
ONU em Campo Grande: o hub global da biodiversidade itinerante
A partir de 23 de março de 2026, a capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, deixará de ser apenas o portal do Pantanal para se tornar o centro das decisões ambientais do planeta. A cidade sediará a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), um encontro bienal que reúne 132 países e a União Europeia sob a égide da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias (CMS). O objetivo é urgente: frear o declínio drástico de animais que cruzam fronteiras nacionais em busca de alimento, reprodução e sobrevivência.
O Brasil, signatário do tratado desde 2015, possui um papel estratégico. Por nossas terras, rios e mares passam quase 1,2 mil espécies protegidas, desde aves transcontinentais até mamíferos aquáticos e peixes de água doce. A escolha de Campo Grande reforça a importância dos biomas brasileiros, como o Cerrado e o Pantanal, como corredores vitais para a fauna silvestre global.
O diagnóstico alarmante do declínio
Os dados que pautarão a COP15 são preocupantes. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), houve um declínio de 24% no estado de conservação das espécies listadas pela CMS. Mais grave ainda: o relatório indica que quase metade (49%) das populações migratórias globais está diminuindo. Isso significa que uma em cada quatro dessas espécies já está classificada como ameaçada de extinção.
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Como as garças que trocaram o mangue pela Praça Batista Campos criaram um observatório urbano de aves no coração de BelémEsse retrocesso de 2% em relação à conferência anterior (COP14, realizada no Uzbequistão em 2024) aponta que as medidas atuais não estão sendo rápidas o suficiente para combater:
Fragmentação de habitats: Barreiras físicas (estradas, barragens e cidades) que cortam as rotas naturais.
Captura ilegal e acidental: O impacto direto da caça insustentável e da pesca que aprisiona espécies ameaçadas involuntariamente.
Poluição e Clima: Mudanças nos ciclos de temperatura e acúmulo de resíduos nos oceanos e solos.
Energia renovável e mineração no radar
A agenda da COP15 em Campo Grande é descrita como “ambiciosa”, com mais de 100 itens para adoção. Entre os destaques estão debates sobre a infraestrutura de energia renovável. Embora vitais para o combate à crise climática, parques eólicos e solares mal planejados podem interferir em rotas de aves e morcegos. A ONU busca estabelecer diretrizes para que a expansão verde não ocorra às custas da biodiversidade migratória.
Além disso, dois novos relatórios científicos serão lançados na abertura do evento:
Peixes migratórios de água doce: Um estudo sobre as ameaças aos grandes viajantes dos rios, essenciais para a segurança alimentar e saúde fluvial.
Mineração em águas profundas: Uma análise técnica sobre como a exploração mineral nos oceanos impacta baleias, tubarões e outras espécies marinhas de longo curso.

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Conectividade: a ponte para o futuro
Para Amy Fraenkel, secretária executiva da CMS, o conceito-chave da conferência é a conectividade ecológica. Não basta proteger um santuário em um país se a rota de chegada a ele estiver destruída no país vizinho. A proposta da COP15 é que os governos tratem as rotas migratórias como infraestruturas naturais críticas, integrando a proteção ambiental às políticas de transporte, energia e comércio.
A inclusão de 42 novas espécies sob a proteção da Convenção e o reforço do Anexo 1 (espécies ameaçadas) e Anexo 2 (espécies em situação desfavorável) darão o tom das obrigações internacionais para os próximos dois anos. Ao sediar este evento, o Brasil reafirma sua liderança climática e a responsabilidade de manter abertos os caminhos da vida que garantem a dispersão de sementes e o transporte de nutrientes por todo o globo.
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