
Um em cada quatro brasileiros já precisou abandonar o lar
A emergência climática deixou de ser uma previsão futura para se tornar uma realidade drástica no cotidiano das famílias brasileiras. De acordo com uma pesquisa da Ipsos para o Instituto Talanoa, divulgada em março de 2026, cerca de 24% da população — ou um em cada quatro brasileiros — já precisou sair de casa temporariamente devido a eventos climáticos extremos. O levantamento, publicado no Dia nacional de conscientização sobre as mudanças climáticas, revela que o deslocamento forçado por enchentes, deslizamentos, incêndios ou ondas de calor é um dos sintomas mais graves da instabilidade ambiental no país.
Nos últimos 12 meses, os impactos mais sentidos pelos cidadãos foram as ondas de calor extremo, citadas por 48% dos entrevistados, seguidas pela falta de energia elétrica e tempestades fortes. A percepção de que esses eventos estão se tornando mais frequentes é compartilhada por 70% da amostra, que associa o clima diretamente a prejuízos na saúde, na alimentação e no aumento dos gastos domésticos. O cenário indica que a vulnerabilidade habitacional e a precariedade da infraestrutura urbana são os principais desafios para a segurança da população nas cinco regiões do Brasil.

Adaptação climática e o apoio popular a obras de infraestrutura
O conceito de adaptação climática — o conjunto de medidas para preparar cidades e sistemas para os impactos inevitáveis do aquecimento global — já é conhecido por 81% dos brasileiros. Embora o conhecimento profundo sobre o tema ainda seja restrito a uma pequena parcela (13%), existe um consenso majoritário sobre a urgência de agir. A pesquisa aponta que 63% dos entrevistados concordam que novas construções devem obrigatoriamente considerar os efeitos do clima, e esse apoio salta para 76% quando as obras são financiadas com recursos públicos do governo federal ou estadual.
Mesmo diante de possíveis transtornos imediatos, como reformas urbanas complexas ou mudanças rígidas nas regras de construção, dois terços da população (66%) se posicionam favoravelmente às ações de adaptação. Esse suporte popular atravessa divisões regionais, sendo mais expressivo no Sudeste (73%) e no Sul (58%), áreas historicamente castigadas por inundações e ciclones extratropicais. O recado das ruas é claro: o brasileiro está disposto a aceitar mudanças estruturais em troca de cidades mais resilientes e seguras contra a fúria da natureza.

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Impactos no cotidiano: Da conta de luz à segurança alimentar
A crise climática não afeta apenas a estrutura física das casas, mas também o equilíbrio financeiro das famílias das classes A, B e C. Segundo o levantamento, os gastos com energia elétrica e a disponibilidade de alimentos foram citados por 37% dos participantes como áreas severamente afetadas pelo clima instável. A escassez de água e o aumento de doenças transmitidas por mosquitos, como a dengue, também figuram entre as preocupações crescentes, evidenciando como a degradação ambiental pressiona o sistema de saúde pública e o custo de vida nas metrópoles.
O estudo da Ipsos, realizado por meio de painel online com representatividade nacional, reforça a necessidade de políticas públicas intersetoriais que unam moradia, mobilidade e saúde. Com a maioria da população apoiando medidas preventivas, o desafio agora recai sobre gestores municipais e o governo federal para acelerar obras de drenagem, contenção de encostas e a transição para matrizes energéticas mais estáveis. Em 2026, a adaptação deixou de ser uma escolha técnica para se tornar uma demanda social urgente de quem já sentiu na pele o impacto de ter que abandonar o próprio lar.











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