Além da Amazônia, por que o Cerrado é o Elo Mais Fraco no Acordo com a Europa


O Cerrado sob Pressão: O Lado Oculto do Acordo Mercosul-União Europeia

Enquanto os olhos do mundo se voltam para a densa vegetação da Amazônia, um drama silencioso se desenrola nas savanas centrais do Brasil. O Cerrado, estrategicamente chamado de berço das águas por abrigar as nascentes das principais bacias hidrográficas da América do Sul, enfrenta um paradoxo geopolítico. O avanço das negociações para o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia trouxe à tona uma preocupação que ecoa entre cientistas e ambientalistas: o risco de que a proteção rigorosa da floresta tropical acabe empurrando o motor da destruição para campos menos vigiados.

Foto: Amazônia Real

A Mecânica do Efeito Balão e o Vazio de Proteção

O fenômeno é conhecido nos corredores diplomáticos e nas academias como efeito balão. A lógica é quase física: ao pressionar um lado de uma estrutura flexível, o ar se desloca para o outro. No contexto ambiental brasileiro, a robustez das iniciativas de monitoramento e os fundos internacionais destinados à Amazônia, como o programa Amazonia+, criam um cinturão de proteção que, embora necessário, não é onipresente. Sem mecanismos equivalentes para o Cerrado, a pressão agroindustrial busca o caminho de menor resistência.

Diferente da Amazônia, que conta com a Moratória da Soja — um pacto onde empresas se comprometem a não comercializar grãos vindos de áreas desmatadas —, o Cerrado opera em um cenário de vulnerabilidade normativa. A destruição nesse bioma, muitas vezes mais veloz que na própria floresta tropical, avança sobre territórios tradicionais e quilombolas sob o manto de uma invisibilidade estratégica. O acordo comercial, ao priorizar a redução de tarifas e a ampliação de cotas para a soja e a carne bovina, atua como um combustível para essa expansão. Projeções indicam que a fome europeia por commodities pode converter até 173 mil hectares de vegetação nativa em lavouras, com o epicentro dessa transformação localizado no coração do Cerrado nordestino.

Imagem: Flickr
Imagem: Flickr

O Matopiba e a Nova Fronteira do Desmatamento

A sigla que une os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — o Matopiba — tornou-se o nome próprio da expansão agroindustrial brasileira. É nesta região que o conflito entre produtividade e preservação atinge seu ápice. Dados alarmantes revelam que mais da metade das queimadas registradas no Cerrado se concentram nessa fronteira. Mais grave ainda é a constatação de que cerca de 85% da soja produzida nessa área está intrinsecamente ligada ao desmatamento.

A logística das exportações para a Europa reforça esse ciclo. Estima-se que metade da soja brasileira que atravessa o Atlântico tenha origem no Matopiba e no Mato Grosso. O acordo, em sua forma atual, foca em salvaguardas que muitos críticos consideram sem dentes. Embora o capítulo de Comércio e Desenvolvimento Sustentável mencione a preservação da biodiversidade, ele carece de instrumentos de sanção direta. Para o produtor no campo, o incentivo econômico da liberalização tarifária muitas vezes fala mais alto do que as recomendações genéricas de sustentabilidade, especialmente quando o monitoramento internacional falha em enxergar a savana com a mesma nitidez com que observa a selva.

Foto: Rodrigo José Fernandes
Foto: Rodrigo José Fernandes

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Salvaguardas Jurídicas e a Realidade do Campo

No papel, o tratado estabelece um arcabouço de proteção fundamentado no Acordo de Paris e na Convenção sobre Diversidade Biológica. O chamado Pacote de Brasília tenta amarrar o comércio ao cumprimento de metas climáticas, proibindo o retrocesso nas leis ambientais domésticas. No entanto, a implementação prática dessas regras esbarra na soberania regulatória e na dificuldade de rastreabilidade. A União Europeia pretende utilizar dados de agências brasileiras, como o INPE, para validar a procedência dos produtos, mas a complexidade das cadeias de suprimento da soja torna essa tarefa hercúlea.

O acordo traz avanços pontuais, como o reconhecimento de Indicações Geográficas para o Café do Cerrado Mineiro e para o mel do Pantanal. São nichos de mercado que valorizam a origem e o manejo sustentável. Porém, especialistas alertam que proteger o café de uma região específica não impede a degradação sistêmica de milhões de hectares de vegetação nativa que sustentam o ciclo das águas. A ausência de um programa de magnitude similar ao Amazonia Verde para o Cerrado revela uma lacuna de investimento que pode condenar o bioma a ser o quintal de sacrifício do desenvolvimento econômico nacional.

A Urgência de uma Governança Integrada

A conclusão para quem observa o cenário de perto é clara: o sucesso ambiental do acordo Mercosul-UE depende de uma visão sistêmica que ignore fronteiras administrativas e foque em ecossistemas interligados. A preservação da Amazônia é indissociável da saúde do Cerrado, pois é a savana que garante o fluxo de umidade e a recarga dos aquíferos que alimentam o continente. Sem a expansão imediata de mecanismos como a Moratória da Soja para todos os biomas e a criação de fundos de investimento dedicados à bioeconomia no Cerrado, o Brasil corre o risco de entregar um produto verde para a Europa ao custo de um deserto biológico em seu interior.

A responsabilidade recai agora sobre as políticas domésticas, como a atualização do PPCerrado pelo governo federal brasileiro. O tratado internacional pode ser o catalisador de um novo modelo de desenvolvimento, mas apenas se a rastreabilidade for rigorosa e as sanções forem reais. Caso contrário, a assinatura do acordo poderá ser lembrada não como um marco de integração sustentável, mas como o momento em que o mundo decidiu salvar as árvores da Amazônia enquanto permitia que as raízes do Cerrado fossem arrancadas para alimentar o mercado global.