Agricultura entre alianças diplomáticas e disputas comerciais
A relação entre Brasil e França combina cooperação estratégica e tensão persistente. No centro desse embate está a agricultura, setor que simboliza tanto a força exportadora brasileira quanto a identidade rural francesa. O debate ganhou novo fôlego com o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, negociado há mais de duas décadas e ainda travado por resistências políticas, ambientais e sanitárias.

A França tornou-se a principal voz contrária à ratificação do tratado dentro da União Europeia. Para sindicatos agrícolas franceses, a entrada ampliada de carne bovina, aves, mel e açúcar sul-americanos ameaça um modelo produtivo que já enfrenta dificuldades estruturais. O temor é direto: produtos brasileiros, mais competitivos em escala e custo, pressionariam preços e aprofundariam a fragilidade de pequenos produtores.
Ao mesmo tempo, Paris sustenta que as regras ambientais europeias são mais rígidas que as aplicadas na América Latina, o que criaria uma concorrência desigual. Esse argumento sustenta o apoio francês à Lei Antidesmatamento Europeia, a EUDR, que impõe rastreabilidade rigorosa para garantir que produtos importados não estejam associados a áreas desmatadas.
No Brasil, o discurso é outro. Lideranças do setor classificam a legislação como protecionismo disfarçado de sustentabilidade. Argumentam que o Código Florestal brasileiro impõe preservação de até 80% da propriedade em áreas da Amazônia e 35% no Cerrado, patamar considerado elevado em comparação internacional. A divergência revela mais do que diferenças técnicas: expõe visões distintas sobre competitividade, soberania ambiental e comércio global.

SISBOV e a disputa pela confiança sanitária
A carne bovina é um dos pontos mais sensíveis dessa relação. A França foi pioneira na exigência de rastreabilidade animal após crises como a da vaca louca, que abalaram a confiança do consumidor europeu. Em resposta a esse novo padrão, o Brasil criou em 2002 o SISBOV, sistema que identifica individualmente bovinos e bubalinos desde o nascimento até o abate.
O SISBOV tornou-se o passaporte sanitário da carne brasileira. Sem ele, exportações para mercados exigentes como a União Europeia e o Chile ficariam inviáveis. Auditorias europeias, porém, apontaram inconsistências em bancos de dados e falhas no controle de movimentação animal, alimentando pressões políticas por restrições adicionais.
Para o Brasil, a rastreabilidade consolidou sua posição como maior exportador mundial de carne bovina. Em 2025, as exportações do setor atingiram 17,9 bilhões de dólares, resultado impulsionado pela abertura de novos mercados e pela valorização do boi rastreado, que costuma alcançar ágio entre 2% e 5%. Grandes redes varejistas, como o Grupo Carrefour e a Danone, utilizam programas de garantia de origem para atender consumidores europeus cada vez mais atentos à procedência.
O custo, entretanto, não é desprezível. Adequações tecnológicas, identificação eletrônica e sistemas de informação elevaram despesas de produção entre 2% e 10%. Para produtores brasileiros, essas exigências sanitárias e ambientais, embora legítimas sob o ponto de vista da segurança alimentar, muitas vezes funcionam como barreiras não tarifárias.
Subsídios europeus e vulnerabilidade francesa
Se o Brasil sustenta sua competitividade na escala e na expansão de mercados, a agricultura francesa apoia-se fortemente na Política Agrícola Comum da União Europeia. A PAC responde por cerca de dois terços da renda agrícola francesa, com aproximadamente 9 bilhões de euros anuais destinados ao setor.
O problema é que o próximo orçamento europeu prevê possibilidade de corte de até 20% nos recursos da PAC entre 2028 e 2034. Como principal beneficiária do programa, a França seria também a mais impactada. Em um contexto de déficit comercial agrícola inédito em meio século, crises sanitárias recorrentes e eventos climáticos extremos, a redução dos subsídios amplia o sentimento de vulnerabilidade.
Produtores franceses temem um cenário duplo: menos apoio financeiro interno e maior concorrência externa. O acordo com o Mercosul surge, nesse contexto, como catalisador de inquietações mais profundas. Analistas apontam que o tratado tornou-se bode expiatório de uma crise estrutural que envolve custos elevados de mão de obra, estagnação de renda rural e êxodo de jovens do campo.
Do lado brasileiro, o argumento é que os subsídios europeus distorcem o mercado global ao manter preços artificialmente competitivos. O Brasil, com modelo baseado em commodities em larga escala e menor dependência de subvenções diretas, reivindica maior equilíbrio nas regras do comércio internacional.

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Retaliação ou diplomacia
Diante da resistência francesa à ratificação do acordo e do avanço da EUDR, entidades como a Aprosoja MT passaram a defender postura mais assertiva. Entre as propostas estão denúncia formal da legislação europeia na Organização Mundial do Comércio, revisão de incentivos fiscais a empresas francesas atuantes no Brasil e aplicação de tarifas sobre produtos emblemáticos como vinhos e queijos.
Também se discute intensificar a diversificação de mercados, ampliando acordos com países da Ásia, Oriente Médio e África para reduzir dependência europeia. Paralelamente, o setor produtivo defende campanhas internacionais que reforcem a imagem do Brasil como líder em preservação e inovação agrícola, citando práticas como plantio direto e metas de desmatamento zero.
No plano diplomático, porém, o tom é mais moderado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Emmanuel Macron têm buscado manter diálogo estratégico, sobretudo em temas como transição energética e preparação para a COP30, que será realizada em Belém. O comunicado conjunto “Acelerar a ação climática” sinaliza tentativa de separar cooperação ambiental de divergências comerciais.
Essa dualidade marca a relação bilateral. Brasil e França são parceiros relevantes em diversos setores, mas a agricultura concentra tensões que extrapolam o comércio. Trata-se de um embate sobre modelos produtivos, financiamento público, sustentabilidade e narrativa internacional.
A disputa não é apenas sobre carne, soja ou açúcar. É sobre qual visão de agricultura prevalecerá no século XXI: a da produção em larga escala orientada por exportações globais ou a da proteção de sistemas locais fortemente subsidiados e regulados. Entre acordos pendentes e auditorias sanitárias, o diálogo permanece aberto, mas carregado de desconfiança.
No fim, a relação entre os dois países revela que comércio e meio ambiente não são esferas isoladas. São arenas onde interesses econômicos, pressões políticas internas e compromissos climáticos se entrelaçam. A forma como Brasil e França resolverem essas tensões poderá influenciar não apenas o destino do acordo UE-Mercosul, mas também o equilíbrio entre competitividade e sustentabilidade na agricultura global.












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