Zapotecas e o submundo: arqueólogos revelam túneis ocultos sob igreja católica no México.

Reprodução - sociedademilitar

A ressonância do passado: a geofísica revela o labirinto de Mitla

No coração de Oaxaca, no México, o solo da zona arqueológica de Mitla acaba de entregar um segredo guardado por meio milênio. Através de um esforço conjunto liderado pelo Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH), pesquisadores confirmaram a existência de um complexo sistema de túneis e câmaras subterrâneas sob a Igreja de San Pablo Apostol. O achado valida séculos de tradição oral e crônicas coloniais que descreviam o local como Lyobaa, o “lugar de descanso” ou a entrada para o submundo na cosmologia zapoteca. O que antes era considerado um mito propagado por missionários do século XVII para justificar a construção de templos cristãos sobre ruínas pagãs revelou-se uma estrutura arquitetônica tangível e monumental.

A descoberta foi possível graças ao Projeto Lyobaa, uma colaboração internacional que envolve a Associação para a Pesquisa e Exploração Arqueológica (ARX) e especialistas da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Diferente das escavações tradicionais, que poderiam comprometer a integridade da igreja colonial construída sobre as ruínas, a equipe utilizou tecnologias de arqueometria não invasivas. Radares de penetração no solo (GPR), tomografia de resistividade elétrica e medições de ruído sísmico permitiram “enxergar” através das fundações de pedra, mapeando um labirinto que se estende por vários metros abaixo do altar principal e das naves do templo.

Arquitetura sagrada e a sobreposição de crenças em Oaxaca

A configuração de Mitla é única na Mesoamérica pela precisão de seus mosaicos de pedra e pela sua função estritamente religiosa e funerária. Enquanto outras cidades pré-hispânicas funcionavam como centros administrativos ou militares, Mitla era a morada da elite sacerdotal zapoteca e o destino final de seus reis. A descoberta dos túneis sob a igreja reforça a teoria da sobreposição cultural estratégica utilizada durante a colonização espanhola. Ao erguer a Igreja de San Pablo diretamente sobre o centro nevrálgico do culto aos mortos zapoteca, a Igreja Católica buscava transmutar a sacralidade do espaço, embora, ironicamente, tenha acabado por preservar as estruturas subterrâneas ao selá-las sob toneladas de alvenaria.

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Oaxaca – Divulgação / Marco M. Vigato/The ARX Project

Os dados coletados mostram que os túneis não são apenas cavidades naturais, mas câmaras meticulosamente trabalhadas que se conectam a outras estruturas já conhecidas na zona arqueológica. Para a cultura zapoteca, o submundo não era um lugar de punição, mas uma dimensão de transição essencial para a manutenção do ciclo da vida e do cosmos. A precisão técnica dessas passagens, localizadas em uma região de alta atividade sísmica, demonstra um conhecimento avançado de engenharia que permitiu que o labirinto de Lyobaa permanecesse intacto, apesar dos séculos de pressão estrutural exercida pelo edifício colonial que hoje o encima.

A ciência a serviço do resgate da memória zapoteca

O uso de geofísica aplicada à arqueologia representa um marco na preservação do patrimônio mexicano. O Google Arts & Culture, que frequentemente documenta esses avanços, destaca como a tecnologia permite reconciliar o desenvolvimento urbano e religioso moderno com a preservação de raízes ancestrais. O Projeto Lyobaa não buscou apenas encontrar túneis, mas compreender a relação espacial entre os vivos e os mortos na antiga Mitla. A identificação de anomalias no subsolo sugere que ainda existem câmaras maiores e possivelmente oferendas ou restos mortais da nobreza zapoteca que nunca foram perturbados por saqueadores ou pelo tempo.

Esse avanço coloca o México novamente na vanguarda da pesquisa histórica nas Américas. A Sociedade Geológica da América (GSA) tem acompanhado estudos similares onde a tecnologia de resistividade revela como as civilizações antigas interagiam com a geologia local para criar espaços de poder. Em Mitla, os túneis servem como um arquivo físico de uma civilização que, mesmo após a conquista, continuou a exercer sua influência através da memória da paisagem sagrada. A validação científica dessas estruturas oferece uma nova camada de interpretação para os fluxos migratórios e rituais que definiram o vale de Oaxaca por mais de mil anos.

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O futuro de Lyobaa e o desafio da conservação arqueométrica

Com o mapeamento digital completo do subsolo, o próximo desafio enfrentado pelas autoridades do Governo do México e pela comunidade científica é a conservação e o acesso a esse conhecimento. Embora a abertura física dos túneis para o turismo seja um processo complexo devido aos riscos estruturais para a igreja, a criação de modelos em 3D e experiências de realidade virtual promete democratizar a descoberta. A “passagem para o submundo” deixa de ser um relato empoeirado em crônicas de frades dominicanos para se tornar um pilar da identidade histórica de Oaxaca.

A descoberta em Mitla é um lembrete contundente de que a arqueologia moderna não precisa destruir para descobrir. A preservação de Lyobaa sob as fundações cristãs é um símbolo da resiliência das culturas pré-hispânicas. Enquanto o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) avalia os dados para garantir que a gestão do local siga padrões globais de proteção, o mundo volta seus olhos para o México, onde o passado e o presente coabitam em um labirinto de pedras e fé. O submundo zapoteca, enfim, emerge da escuridão dos mitos para a luz da evidência científica.

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