Em um movimento que redefine o papel do setor privado na agenda climática global, a Siemens Energy anunciou que irá direcionar a maior parte dos recursos normalmente destinados à logística e hospitalidade de sua delegação na COP30 para a criação de um programa educacional de longo prazo em Belém. A iniciativa, batizada de “Educar para Energizar”, visa capacitar jovens em situação de vulnerabilidade social na capital paraense, com foco em formação técnica voltada à transição energética.

Com investimento inicial de R$ 1,4 milhão, o programa marca uma inflexão simbólica e prática na forma como empresas multinacionais se relacionam com os territórios que sediam grandes conferências internacionais. Mais do que presença institucional, a Siemens Energy aposta em deixar um legado concreto na cidade que, em novembro de 2025, será o centro das atenções do mundo na Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30.
O projeto estabelece o compromisso de longo prazo da Siemens Energy com a COP: menos recursos gastos com estrutura de representação e mais investimentos em impacto direto, com delegações enxutas e engajadas com soluções reais para os desafios climáticos. “A representatividade do setor privado na COP é fundamental para acelerar a implementação de soluções climáticas em larga escala. No entanto, entendemos que o nosso compromisso com a transição energética só faz sentido se for inclusivo. Com essa abordagem queremos gerar um impacto que vá além dos discursos, e inspire mudanças reais na vida das pessoas”, afirmou André Clark, Vice-Presidente Sênior da Siemens Energy para a América Latina.
Parcerias e desenho pedagógico
O programa é fruto de uma articulação entre diferentes instituições. A formação técnica será realizada pelo Instituto Federal do Pará (IFPA), que ficará responsável por ministrar os cursos e certificar os participantes. O planejamento pedagógico conta com apoio da Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável (GIZ), por meio do projeto “Profissionais do Futuro”, e a gestão administrativa será conduzida pela Fundação de Apoio ao Instituto Federal da Paraíba (FUNETEC).
A estrutura do curso foi desenhada para durar dois anos, com carga horária total de 1.200 horas, distribuídas em módulos progressivos. O conteúdo abrange desde fundamentos básicos da área elétrica, como instalação e manutenção de redes, até temas emergentes como energia solar fotovoltaica, eólica, armazenamento de energia, mobilidade elétrica, eficiência energética e hidrogênio verde.
Segundo Julia Giebeler Santos, diretora do projeto Profissionais do Futuro na GIZ, o formato modular e a concessão de bolsas de estudo são estratégias essenciais para garantir a permanência dos estudantes. “O apoio da Siemens Energy para abertura desses cursos está totalmente alinhado aos nossos objetivos de impulsionar a formação de pessoas nessa área tão importante para a redução de emissões do país. O fornecimento de bolsas é fundamental para evitarmos a evasão escolar de alunos em situação de vulnerabilidade social”, destacou.
Oportunidades para além da COP
A primeira turma do programa contará com 160 estudantes que já concluíram o ensino médio e residem em Belém. A expectativa é que essa formação não apenas promova a empregabilidade, mas também fortaleça uma nova geração de profissionais locais aptos a atuar na implementação de projetos energéticos sustentáveis em todo o território amazônico.
Essa estratégia dialoga diretamente com as necessidades atuais do setor. Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que mais de 2,7 milhões de pessoas no Brasil vivem em localidades abastecidas pelos chamados Sistemas Isolados (SISOL), em sua maioria movidos a combustíveis fósseis e fora da cobertura do Sistema Interligado Nacional (SIN). A conversão desses sistemas para fontes renováveis requer, além de investimentos em infraestrutura, uma força de trabalho qualificada e adaptada aos desafios da região.
A Siemens Energy tem atuado junto ao governo federal na defesa da hibridização desses sistemas — combinando energia solar, baterias e usinas térmicas — como forma de garantir abastecimento mais eficiente e com menor impacto ambiental. No entanto, a falta de profissionais capacitados para operar e manter essas estruturas tem sido um entrave à expansão dessa solução. A formação técnica proposta pelo projeto busca justamente suprir essa lacuna.
Inclusão e legado local
O enfoque do projeto não se limita ao conteúdo técnico. A proposta pedagógica também prevê o desenvolvimento de competências sociais e comunitárias, considerando o contexto específico da juventude amazônida. Com forte presença de populações periféricas, ribeirinhas e indígenas nos bairros urbanos de Belém, o programa foi estruturado para acolher a diversidade sociocultural da cidade e garantir que os jovens mais afetados pelas desigualdades também possam acessar as novas oportunidades geradas pela transição energética.
Saiba mais-New Fortress Energy muda estratégia para contratos do Portocem
Saiba mais-COP30 Events: a plataforma para divulgar todos os eventos da COP 30
Além da formação e certificação, os participantes receberão bolsas de estudos, alimentação e materiais didáticos, reduzindo as barreiras de acesso ao ensino técnico. O programa também prevê a instalação de laboratórios de última geração para aulas práticas no IFPA, com equipamentos semelhantes aos utilizados na indústria, o que aproxima os alunos da realidade de mercado e das tecnologias mais atualizadas.
A expectativa dos parceiros é que a experiência em Belém possa ser replicada em outras cidades da Amazônia Legal nos próximos anos, com apoio de governos locais, do setor produtivo e da cooperação internacional.
Setor privado e clima: para além do discurso
A iniciativa da Siemens Energy ocorre em um momento de revisão do papel do setor privado nas negociações climáticas. A presença empresarial em eventos como a COP, muitas vezes criticada por setores da sociedade civil como excessivamente simbólica ou oportunista, ganha novo contorno quando associada a ações concretas de transformação social, como é o caso do projeto “Educar para Energizar”.
Historicamente, grandes corporações destinam valores expressivos à participação em conferências internacionais, com foco em visibilidade institucional, redes de influência e relações públicas. A decisão da Siemens Energy de redirecionar mais de 80% desses recursos para formação técnica em uma região periférica do país indica uma inflexão no modelo tradicional de engajamento empresarial.
Para o governo federal, que aposta em um legado de implementação e não apenas de declarações na COP30, esse tipo de ação pode se tornar referência para outras empresas que queiram associar sua presença à geração de impacto real.
Belém no centro da transição
Belém, a primeira cidade amazônica a sediar uma COP, enfrenta um duplo desafio: se preparar para receber dezenas de milhares de participantes em novembro de 2025 e, ao mesmo tempo, demonstrar que é possível conciliar desenvolvimento com proteção ambiental, inclusão social e inovação. A presença de iniciativas como a da Siemens Energy fortalece esse objetivo ao conectar os grandes debates climáticos a políticas públicas de capacitação, geração de renda e inovação tecnológica no território amazônico.
Além disso, ao promover o acesso de jovens locais às profissões do futuro, o projeto contribui para reverter uma lógica histórica em que soluções para a Amazônia são decididas e executadas fora da região. Com profissionais capacitados na própria Belém, a expectativa é que os próximos projetos energéticos — tanto públicos quanto privados — contem com talentos locais na linha de frente, aumentando a autonomia e o protagonismo da região na construção de seu futuro energético.






































