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Calor extremo pode alterar emoções e impulsos, e estudo investiga…

Em emergências, bombeiros e policiais inspiram mais confiança que redes sociais, aponta pesquisa em quatro países

Em emergências, bombeiros e policiais inspiram mais confiança que redes sociais, aponta pesquisa em quatro países
Foto: Michael Craig

Estudo mostra que o problema não é apenas receber alertas sobre enchentes, mas saber quem transmite a informação.

Quando uma enchente avança e deixa apenas alguns minutos para a decisão, a pergunta mais importante pode não ser se existe um alerta, mas quem está transmitindo essa mensagem. Foi o que aconteceu em agosto de 2025 com o pastor paquistanês Abuzar Hussain, que percebeu uma inundação de origem glacial descendo pelas montanhas de Shijar e conseguiu avisar sua comunidade por telefone. O sinal de celular funcionava em um ponto mais alto, de onde o alerta chegou ao alto-falante da mesquita e ajudou a salvar centenas de pessoas.

A experiência de Hussain ilustra um problema analisado por pesquisadores da Northumbria University, no Reino Unido: sistemas de alerta podem receber milhões em investimentos e, ainda assim, falhar se a população não confiar na origem da informação ou não conseguir acessá-la pelo canal utilizado. O estudo ouviu quase 900 pessoas na Bélgica, na Alemanha, na Polônia e na Flórida, nos Estados Unidos, regiões atingidas por eventos extremos em 2024.

Segundo pesquisadores da Northumbria University, os moradores consultados receberam quantidade suficiente de informações durante as emergências climáticas de 2024, mas apontaram falhas na fonte e no meio de transmissão dos alertas.

O mensageiro pesa tanto quanto a mensagem

As respostas foram organizadas a partir do conceito de “vazio de informação”. A ferramenta compara aquilo que as pessoas esperavam receber com o que de fato chegou até elas. A avaliação considerou quatro dimensões: volume, precisão, origem e canal da comunicação.

Os participantes analisaram, por exemplo, se sabiam com clareza quando e onde uma inundação poderia ocorrer, se o conteúdo parecia correto, quem havia transmitido o aviso e se tinham acesso ao meio usado para divulgá-lo. Quanto maior a distância entre o alerta considerado ideal e a experiência real, maior o vazio identificado.

Os dados mostraram problemas na precisão de informações sobre o horário e a localização das inundações. A diferença mais expressiva, porém, apareceu na identidade do mensageiro e na forma como a informação alcançava o público. Bombeiros e policiais ficaram entre as fontes mais confiáveis. Influenciadores digitais e líderes religiosos registraram níveis relativamente mais baixos de confiança.

Por que o alerta pode se perder no caminho

Tempestades e enchentes não ameaçam apenas casas, estradas e pontes. Também podem danificar redes de telefonia, interromper deslocamentos e impedir que equipes de emergência atualizem a população por televisão, internet ou redes sociais. Nessa interrupção, o intervalo entre uma informação oficial e outra pode ser preenchido por rumores.

O risco aumenta quando as pessoas não sabem, por exemplo, onde encontrar suprimentos, qual estrada está liberada ou se uma ordem de evacuação é verdadeira. A incerteza cria espaço para versões alternativas dos fatos, que podem circular com rapidez e gerar desconfiança em relação às autoridades e às equipes que atuam no local.

O estudo relaciona esse processo ao crescimento da desinformação em situações de crise. Pesquisas anteriores citadas pelos autores indicam que surtos de informações falsas costumam ser precedidos por uma ausência ou insuficiência de comunicação oficial. Um trabalho preliminar sobre a pandemia de covid-19 também apontou uma possível ligação entre vazios de informação e aumento da desinformação, embora esse resultado ainda não tenha passado por revisão por pares.

O que as enchentes de 2024 revelaram

A pesquisa foi conduzida em áreas afetadas pela tempestade Boris, que provocou inundações mortais na Europa Central, e pelo furacão Helene, que causou destruição no sudeste dos Estados Unidos. Esses episódios funcionaram como cenários reais para testar a ferramenta criada pelos pesquisadores.

O objetivo não era apenas medir se os moradores tinham recebido um alerta. A equipe procurou entender se a mensagem era considerada confiável, se chegava no momento adequado e se o canal escolhido podia ser acessado durante uma emergência. Uma comunicação correta, mas transmitida por uma fonte desacreditada ou por uma rede danificada, pode não produzir a reação esperada.

Essa conclusão também ajuda a interpretar o desastre registrado na fronteira entre Nepal e Tibete em agosto de 2026. Uma inundação repentina destruiu vilarejos e estradas e matou mais de mil pessoas, enquanto ventos fortes e a força da água dificultaram a comunicação entre equipes de resposta e moradores. Em cenários assim, o tempo para confirmar uma informação é menor justamente quando a necessidade de confiança é maior.

A lição para comunidades amazônicas

Na Amazônia, onde comunidades podem estar separadas por rios, estradas longas ou trechos com conexão instável, a escolha do mensageiro tem importância prática. Um alerta que depende exclusivamente de internet ou de uma plataforma digital pode não alcançar todos os moradores. A pesquisa reforça a necessidade de combinar canais e envolver pessoas ou instituições que já tenham credibilidade no território.

Isso não significa substituir órgãos oficiais por redes informais. Bombeiros, policiais e estruturas públicas continuam essenciais para produzir e validar as informações. A questão é fazer com que a orientação oficial também circule por meios reconhecidos pela comunidade, de forma frequente e compreensível, desde a preparação até a resposta e a recuperação após o desastre.

Para os estados amazônicos, a aplicação dessa lógica pode envolver o planejamento de mensagens para diferentes realidades de acesso, sem presumir que todos receberão um aviso pelo mesmo aplicativo, site ou rede social. O estudo não avaliou comunidades da região, mas oferece uma referência para pensar em alertas de cheias, tempestades e outros eventos extremos sem reduzir a comunicação ao simples envio de dados.

O próximo passo é acompanhar os vazios

Os autores defendem que órgãos responsáveis pelo planejamento de desastres monitorem continuamente os vazios de informação. Isso inclui observar não apenas quantas mensagens foram enviadas, mas também quais fontes foram ouvidas, quais canais permaneceram disponíveis e em que pontos a população continuou com dúvidas.

A estratégia pode aumentar a adesão às orientações de emergência e reduzir o espaço para rumores antes que eles se espalhem. O caso de Abuzar Hussain mostra que uma ligação feita no momento certo pode ter grande efeito, mas a pesquisa indica que esse resultado depende de uma rede mais ampla de confiança e de preparação.

O artigo com os resultados foi publicado em 18 de setembro de 2026, após as análises dos eventos extremos ocorridos em 2024, e os pesquisadores defendem que a comunicação seja planejada junto com os sistemas de alerta, não apenas depois que uma emergência começa.

Com informações de Northumbria University, Newcastle.

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