
A floresta mais biodiversa do planeta guarda, em seu subsolo, parte da resposta para a crise climática global. No sul do Pará, duas das maiores minas de cobre e níquel da América Latina funcionam como peças-chave de uma aposta que movimenta dezenas de bilhões de dólares. E essa aposta tem nome e data: a Vale Base Metals planeja abrir seu capital na bolsa até meados de 2026.
Não é exagero dizer que o futuro da eletrificação mundial passa pela Amazônia. O cobre extraído no Complexo Salobo e o níquel retirado do Complexo Mineral Onça Puma, ambos no Pará, são matérias-primas indispensáveis para fabricar baterias de veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas. Cada carro elétrico que sai de uma fábrica na Europa ou na Ásia pode carregar, literalmente, um pedaço do chão paraense.
Como nasceu a empresa que quer capitalizar a transição energética
Durante anos, o mercado financeiro enxergou a Vale como uma gigante do minério de ferro, o material que move a construção civil global. As minas de cobre e níquel existiam, produziam bem, mas viviam à sombra das montanhas de minério vermelho de Carajás.
O problema era simples e caro: o valor real dessas operações não aparecia no preço das ações. Para financiar cerca de US$ 20 bilhões em novos investimentos, era preciso separar as duas histórias.
Foi assim que nasceu, em 2023, a Vale Base Metals Limited, sediada em Londres, com conselho próprio, liderança executiva independente e missão clara: ser a maior fornecedora de metais para a transição energética do mundo.
No Brasil, a reorganização criou duas empresas específicas. A Salobo Metais S.A. absorveu os ativos e trabalhadores de cobre no Pará e Maranhão. A Mineração Onça Puma S.A. ficou com as operações de níquel, também no Pará. Duas empresas, dois metais, uma estratégia.
O sócio saudita e o dinheiro que validou a aposta
Para confirmar que a estrutura funcionaria, a Vale precisava de mais do que uma reestruturação interna. Precisava de um sócio que colocasse dinheiro real na mesa.
Em 2024, chegou a resposta do deserto: a Manara Minerals, uma joint venture entre a mineradora estatal saudita Ma’aden e o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, adquiriu 10% da Vale Base Metals por aproximadamente US$ 2,5 bilhões.
Traduzindo em proporção, foi como alguém pagar R$ 250 mil para ficar com um décimo de uma casa avaliada em R$ 2,5 milhões. A Vale reteve os 90% restantes e o controle total das decisões.
Essa entrada de capital não foi apenas financeira. Foi um selo de confiança do maior fundo soberano do mundo na tese de que metais como cobre e níquel serão ativos estratégicos nas próximas décadas.
O que está sendo construído no Pará agora
Salobo III e a expansão do maior complexo de cobre do Brasil
O Complexo Salobo, a cerca de 100 quilômetros de Marabá, já era enorme. Com o projeto Salobo III, a capacidade de processamento saltou de 24 milhões para 36 milhões de toneladas de minério por ano, com operações iniciadas no primeiro trimestre de 2023.
Para ter ideia da escala, imagine que um campo de futebol profissional tem cerca de 7.000 metros quadrados. A operação ampliada processa, por ano, o equivalente a uma pilha de minério que cobriria mais de 5 mil campos de futebol com um metro de profundidade.
Existe ainda o Projeto Bacaba, ligado ao Complexo de Sossego, também no Pará, com previsão de entrar em operação para sustentar a produção local enquanto os projetos maiores amadurecem.
Onça Puma e o forno que custou menos do que o previsto
Em setembro de 2025, o Complexo Mineral Onça Puma ativou seu segundo forno de fundição de níquel. O investimento ficou em torno de US$ 480 milhões, quase 13% abaixo do orçamento original, num setor onde estouros de custo são a regra.
Com o Forno 2 em operação, a capacidade do complexo salta para até 40 mil toneladas anuais de níquel, um crescimento de 15 mil toneladas de uma vez. O níquel extraído ali é fundamental para as baterias de íon-lítio que alimentam desde celulares até ônibus elétricos.
Quem comanda a empresa rumo à bolsa
O CEO Shaun Usmar assumiu a liderança em 2024 com uma missão clara: cortar custos, reduzir a dependência de capital externo e acelerar projetos. Em junho de 2025, Gustavo Pimenta assumiu a presidência do conselho de administração, substituindo Mark Cutifani, que conduziu a fase inicial de transformação.
O próprio Usmar declarou que o objetivo da gestão é deixar o negócio com “bom desempenho e oferecer opções aos proprietários”. Uma frase que, no vocabulário corporativo, significa uma coisa só: preparar a empresa para o IPO.
O IPO que pode mudar o financiamento da bioeconomia amazônica
A abertura de capital está prevista para até meados de 2026, antecipando um cronograma que antes apontava para 2027. A reestruturação avançou mais rápido do que o esperado, e a empresa se diz pronta.
Mas “pronta” não significa “garantida”. A decisão final depende de dois fatores fora do controle da gestão: a estratégia dos acionistas (Vale com 90% e Manara Minerals com 10%) e as condições do mercado financeiro. Se a janela estiver fechada, o IPO espera.
Os números de longo prazo são provocativos. A Vale Base Metals quer saltar a produção de cobre de 350 mil para 900 mil toneladas anuais, e de níquel de 175 mil para 300 mil toneladas. É quase triplicar o cobre e quase dobrar o níquel em uma única década.
Boa parte desse crescimento depende do que acontece no subsolo paraense e da capacidade de extrair esses recursos de forma que respeite os saberes ancestrais dos povos que vivem nesses territórios e preserve os ecossistemas que tornam a Amazônia o maior regulador climático do planeta.
A tensão entre mineração de escala industrial e sustentabilidade real não tem resposta fácil. O que está em jogo agora é saber se o dinheiro de um IPO bilionário vai acelerar a destruição ou financiar um modelo diferente de desenvolvimento para a região.
Essa pergunta, a Amazônia ainda aguarda a resposta.
Sugestão de imagem de capa: Vista aérea do Complexo Salobo ao amanhecer, com a névoa da floresta cobrindo a área ao redor das instalações industriais. Em primeiro plano, a estrutura metálica das usinas de beneficiamento contrasta com o verde denso da mata que avança até a borda do complexo. Luz dourada lateral evidencia a escala da operação e a proximidade com a floresta, criando tensão visual entre indústria e natureza. Fotografia em alta resolução, estilo documentário editorial.




