×
Próxima ▸
Um dinossauro de 72 milhões de anos foi encontrado onde…

Uma águia quase desapareceu com 39 casais, mas sua recuperação começou quando humanos mudaram os postes

Em 1974, o primeiro censo nacional da águia-imperial-ibérica encontrou apenas 39 casais reprodutores na Espanha.

O número indicava que uma das grandes aves de rapina da Europa estava perigosamente próxima de desaparecer. Sua população mundial se concentrava na Península Ibérica, o que significava que uma perda regional poderia representar a extinção completa da espécie.

Décadas depois, o cenário mudou de maneira impressionante.

Um levantamento coordenado entre Espanha e Portugal registrou pelo menos 841 casais reprodutores entre 2021 e 2022. Eram 821 na Espanha e cerca de 20 em território português. O total representava um crescimento de 53% em relação ao censo de 2017, quando haviam sido contabilizados 536 casais.

A recuperação, porém, não aconteceu apenas porque florestas foram preservadas ou porque os ninhos passaram a ser observados.

Uma parte decisiva da história está em estruturas muito comuns da paisagem humana: os postes e as linhas de distribuição de energia.

O perigo não estava apenas no chão

A águia-imperial-ibérica, de nome científico Aquila adalberti, utiliza árvores altas e pontos elevados para descansar, observar o território e procurar presas.

Quando postes elétricos passaram a ocupar essas paisagens, eles também se transformaram em locais atraentes para pouso.

O problema estava na distância entre os cabos, nas partes metálicas e na posição dos isoladores. Uma ave de grande porte podia tocar simultaneamente dois pontos energizados ou encostar uma asa em um cabo enquanto permanecia apoiada na estrutura.

O resultado era uma descarga fatal.

A eletrocussão se tornou uma das principais causas não naturais de mortalidade da espécie, sobretudo entre aves jovens que deixavam o território dos pais e percorriam grandes distâncias em busca de novas áreas.

Por isso, parte da recuperação exigiu algo menos simbólico do que libertar aves ou criar reservas: foi necessário redesenhar estruturas elétricas.

Cabos passaram a ser isolados, componentes perigosos foram reposicionados e determinados postes receberam adaptações capazes de impedir o contato simultâneo da ave com partes energizadas. A correção dessas redes é apontada como uma das medidas fundamentais para reduzir mortes e permitir a expansão populacional.

Uma espécie pode desaparecer mesmo com adultos reproduzindo

A proteção dos ninhos é importante, mas não resolve sozinha o problema de uma ave ameaçada.

Os filhotes precisam sobreviver depois que deixam o ninho. Em seguida, precisam encontrar territórios, alcançar a maturidade, formar pares e reproduzir.

Se muitos jovens morrem durante esse caminho, uma população pode permanecer estagnada mesmo quando os casais adultos continuam produzindo filhotes.

A redução das mortes em linhas elétricas ajudou a aumentar o número de aves disponíveis para ocupar novas áreas.

Esse efeito aparece no mapa.

O censo coordenado identificou territórios reprodutivos em 21 províncias espanholas, incluindo áreas que voltaram a receber casais depois de 2018, como Granada, Cuenca e Palência. A espécie continuava concentrada em cinco comunidades autônomas da Espanha, mas sua área de reprodução estava se ampliando.

A expansão territorial é um resultado tão importante quanto o aumento numérico.

Quando quase toda uma espécie permanece concentrada em poucos lugares, uma epidemia, um incêndio de grandes proporções, uma sequência de envenenamentos ou uma alteração ambiental intensa pode afetar uma parcela enorme da população.

Ocupando novas regiões, o risco começa a ser distribuído.

Quase metade dos casais estava em uma única região

Apesar do avanço, a população ainda não está espalhada de maneira equilibrada.

Castela-Mancha reunia 396 territórios em 2022, correspondentes a aproximadamente 47% do total espanhol. Somente a província de Toledo possuía 212 territórios contabilizados.

A concentração mostra que a recuperação permanece dependente de algumas áreas especialmente favoráveis.

Esses locais combinam árvores ou estruturas adequadas para a instalação de ninhos, menor perturbação humana, disponibilidade de presas e paisagens abertas nas quais as águias conseguem caçar.

Não basta, portanto, colocar um ninho artificial ou proteger uma árvore isolada.

Uma dupla reprodutora precisa de todo um território funcional ao redor.

A recuperação também depende dos coelhos

A principal presa da águia-imperial-ibérica é o coelho-europeu.

Essa dependência cria uma relação pouco óbvia: a conservação de uma grande ave de rapina pode ser afetada diretamente por doenças que atingem pequenos mamíferos.

Diferentes epidemias reduziram populações de coelhos na Península Ibérica, diminuindo a oferta de alimento para predadores. Quando há menos presas, os adultos podem ter maior dificuldade para alimentar filhotes, e as aves jovens podem se aproximar de estradas, propriedades e outras áreas perigosas em busca de alternativas.

Programas de conservação precisaram, em algumas regiões, melhorar o habitat das presas e oferecer alimentação suplementar em momentos críticos.

A expansão da águia depende, assim, não apenas de impedir sua morte, mas de manter uma cadeia alimentar capaz de sustentá-la.

Fazendas e propriedades privadas entraram na recuperação

Grande parte do ambiente usado pela espécie não está dentro de parques nacionais.

As águias ocupam mosaicos formados por florestas mediterrâneas, áreas abertas, propriedades rurais e terrenos destinados a diferentes usos econômicos.

Isso tornou necessária a participação de proprietários, empresas de energia, autoridades regionais, pesquisadores e organizações de conservação.

Em algumas áreas, foram criadas zonas de proteção ao redor dos ninhos. Atividades potencialmente perturbadoras passaram a ser limitadas durante o período reprodutivo. Técnicos também monitoraram filhotes, resgataram aves feridas e investigaram mortes por envenenamento.

A recuperação não veio de uma única grande decisão. Ela foi construída por milhares de intervenções pequenas, repetidas durante quase cinco décadas.

O veneno permaneceu como uma ameaça silenciosa

Iscas envenenadas são usadas ilegalmente em algumas áreas para matar animais considerados prejudiciais à caça ou à criação.

Uma águia pode morrer ao consumir diretamente uma isca ou ao se alimentar do corpo contaminado de outro animal.

O envenenamento é especialmente difícil de controlar porque um único evento pode matar diferentes predadores e necrófagos. Além disso, o responsável nem sempre é identificado.

O combate exigiu fiscalização, investigação veterinária, rastreamento de aves e conscientização de pessoas que vivem ou trabalham nas áreas ocupadas pela espécie.

A proteção legal, por si só, não impediria que uma águia encontrasse uma carcaça contaminada.

Os 841 casais não são um número de 2026

A recuperação voltou a circular em reportagens publicadas em agosto de 2026, mas o total de 841 casais corresponde ao levantamento realizado entre 2021 e 2022 e divulgado oficialmente em março de 2023.

Essa diferença importa porque populações selvagens não permanecem estáticas.

Novos casais podem ocupar territórios, enquanto outros podem desaparecer. Secas, incêndios, doenças entre as presas, colisões, eletrocussões e alterações no uso da terra continuam influenciando os resultados.

Os 841 casais representam, portanto, um marco histórico confirmado, mas não devem ser apresentados como uma contagem realizada neste ano.

Mesmo assim, a tendência de longo prazo é clara: a espécie saiu de algumas dezenas de casais na década de 1970 para centenas de territórios distribuídos entre Espanha e Portugal.

A espécie está salva?

O crescimento reduziu consideravelmente o risco imediato, mas não eliminou a vulnerabilidade.

A águia-imperial-ibérica existe naturalmente em uma área mundial restrita. Seu futuro continua ligado à manutenção dos coelhos, à proteção das zonas reprodutivas e à correção permanente de novas estruturas elétricas.

O desenvolvimento de estradas, parques energéticos e linhas de transmissão precisa considerar os territórios já ocupados e as rotas usadas por aves jovens em dispersão.

Uma população maior também ocupa mais espaço. Isso significa que sua recuperação cria novos desafios: quanto mais a espécie se expande, mais ela entra em contato com infraestruturas humanas ainda não adaptadas.

O que realmente trouxe a águia de volta

É tentador resumir a recuperação dizendo que as pessoas decidiram proteger a espécie.

Na prática, foi necessário mudar a paisagem para que essa proteção funcionasse.

Ninhos foram acompanhados. Venenos foram combatidos. Presas foram manejadas. Proprietários rurais participaram. Fios foram isolados. Postes foram reconstruídos.

A história mostra que conservar uma espécie nem sempre significa retirar completamente a presença humana.

Às vezes, significa reconhecer que estradas, redes elétricas e atividades econômicas já fazem parte do ambiente e precisam ser redesenhadas para deixar de funcionar como armadilhas.

A águia-imperial-ibérica não voltou apenas porque recebeu proteção legal.

Ela voltou porque, poste por poste e território por território, as pessoas começaram a tornar a paisagem menos mortal.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA