
Deslizamentos de permafrost no território canadense são vistos por cientistas como um possível retrato do futuro em regiões frias.
Imagine um pedaço de chão congelado do tamanho de uma casa se soltando de uma encosta e escorregando morro abaixo. É essa a cena descrita por pesquisadores no Canadá, onde o aquecimento do clima provocou os chamados deslizamentos de permafrost. Segundo a Live Science, mudanças climáticas desencadearam deslizamentos de permafrost com blocos de gelo do tamanho de casas no Canadá, e o episódio foi apontado como “um possível vislumbre do futuro”.
A frase em inglês que resume a avaliação é “A potential glimpse into the future”. Ela indica que o que se vê hoje em algumas áreas geladas pode se tornar mais comum à medida que o planeta esquenta.
O chão que nunca derrete e agora derrete
Permafrost é o nome dado ao solo que permanece congelado durante pelo menos dois anos seguidos. Ele pode ser feito de terra, rocha, areia e, em muitos lugares, de gelo misturado ao sedimento. Ocupa grandes áreas do hemisfério Norte, incluindo boa parte do território canadense.
Enquanto está congelado, esse material funciona como uma cola. Segura encostas, sustenta o terreno e mantém no lugar o que está enterrado. Quando a temperatura sobe e o gelo derrete, a cola se desfaz.
Como um bloco de gelo vira deslizamento
O fenômeno tem um nome técnico entre cientistas: afundamentos ou escorregamentos por degelo. A lógica é simples de imaginar. Um trecho de encosta perde a camada que o protegia, o gelo escondido no solo fica exposto, derrete, e a terra solta escorrega. Cada deslizamento deixa uma nova parede de gelo à vista, que também derrete, e o processo pode seguir avançando.
É por isso que os blocos do tamanho de casas chamam tanta atenção. Não se trata de uma queda isolada de pedras, mas de massas enormes de solo congelado que se desprendem e se movem quando o terreno deixa de ser sustentado pelo gelo.
Por que isso preocupa quem não vive no Ártico
Há um motivo para o assunto ir além da paisagem. O permafrost guarda grandes quantidades de matéria orgânica, como restos de plantas e animais que ficaram congelados por muito tempo. Quando o solo descongela, esse material pode ser decomposto por microrganismos, o que libera gases de efeito estufa, como dióxido de carbono e metano, na atmosfera.
Em outras palavras, o aquecimento derrete o solo, o solo libera gases, e os gases podem reforçar o próprio aquecimento. Cientistas chamam esse tipo de ciclo de retroalimentação. Ele é uma das razões pelas quais o degelo do permafrost é acompanhado com atenção nas discussões sobre clima.
Há ainda efeitos mais próximos do chão. Estradas, construções e redes de energia em regiões frias foram erguidas sobre terreno que se imaginava estável. Quando o solo cede, a infraestrutura sofre, e comunidades que vivem nessas áreas sentem a mudança primeiro.
E a Amazônia com isso?
A Amazônia não tem permafrost. Seu clima quente e úmido não permite solo congelado de forma permanente. Mas o que acontece no norte do Canadá não fica restrito a ele. O clima do planeta funciona como um sistema ligado, e gases liberados em qualquer lugar se espalham pela atmosfera e somam-se aos que já aquecem o mundo inteiro.
Esse aquecimento global tem relação direta com o que a região amazônica enfrenta: secas mais severas, rios com níveis muito baixos e períodos de calor intenso, que afetam o transporte fluvial, a pesca, a agricultura familiar e a saúde de quem vive nas cidades e nas comunidades ribeirinhas. O caso canadense é um exemplo de como mudanças em áreas distantes entram na mesma conta climática.
Existe também uma lição de comparação. No Canadá, o gelo que sustentava o terreno deixou de cumprir esse papel. Na Amazônia, a floresta em pé cumpre uma função parecida de equilíbrio: ajuda a manter o ciclo de chuvas e armazena carbono. Proteger esses sistemas antes que cheguem a um ponto de ruptura costuma ser mais eficaz do que tentar remediar depois.
O que ainda precisa ser acompanhado
A expressão “vislumbre do futuro” carrega uma cautela importante. Ela não afirma que todos os lugares com permafrost vão sofrer o mesmo tipo de colapso na mesma velocidade, mas indica que o fenômeno merece vigilância. Quanto mais o clima esquentar, maior tende a ser a quantidade de solo congelado exposta ao degelo.
O material completo sobre o caso está na reportagem original da Live Science, que pode ser lida neste endereço. O que se acompanha daqui para a frente é se novos deslizamentos serão registrados e como o monitoramento dessas áreas ajudará a entender a velocidade do degelo.
Com informações de Live Science.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














