida.

O fortalecimento da governança territorial passa pela implementação de projetos que levam água potável, como o Sanear Amazônia, e fortalecem a educação no campo. Comunidades educadas e nutridas são muito mais difíceis de serem cooptadas por ilícitos ambientais. A “conversão ecológica” proposta por especialistas e líderes sociais sugere que a defesa da biodiversidade é indissociável da defesa dos direitos humanos fundamentais, como moradia, saúde e, primordialmente, alimentação.

Em última análise, combater o crime ambiental exige olhar para as panelas das casas brasileiras. A segurança alimentar não é apenas o resultado de um ambiente preservado, mas a própria condição para que essa preservação aconteça. Ao transformar pequenos produtores em aliados estratégicos da conservação e garantir que a população tenha acesso a alimentos saudáveis e acessíveis, o Brasil pode liderar uma revolução onde a justiça social e a proteção do planeta caminham juntas. O combate ao desmatamento começa, fundamentalmente, com o fim da fome.