
O Gigante do Norte, a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, está passando por um check-up tecnológico sem precedentes. Uma operação de engenharia de alta precisão está em andamento para responder a uma pergunta vital para o Brasil: qual é a capacidade real de armazenamento de água do seu imenso reservatório hoje?
O estudo é fundamental para a segurança energética do país. Com uma capacidade instalada de 8.370 Megawatts (MW), Tucuruí é uma das maiores hidrelétricas do mundo. Saber exatamente quanta água o lago pode segurar permite planejar com mais eficiência a geração de energia, prevenindo apagões e otimizando o uso do recurso.
Tecnologia laser varre a floresta e as ilhas
A missão, que deve ser concluída até meados de 2026, utiliza tecnologias de ponta para criar um modelo digital ultradetalhado da região. A operação combina perfilamento laser aéreo (LiDAR) com aerofotogrametria de altíssima resolução, capturando imagens com detalhes menores que 10 centímetros.
O desafio geográfico é monumental. O reservatório de Tucuruí, localizado entre os municípios de Tucuruí e Marabá, é complexo, abrigando milhares de ilhas. A área total sendo mapeada chega a impressionantes 6.742 quilômetros quadrados – uma área maior que o Distrito Federal.
Aproveitando a seca para enxergar o fundo
Para garantir a precisão, os voos de mapeamento foram estrategicamente iniciados em novembro de 2025, aproveitando o período de nível d’água mínimo do reservatório. Essa escolha permite que o laser mapeie áreas que normalmente ficam submersas, revelando o relevo do fundo do lago que fica exposto na seca.
Essa estratégia supera uma grande dificuldade logística. Em períodos de cheia, essas áreas rasas são de difícil navegação para os barcos que realizam a batimetria (medição da profundidade), tornando o mapeamento tradicional impreciso ou inviável. O laser resolve esse problema de cima.
Uma operação de guerra nos céus do Pará
A logística aérea é complexa. O plano de voo contempla 375 faixas, totalizando 250 horas de aerolevantamento para capturar cerca de 49.000 fotos. Para driblar as condições atmosféricas desfavoráveis da região amazônica, os pilotos voam a um teto baixo de apenas 700 metros, no limite operacional da aeronave.
Com o avanço do voo em 84%, a próxima fase foca na parte que permanece alagada. Assim que o reservatório atingir o nível de 70 metros, equipes iniciarão os levantamentos batimétricos, utilizando ecobatímetros de última geração para medir a profundidade do canal principal e dos afluentes.
Segurança jurídica e gestão ambiental
O objetivo central é atender à Resolução Conjunta ANA/ANEEL nº 127/2022. Esta norma exige que os reservatórios hidrelétricos atualizem suas relações cota-área-volume, monitorem o assoreamento (acúmulo de sedimentos no fundo) e implantem estações de monitoramento hidrológico.
Além de redefinir o volume de água, os dados cartográficos gerados terão múltiplos usos para a Axia Energia, concessionária da usina. As ortofotos e os modelos digitais de terreno de altíssima resolução permitirão uma gestão patrimonial, fundiária e ambiental muito mais eficiente de todo o entorno do complexo.
Conhecer para preservar e gerar energia
A precisão do novo mapeamento permitirá entender como o reservatório se comporta e como o assoreamento está afetando sua vida útil. Com essas informações, é possível planejar ações de conservação da bacia hidrográfica e garantir que Tucuruí continue gerando energia limpa para as próximas gerações.
Este esforço tecnológico representa um passo crucial para a modernização da gestão dos recursos hídricos na Amazônia. Ao unir tecnologia de ponta com o conhecimento do regime dos rios, o Brasil investe não apenas em energia, mas no conhecimento detalhado do seu próprio território para um futuro mais sustentável.





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