Mesmo com emissões líquidas zero, trópicos pobres podem seguir mais expostos ao aquecimento por décadas

Mesmo com emissões líquidas zero, trópicos pobres podem seguir mais expostos ao aquecimento por décadas
Foto: acervo

Estudo da Universidade de Melbourne indica que a desigualdade climática não desaparece quando o aquecimento global desacelera.

Para as regiões tropicais mais pobres, alcançar emissões líquidas zero não significará uma saída imediata da zona de maior exposição ao aquecimento. Um estudo liderado por pesquisadores da University of Melbourne, na Austrália, indica que a diferença entre os locais mais vulneráveis e as áreas mais ricas de latitudes elevadas continuará visível por muitas décadas, mesmo em cenários nos quais o aquecimento global desacelera ou começa a ser revertido.

A pesquisa foi disponibilizada como manuscrito aceito pela IOP Publishing em 16 de setembro de 2026. O trabalho analisou como as temperaturas locais podem se comportar depois que as emissões humanas de gases de efeito estufa chegam a zero ou passam a ser negativas. A conclusão central é que a desigualdade climática não acompanha automaticamente uma eventual estabilização da temperatura média do planeta.

O aquecimento não muda de forma igual em todo lugar

O ponto de partida dos autores é uma diferença entre duas escalas que costumam aparecer juntas nas discussões climáticas. Uma é a temperatura média global. A outra é o que acontece em cada região, onde fatores atmosféricos, geográficos e oceânicos produzem respostas distintas.

Enquanto as emissões continuam, praticamente todas as áreas do planeta apresentam aquecimento significativo. No entanto, quando os pesquisadores examinaram os períodos posteriores ao alcance do net zero ou de emissões líquidas negativas, encontraram um padrão recorrente: o Hemisfério Norte tende a apresentar resfriamento relativo, enquanto o Hemisfério Sul tende a continuar aquecendo em comparação com a variação média global.

Esse resultado apareceu em diferentes escalas de tempo e em mais de uma estrutura de modelagem. Isso não significa que todo ponto do Hemisfério Sul terá a mesma trajetória, nem que o Hemisfério Norte deixará de registrar ondas de calor. A comparação feita pelos cientistas trata da mudança local em relação à média global, e não de uma previsão simples para cada cidade.

Por que os trópicos aparecem com mais clareza

Uma das conclusões mais relevantes está no chamado sinal-ruído da mudança climática. O sinal é a tendência persistente de aquecimento ou resfriamento. O ruído corresponde às oscilações naturais de um ano para outro, que podem esconder ou dificultar a identificação da tendência.

O estudo aponta que as mudanças posteriores ao net zero serão mais detectáveis nas áreas tropicais. Isso não ocorre porque os trópicos necessariamente terão as maiores alterações absolutas de temperatura. A explicação apresentada é que a variabilidade interanual tende a ser menor nessa faixa do planeta, tornando mais nítida a diferença entre a tendência climática e as oscilações naturais.

Segundo a pesquisa publicada pela IOP Publishing, a exposição relativa ao aquecimento continuará maior em áreas tropicais pobres do que em localidades mais ricas de altas latitudes, mesmo sob trajetórias de emissões líquidas zero. O trabalho também indica que essa relação pode levar muitas décadas para começar a se inverter em cenários de emissões líquidas negativas.

O que isso significa para a Amazônia

A conclusão alcança diretamente a discussão sobre a Amazônia porque a região está em uma faixa tropical e reúne territórios com diferentes níveis de renda, infraestrutura e acesso a serviços públicos. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins estão inseridos em uma área onde a detecção das tendências de temperatura pode ser favorecida pela menor variabilidade entre anos, de acordo com a lógica analisada no estudo.

Essa conexão, porém, não autoriza transformar o artigo em uma previsão específica para cada estado amazônico. O trabalho investiga padrões regionais globais e não apresenta, no material analisado, uma projeção individual para cidades ou comunidades da Amazônia. O que ele oferece é um alerta de planejamento: reduzir as emissões não elimina de imediato a diferença de exposição entre populações.

Na prática, isso reforça a importância de políticas de adaptação que continuem depois da transição energética. Sistemas de saúde, agricultura, proteção de trabalhadores expostos ao calor, abastecimento de água e infraestrutura urbana podem precisar de investimentos por mais tempo, mesmo que a curva da temperatura média mundial se estabilize.

Net zero não é o mesmo que resfriamento imediato

Emissões líquidas zero significam que a quantidade de gases de efeito estufa lançada na atmosfera é equilibrada pela remoção de uma quantidade equivalente. Esse marco interrompe o crescimento líquido da concentração de dióxido de carbono, mas não apaga instantaneamente o aquecimento acumulado.

Já os cenários de emissões líquidas negativas pressupõem que a remoção de gases seja maior do que as emissões. Nessa hipótese, o aquecimento médio global pode desacelerar de maneira mais intensa e, em algum momento, começar a diminuir. O artigo mostra que a resposta regional não será uniforme durante esse processo.

Para os autores, essa diferença é essencial porque uma eventual queda da média global pode criar a impressão de que o problema foi resolvido de forma geral. As temperaturas de uma região específica, entretanto, podem seguir outra trajetória. O padrão identificado entre resfriamento relativo no Norte e aquecimento relativo no Sul é justamente uma demonstração dessa distância entre a média do planeta e a experiência local.

O que ainda permanece em aberto

Os pesquisadores destacam a necessidade de comparar múltiplos experimentos de modelagem para avaliar a robustez das projeções. Modelos diferentes podem representar de formas distintas a circulação atmosférica, os oceanos e a variabilidade natural, elementos que influenciam a distribuição regional do calor.

O estudo não afirma que a desigualdade climática permanecerá idêntica em todos os lugares. A mensagem é mais específica: os padrões atuais de exposição relativa não devem se inverter imediatamente após o net zero. Nos cenários de emissões negativas, a reversão pode começar apenas depois de muitas décadas, deixando um intervalo prolongado para medidas de proteção.

O manuscrito foi recebido em 27 de abril de 2026, revisado em 3 de setembro e aceito em 16 de setembro do mesmo ano. Os próximos passos dependem da publicação da versão final do artigo e do avanço de novas simulações sobre as respostas locais em um planeta pós-net zero.

Com informações de IOP Publishing.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA