
Águas turvas, profundidade variável, correnteza intensa e vegetação submersa. Mapear o fundo dos rios da Amazônia é um dos maiores desafios técnicos da hidrografia mundial. A solução para “enxergar” nesse ambiente hostil não vem da luz, mas do som. É o sonar — tecnologia que transforma ondas acústicas em mapas tridimensionais precisos — que está permitindo ao Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) revelar, pela primeira vez, a topografia oculta dos rios amazônicos.
Mas como exatamente essa tecnologia funciona? Neste guia, explicamos de forma acessível os princípios físicos, os equipamentos utilizados e o processo que transforma ecos em informações estratégicas para a região.
O princípio básico: som no lugar da luz
Na superfície, câmeras e satélites capturam imagens usando luz visível. No fundo dos rios amazônicos, a turbidez da água bloqueia quase totalmente a passagem da luz. A alternativa? Usar ondas sonoras, que se propagam com eficiência na água.
O sonar (acrônimo em inglês para “Sound Navigation and Ranging”) funciona de forma semelhante ao eco que ouvimos ao gritar em uma montanha: um pulso de som é emitido, viaja até encontrar um obstáculo, reflete e retorna ao ponto de origem. Medindo o tempo entre emissão e retorno, e conhecendo a velocidade do som na água, é possível calcular a distância até o objeto.
Princípio de emissão e recepção de ondas acústicas
A fórmula é simples:
Distância = (Velocidade do som na água × Tempo de retorno) ÷ 2
Na prática, porém, a aplicação em rios tropicais exige correções complexas para temperatura, pressão e composição da água — fatores que alteram a velocidade de propagação do som.
Os três pilares do mapeamento 3D fluvial
O projeto do SGB não utiliza um único tipo de sonar, mas uma combinação integrada de três tecnologias complementares:
1. Sonar multifeixe (MBES): a espinha dorsal do mapa 3D
Diferente dos sonares tradicionais de feixe único — que medem apenas um ponto de profundidade por vez —, o multifeixe emite centenas de feixes dispostos em leque, cobrindo uma faixa larga do fundo do rio a cada disparo.
Características técnicas:
- Frequência operacional típica: 100 kHz a 400 kHz (equilíbrio entre resolução e alcance)
- Largura de varredura: até 150 graus, cobrindo área equivalente a 3-5 vezes a profundidade
- Precisão vertical: centimétrica em condições ideais
- Taxa de aquisição: milhares de pontos de profundidade por segundo
O resultado é uma “nuvem de pontos” batimétrica que, após processamento, gera um Modelo Digital de Elevação (MDE) do leito fluvial.
2. Sonar de varredura lateral (SSS): a “câmera acústica”
Enquanto o MBES mede profundidade, o SSS captura a textura e a forma dos objetos no fundo do rio. Ele emite feixes laterais que geram imagens semelhantes a fotografias em preto e branco, onde:
- Superfícies duras e irregulares (rochas, estruturas metálicas) aparecem claras (eco forte)
- Superfícies lisas e macias (lama, areia fina) aparecem escuras (eco fraco)
- Objetos verticais projetam “sombras acústicas”, revelando altura e forma

Imagem acústica revelando textura do fundo do rio
Essa capacidade torna o SSS ideal para identificar estruturas artificiais submersas, como pilares de pontes antigas, embarcações naufragadas ou equipamentos de infraestrutura.
3. Perfilador de subfundo (SBP): enxergando abaixo do sedimento
Para investigar o que está enterrado sob a camada superficial de sedimentos, entra em cena o SBP. Ele opera com frequências mais baixas (1 kHz a 20 kHz), que penetram no leito e refletem nas interfaces entre diferentes camadas geológicas.
O produto final é um perfil sísmico vertical — semelhante a um “corte geológico” — que revela:
- Espessura e sequência de camadas sedimentares
- Presença de falhas, dobras ou corpos rochosos
- Potenciais zonas de instabilidade do leito
Do sinal bruto ao mapa utilizável: o processo de pós-processamento
Coletar os dados é apenas a primeira etapa. Transformar ecos acústicos em um mapa 3D confiável exige uma cadeia rigorosa de processamento:
- Correção da velocidade do som: medições in situ de temperatura, salinidade e pressão ajustam o cálculo de distância;
- Filtragem de ruído: algoritmos removem ecos espúrios causados por bolhas, peixes ou interferências;
- Georreferenciamento: integração com dados GPS/INS posiciona cada ponto no sistema de coordenadas oficial (SIRGAS 2000);
- Fusão de sensores: sobreposição dos dados de MBES, SSS e SBP em plataforma SIG;
- Validação de campo: conferência pontual com sondagens manuais ou drones subaquáticos.
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Limitações e desafios técnicos na Amazônia
Apesar do avanço, a tecnologia enfrenta obstáculos específicos no contexto amazônico:
| Desafio | Impacto | Solução adotada |
|---|---|---|
| Águas extremamente turvas | Reduz alcance efetivo do sonar | Uso de frequências mais baixas e embarcações de calado reduzido |
| Variação sazonal do nível dos rios | Exige múltiplas campanhas para cobertura completa | Planejamento de coletas nas fases de seca e cheia |
| Vegetação submersa e troncos | Gera ecos falsos e interfere na interpretação | Combinação de SSS com análise visual especializada |
| Conectividade limitada | Dificulta transmissão de grandes volumes de dados | Processamento local em embarcações equipadas com servidores embarcados |
Por que entender essa tecnologia importa para você
Seja você ribeirinho, pesquisador, gestor público ou cidadão interessado, compreender como funciona o mapeamento submerso ajuda a:
- Avaliar com criticidade notícias sobre “descobertas” nos rios da Amazônia;
- Participar de consultas públicas sobre projetos de infraestrutura fluvial;
- Exigir transparência no uso de dados geocientíficos produzidos com recursos públicos.
“Democratizar o conhecimento técnico é parte da missão do SGB”, afirma a geofísica Carla Rodrigues, integrante da equipe de capacitação do projeto. “Queremos que qualquer pessoa, com acesso à internet, consiga visualizar e interpretar os mapas gerados.”
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Perguntas frequentes
O sonar prejudica a fauna aquática?
Os equipamentos operam em frequências e potências reguladas por normas ambientais. Estudos indicam que os níveis utilizados em mapeamento hidrográfico não causam danos a peixes e mamíferos aquáticos, mas o SGB mantém monitoramento contínuo em parceria com instituições de pesquisa.
Qual a resolução do mapa 3D?
Em trechos prioritários, o modelo final apresenta grade de 1 metro x 1 metro, com precisão vertical de mais ou menos 10 centímetros. Em áreas de maior profundidade ou acesso difícil, a resolução pode ser ajustada para 5×5 metros sem perda de utilidade para planejamento.
Posso usar esses dados em minha pesquisa ou projeto?
Sim. Após validação e publicação na Plataforma de Dados Geocientíficos do Brasil, os arquivos estão disponíveis em formatos abertos (GeoTIFF, LAS, XYZ) para download gratuito, com citação obrigatória da fonte.
A tecnologia pode ser usada para encontrar tesouros ou artefatos históricos?
Tecnicamente, sim. O SSS é amplamente utilizado em arqueologia subaquática para localizar naufrágios e sítios históricos. No entanto, a exploração de patrimônio cultural submerso no Brasil é regulada pelo IPHAN, e qualquer descoberta deve ser comunicada às autoridades competentes.
Próximos passos: capacitação e expansão
O SGB planeja, para o segundo semestre de 2026, lançar módulos de treinamento online voltados para técnicos de órgãos estaduais, universidades e organizações da sociedade civil interessados em utilizar os dados do mapeamento 3D.
Além disso, a integração com plataformas de visualização web permitirá que usuários naveguem pelos modelos 3D diretamente no navegador, sem necessidade de softwares especializados.
Tem dúvidas sobre tecnologia aplicada à Amazônia? Envie sua pergunta para [email protected]. As mais relevantes serão respondidas em edições futuras.





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