Amazônia emite 1,17 bilhão de toneladas de CO2 a mais do que absorve por ano e cientistas apontam o fogo como principal causa

Amazônia emite 1,17 bilhão de toneladas de CO2 a mais do que absorve por ano e cientistas apontam o fogo como principal causa
Foto: Divulgação

Estudo do Inpe na Nature, com 15 anos de medições em voos sobre a floresta, indica que a ação humana inverteu o balanço de carbono do bioma.

A Amazônia deixou de funcionar, em média, como o grande depósito de carbono do planeta. Entre 2010 e 2024, a floresta liberou 1,17 bilhão de toneladas de dióxido de carbono (CO2) a mais do que absorveu a cada ano, segundo estudo liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e publicado em 21 de outubro de 2026 na revista Nature. A pesquisa aponta as queimadas como principal fonte dessas emissões e atribui o desequilíbrio a atividades humanas.

O fogo pesa mais do que a floresta consegue compensar

As queimadas emitiram cerca de 1,47 bilhão de toneladas de CO2 por ano, enquanto a capacidade de absorção da mata é de 300 milhões de toneladas anuais. A conta é simples: o que sai pelo fogo é quase cinco vezes o que a floresta captura.

Um detalhe do trabalho chama atenção. Descontadas as emissões das queimadas, a Amazônia absorveu praticamente a mesma quantidade de CO2 que devolveu à atmosfera, e a troca líquida de carbono do bioma ficou próxima da neutralidade. Sobrou pouca ou nenhuma absorção para compensar o gás liberado pelo fogo.

Para a cientista do clima Luciana Vanni Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) do Inpe e principal autora do artigo, a conclusão é direta.

“A principal mensagem da pesquisa é chocante: o problema da Amazônia é a ação humana. Estamos perdendo a floresta porque o modelo de desenvolvimento da região tem sido baseado na destruição. Precisamos de políticas públicas que valorizem a floresta em pé”, diz Luciana Vanni Gatti.

Como os cientistas mediram o carbono

Os dados foram coletados entre 2010 e 2024 por meio de voos em aviões de pequeno porte sobre a floresta. As amostras de ar foram analisadas no laboratório do Inpe, que quantificou CO2 e monóxido de carbono (CO). As coletas ocorreram em quatro localidades, de modo a cobrir nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste da Amazônia.

A equipe cruzou essas medições com informações sobre desmatamento, queimadas, precipitação, temperatura do ar e temperatura da superfície do mar. A mesma metodologia já havia gerado três artigos anteriores de Gatti na Nature, em 2014, 2021 e 2023. Os dois últimos já indicavam que o bioma se tornava fonte de carbono, mas principalmente nas regiões mais desmatadas.

Três tipos de ano, dois resultados

Os pesquisadores agruparam os anos em três cenários. O primeiro reúne anos chuvosos (2011, 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018), com baixa intensidade de atividades humanas. O segundo, de 2019 a 2022, teve baixo estresse climático, mas desmatamento 97% maior e queimadas 25% maiores. O terceiro reúne anos quentes e secos (2010, 2015, 2016, 2023 e 2024), marcados por El Niño e aquecimento do Atlântico tropical norte, com aumento de 92% nas queimadas.

Nos grupos 2 e 3, a Amazônia passou de estocadora a fonte de CO2. No grupo 2, as emissões foram quase quatro vezes maiores do que no grupo 1, com balanço médio de cerca de 1,58 bilhão de toneladas de CO2 por ano. No grupo 3, o balanço chegou a 1,8 bilhão.

A La Niña amenizou o quadro no segundo grupo. Segundo Gatti, sem o fenômeno as emissões poderiam ter sido piores: com ele, a absorção de carbono na estação chuvosa compensou 75% das emissões da seca. Entre 2020 e 2023 houve o chamado “triplo mergulho” da La Niña, com resfriamento anormal do Pacífico por três verões consecutivos do hemisfério Sul.

Menos chuva, mais calor e um ciclo que se alimenta

Ao analisar 46 anos de dados, os autores concluem que desmatamento e degradação reduziram a precipitação anual em 8% e, no pico da seca (agosto a outubro), em 20%. A temperatura média anual subiu 1,13 °C, e na estação seca a alta foi de 1,81 °C.

Segundo Gatti, esse cenário alimenta um ciclo de retroalimentação: a perda de vegetação reduz as chuvas e eleva as temperaturas, o que favorece novas queimadas e degrada ainda mais a floresta restante. “É um estresse muito grande sobre a floresta que fica”, disse a pesquisadora à Agência FAPESP.

O que isso significa para quem vive na região

O alerta chega num ano de fogo intenso. De acordo com dados do Inpe, são mais de 41.300 focos de incêndio na Amazônia em menos de dez meses, 58% deles concentrados em setembro e outubro, contra 43.130 em todo o ano passado.

A fumaça densa cobriu municípios do Amazonas, sobretudo Manaus, e levou à suspensão de aulas e à sobrecarga do sistema de saúde por problemas respiratórios. O caso é investigado como crime ambiental, com suspeita de ação humana deliberada.

O que ainda não se sabe

Gatti levanta uma dúvida central: a floresta absorve menos carbono porque a vegetação faz menos fotossíntese ou porque há mais decomposição? E as ações humanas superam essa capacidade, ou são todos os fatores juntos? A resposta indicaria se as árvores estão perdendo a condição de viver naquele ambiente.

Para avançar, o grupo trabalha desde 2022 com o sulfeto de carbonila (COS), uma variante química do CO2 que serve como traçador da fotossíntese e permite medi-la com mais precisão.

O estudo teve apoio da FAPESP, por meio do Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, e bolsa para a pesquisadora Camilla Lima Cunha, coautora. Ela defende o financiamento contínuo para pesquisas de longo prazo, necessárias para subsidiar estratégias de conservação.

Os autores afirmam que a redução drástica das queimadas, combinada ao desmatamento zero e à restauração florestal, é essencial para evitar um ponto de não retorno, quando a floresta perderia a capacidade de se manter e daria lugar a outro tipo de vegetação. O artigo completo, intitulado Amazon carbon emissions driven by human actions amplified by droughts, foi publicado na Nature, e a nova fase com o COS deve trazer respostas sobre a saúde da fotossíntese na floresta.

Com informações de Agência FAPESP.

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