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SIPEC usará IA para antecipar desastres climáticos, mas depende de conectar dados de 5.569 municípios

SIPEC usará IA para antecipar desastres climáticos, mas depende de conectar dados de 5.569 municípios
Foto: MundoGEO

Sistema previsto no plano brasileiro de inteligência artificial terá de integrar órgãos, plataformas e bases públicas em tempo real.

Quando um evento climático extremo se aproxima, a diferença entre receber um alerta útil e obter uma informação fragmentada pode estar na conexão entre bases que pertencem a órgãos diferentes. É esse problema que está por trás do Sistema Inteligente de Previsão de Extremos Climáticos, o SIPEC, projeto previsto no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial para apoiar a antecipação de desastres naturais no Brasil entre 2024 e 2028.

A proposta é aplicar inteligência artificial à leitura combinada de dados meteorológicos, ambientais, geográficos, de infraestrutura e de defesa civil. Na prática, o sistema precisaria cruzar informações em tempo real para identificar sinais de risco e ajudar o poder público a agir antes que os impactos de um evento extremo se ampliem.

O desafio começa antes do algoritmo

O ponto mais complexo do SIPEC pode não estar na escolha do modelo de inteligência artificial, mas na possibilidade de fazer esse modelo acessar dados confiáveis, atualizados e compatíveis. Muitas informações públicas estão distribuídas entre sistemas antigos, centros de processamento próprios e diferentes ambientes de computação em nuvem.

Esse cenário cria uma barreira operacional. Mesmo que cada órgão disponha de dados relevantes, a ausência de uma conexão eficiente pode dificultar a consulta conjunta, atrasar respostas e aumentar o custo de projetos que dependam de migrações ou duplicação de arquivos.

Segundo o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, o SIPEC é uma iniciativa voltada à previsão de extremos climáticos no Brasil durante o período de 2024 a 2028. O projeto ainda não tem uma previsão de conclusão apresentada no material, e sua efetividade dependerá da capacidade de integrar dados com segurança, governança e desempenho.

Por que a maturidade dos municípios pesa

A dimensão municipal torna a integração ainda mais relevante. O Mapa de Governo Digital, ferramenta da Secretaria de Governo Digital do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, mostra que 1.676 dos 5.569 municípios brasileiros atendem atualmente a todos os indicadores de gestão e oferta considerados pela plataforma.

O número representa uma parcela inferior a um terço das cidades do país. Isso não significa que os demais municípios estejam fora da transformação digital, mas indica que existem diferentes níveis de estrutura, capacidade técnica e oferta de serviços entre as administrações locais que poderiam participar de uma rede nacional de prevenção.

Ao mesmo tempo, o Governo Federal estabeleceu a meta de integrar 60% das cidades à plataforma GOV.BR até o fim de 2026. A expansão tende a ampliar o volume de informações compartilhadas entre União, estados e municípios, mas também aumenta a necessidade de padrões comuns para acesso, proteção e atualização dos dados.

Como conectar sem criar cópias

Uma das alternativas apresentadas para esse tipo de ambiente é o gerenciamento lógico de dados, também chamado de virtualização. Em vez de transferir todos os arquivos para um único repositório, a arquitetura cria uma camada capaz de localizar e conectar fontes diferentes, mantendo os dados em seus ambientes de origem.

O benefício está em permitir uma visão unificada das informações sem exigir, de imediato, uma grande operação de migração. Para um sistema de previsão climática, isso pode significar consultar bases distintas com mais rapidez, reduzir a criação de cópias e preservar controles de acesso específicos de cada órgão.

Essa abordagem também pode ajudar na governança. Quando os dados continuam sob responsabilidade de suas fontes originais, as instituições podem manter regras próprias de segurança e privacidade, enquanto disponibilizam as informações necessárias para análises integradas.

Experiências internacionais mostram caminhos diferentes

Casos citados pela Denodo indicam como a integração lógica pode ser aplicada em áreas públicas distintas. Na Itália, o Instituto Nacional de Estatística conectou mais de 200 fontes de dados administrativos e dispositivos de internet das coisas para acelerar a produção de estatísticas oficiais e reduzir custos de infraestrutura.

Nos Estados Unidos, a Pantex, responsável pela gestão de instalações ligadas à segurança nuclear, integrou sistemas sensíveis sem transferir as informações para novos repositórios. A experiência reforça a importância de conectar dados sem ampliar desnecessariamente a superfície de exposição.

Na Bélgica, a agência pública de empregos Le Forem passou a reunir dados sobre candidatos, capacitações e vagas para personalizar o atendimento em tempo real, respeitando requisitos de privacidade. Os exemplos não são equivalentes ao SIPEC, mas ajudam a mostrar que a integração pode servir tanto a emergências quanto a serviços cotidianos.

O que isso representa para a Amazônia

Para os estados amazônicos, a lógica do projeto pode ser especialmente útil quando informações de municípios, órgãos ambientais, redes meteorológicas, infraestrutura e defesa civil precisarem ser analisadas em conjunto. Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e o Maranhão, considerando a Amazônia Legal, reúnem territórios extensos e realidades administrativas diferentes, o que torna a padronização dos dados um requisito para qualquer resposta coordenada.

O SIPEC não substitui as equipes locais nem transforma automaticamente uma previsão em ação. Seu resultado dependerá da qualidade das informações fornecidas, da velocidade de atualização e da existência de protocolos para que alertas cheguem aos responsáveis por decisões e atendimento à população.

“Projetos de Inteligência Artificial são frequentemente associados à qualidade dos modelos, mas existe uma etapa anterior que costuma ser subestimada: garantir que os dados corretos possam ser acessados com segurança, governança e em tempo real. Sem uma estratégia eficiente de integração de dados, iniciativas como o SIPEC correm o risco de enfrentar atrasos, custos elevados e dificuldades para escalar”, afirma Guilherme Duarte, diretor técnico Latam da Denodo.

O que ainda precisa acontecer

A implantação de uma ferramenta nacional desse tipo exige mais do que conectar plataformas. Será necessário definir quais dados podem ser compartilhados, com que frequência devem ser atualizados, quem poderá acessá-los e como serão tratados eventuais conflitos entre bases.

Também será preciso lidar com sistemas legados, ambientes de nuvem diferentes e municípios com níveis desiguais de estrutura digital. A promessa de antecipar extremos climáticos só poderá ser medida quando o sistema estiver em operação e seus alertas puderem ser comparados com ocorrências reais.

“O avanço da Inteligência Artificial no setor público torna a integração de dados uma questão estratégica. Quanto mais distribuídas estiverem as informações entre órgãos, sistemas legados e diferentes ambientes de nuvem, maior será a necessidade de arquiteturas capazes de conectá-las sem multiplicar cópias”, conclui Guilherme Duarte.

O próximo passo é transformar a previsão prevista no PBIA em uma infraestrutura funcional, com integração progressiva das bases públicas e definição dos procedimentos que orientarão a resposta a futuros eventos extremos.

Com informações da Denodo.

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