
Startup do nascimento de um novo paradigma de consumo
A gênese da Finehra Energia remonta a 2020, um período marcado pela incerteza global da pandemia de Covid-19, mas também por uma janela de oportunidade única no setor de geração distribuída. Enquanto o cenário para a construção de usinas solares e outras fontes renováveis se expandia rapidamente, o mercado enfrentava um paradoxo: a dificuldade técnica e comercial de conectar essa produção ao consumidor final. Em Minas Gerais, um estado com histórico de conservadorismo no consumo, a barreira cultural era nítida. Os consumidores demonstravam ceticismo diante de modelos de assinatura de energia que pareciam distantes da realidade cotidiana. Foi nesse contexto de resistência que Érika Garshaus e Marcos Alixandrini perceberam que a energia precisava deixar de ser uma commodity técnica para se tornar um valor perceptível.
Ao transmutar a eletricidade em um benefício corporativo, a startup rompeu com a lógica tradicional do setor. O Ticket Verde foi concebido sob a mesma premissa de conveniência de um vale-refeição ou de um plano de saúde. A ideia central era simples, porém disruptiva: permitir que empresas oferecessem aos seus colaboradores uma redução direta no custo da conta de luz residencial, subsidiada ou facilitada pela geração limpa da startup. Essa estratégia não apenas aumentou drasticamente as taxas de conversão de clientes, mas também serviu como uma ferramenta poderosa de ESG para as organizações, conectando a responsabilidade social corporativa diretamente com o bem-estar financeiro do funcionário e a preservação ambiental.
A maturidade do mercado e a consolidação estratégica
O sucesso do modelo de negócio levou a Finehra Energia a ultrapassar a marca de 7 mil clientes, com operações consolidadas em estados como Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia. O crescimento foi impulsionado por parcerias estratégicas, como a realizada com o iFood Benefícios, que serviu como uma vitrine nacional para a marca. Esse alcance chamou a atenção de instituições internacionais, rendendo à startup o reconhecimento da United Earth através do prêmio United Earth Amazonia Award, sob a chancela de Marcos Nobel. Tal distinção elevou o Ticket Verde de uma solução local a um exemplo global de sustentabilidade aplicada, validando a visão de que a democratização da energia renovável é um dos pilares da economia moderna.
Atualmente, o setor de geração distribuída atravessa um período de transformação profunda, influenciado pelo marco legal da microgeração e minigeração distribuída, estabelecido pela lei 14.300. Este novo ordenamento jurídico impôs regras mais rigorosas para a operação, promovendo o que especialistas chamam de limpeza de mercado, onde apenas empresas com alta eficiência operacional e modelos de negócio robustos sobrevivem. Com a abertura progressiva do mercado livre de energia, a competição se intensificou, reduzindo as margens de lucro e forçando um movimento de consolidação. É neste cenário de fusões e aquisições que a Finehra Energia se encontra em negociações avançadas para um processo de M&A com uma gigante do setor de benefícios, prevendo que, até o final de 2026, a marca Ticket Verde possa expandir sua atuação para além das fronteiras da energia compartilhada.

A proteção da inovação e os embates de propriedade
Apesar do horizonte de crescimento, a trajetória da startup é marcada por um desafio comum a muitas empresas inovadoras: a defesa de sua identidade intelectual. A marca Ticket Verde, devidamente registrada junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, tornou-se objeto de disputa. Um grupo econômico de grande porte, com forte atuação no Centro-Oeste e presença em mercados estratégicos como São Paulo e Minas Gerais, passou a utilizar a denominação em suas campanhas de vendas e materiais promocionais. Este conflito evidencia uma assimetria de poder frequente no universo das startups, onde players consolidados tentam se apropriar de conceitos e marcas criadas por empresas menores e mais ágeis.
A resistência da Finehra Energia em abrir mão de seu registro não é apenas uma questão de vaidade corporativa, mas uma necessidade de preservação de valor. O uso indevido da marca por terceiros pode gerar confusão no mercado e comprometer o valuation da empresa em meio às negociações de venda. A gestão da startup tem buscado resolver a questão de forma administrativa, priorizando o diálogo para evitar um desgaste judicial que poderia ser prejudicial para ambos os lados. A defesa da propriedade intelectual no INPI é vista por Érika Garshaus como um pilar fundamental para garantir que a inovação brasileira não seja sufocada por práticas predatórias, reforçando a necessidade de um ambiente de negócios onde o registro de marca seja respeitado como um ativo sagrado do empreendedor.

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O futuro da energia compartilhada e o impacto social
O legado que a Finehra Energia pretende deixar com o Ticket Verde vai além da economia financeira para os usuários. O projeto carrega uma dimensão educativa, promovendo a conscientização sobre a origem da energia consumida e incentivando a transição para matrizes mais limpas. Ao inserir a energia renovável no pacote de benefícios das PMEs, a startup democratiza o acesso a tecnologias que, anteriormente, eram restritas a grandes indústrias ou consumidores de altíssima renda. O modelo de gestão de usinas compartilhadas otimiza a infraestrutura existente e garante que a energia gerada no campo chegue aos centros urbanos de forma eficiente e desburocratizada.
Olhando para o futuro, a integração definitiva da energia ao portfólio de benefícios corporativos parece um caminho sem volta. Com a consolidação da marca sob uma nova estrutura corporativa após a conclusão do M&A, a expectativa é que o conceito se torne onipresente, transformando a conta de luz em um item de gestão estratégica para o RH das empresas. A jornada da Finehra Energia, desde o acolhimento no Founder Institute até o reconhecimento internacional e os desafios legais presentes, serve como um estudo de caso sobre a resiliência da startup brasileira. Em um mundo que demanda soluções urgentes para a crise climática, transformar a luz que ilumina as casas em um símbolo de valor e cuidado com o colaborador é, talvez, a maior inovação de todas.











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