
Pesquisa da Universidade de Bonn combina satélites e boias para medir o aquecimento em toda a profundidade dos oceanos.
O aquecimento dos oceanos não acontece de maneira uniforme. Uma nova análise feita por pesquisadores da Universidade de Bonn, na Alemanha, mostra que as grandes bacias oceânicas podem absorver quantidades de calor significativamente diferentes das previstas por modelos climáticos. Em alguns casos, a diferença chega à faixa de dois dígitos percentuais.
O estudo, divulgado em 2 de outubro de 2026, combina medições de boias que flutuam pelo oceano com dados de satélites capazes de acompanhar pequenas variações no nível do mar. A técnica permitiu reconstruir mapas mensais do aquecimento e estimar a energia acumulada em toda a coluna de água, não apenas nas camadas mais próximas da superfície.
O oceano funciona como um termômetro do planeta
A Terra recebe e retém mais energia do que devolve ao espaço. Cerca de 90% do calor adicional associado ao desequilíbrio climático é absorvido pelos oceanos. Esse armazenamento influencia a elevação do nível do mar, as ondas de calor marinhas e fenômenos atmosféricos como o El Niño.
Segundo a Universidade de Bonn, os oceanos absorveram aproximadamente 90% do calor extra acumulado no sistema climático, e o estudo publicado em 2026 reconstruiu esse processo com dados de satélites e observações oceânicas. A importância do resultado está em transformar um fenômeno espalhado por grandes áreas em uma medição comparável ao longo do tempo.
A água se expande quando esquenta. Por isso, mesmo sem receber água adicional, o oceano pode subir alguns milímetros por ano devido ao aumento da temperatura. O nível também cresce com o derretimento de geleiras e mantos de gelo, mas os pesquisadores conseguiram separar esses fatores para estimar especificamente a parcela relacionada ao aquecimento.
Como os satélites e as boias foram combinados
Os satélites de altimetria por radar medem a altura da superfície do mar com grande precisão. Já os satélites da missão GRACE ajudam a identificar mudanças na distribuição de massa, como as provocadas pela perda de gelo em geleiras e mantos de gelo. Retirando essa contribuição, os pesquisadores conseguem atribuir parte da elevação à expansão térmica da água.
As boias do sistema Argo complementam o quadro. Elas registram a temperatura e outras características das camadas superiores do oceano, permitindo estimar em que profundidades o calor está se concentrando. A combinação das fontes foi processada por meio de um método de cálculo conjunto, capaz de lidar com conjuntos de dados muito diferentes.
Uma das novidades foi calcular o coeficiente de expansão térmica da água para diferentes regiões. Em trabalhos anteriores, esse valor costumava ser tratado como se fosse igual em todo o planeta. Como a composição, a temperatura e a salinidade variam entre as áreas oceânicas, assumir um número único pode produzir erros relevantes.

O Índico teve uma concentração de calor fora do padrão
Quando todos os oceanos são analisados em conjunto, os resultados permanecem próximos das estimativas dos modelos climáticos. A diferença aparece com mais clareza quando cada bacia é observada separadamente.
Entre 2005 e 2015, o Oceano Índico absorveu uma quantidade de calor considerada especialmente alta pelos pesquisadores. No período de aproximadamente 20 anos analisado, os oceanos Pacífico, Atlântico e Índico responderam, cada um, por cerca de um terço do calor adicional absorvido pelas grandes bacias.
Essa distribuição sugere que o calor não fica necessariamente preso na região onde entrou. Ele pode ser redistribuído entre os oceanos por correntes e processos de circulação. O estudo, porém, não apresenta uma explicação definitiva para todas as mudanças observadas. Os autores destacam que as causas e as consequências das variações em intervalos de poucos anos ainda não são totalmente compreendidas.
Por que a descoberta importa para a costa amazônica
O resultado também ajuda a interpretar riscos que chegam à Amazônia por meio do oceano. O litoral do Pará e do Amapá, os estuários amazônicos, as áreas de mangue e as comunidades costeiras estão ligados a um sistema em que o nível do mar, a temperatura da água e a circulação oceânica influenciam erosão, inundações e a exposição de cidades e ecossistemas.
O aquecimento marinho não determina sozinho o que acontecerá em cada ponto da costa. O efeito local depende também de marés, correntes, subsidência do terreno, ocupação urbana e descarga dos rios. Ainda assim, medir com mais precisão quanto calor está sendo armazenado no oceano melhora a base para projeções e estratégias de adaptação no litoral amazônico.
Para o leitor da região, a principal consequência prática é que a temperatura média do ar sobre a terra não conta toda a história. O oceano muda mais lentamente e apresenta menos oscilações de curto prazo, por isso o nível do mar pode funcionar como um indicador mais estável do estado do sistema climático.
O que ainda precisa ser medido
Os pesquisadores defendem a manutenção de redes de observação em alto-mar e de missões de satélite com financiamento de longo prazo. A continuidade é importante porque uma mudança na absorção de calor pode ocorrer em poucos anos, alterando as conclusões obtidas a partir de séries curtas.
A equipe também pretende recuar para décadas anteriores a 1993, período em que havia menos dados de satélite disponíveis. Para isso, serão incorporadas medições históricas. No futuro, os pesquisadores planejam incluir informações dos satélites GRACE-C e NGGM, ampliando a capacidade de acompanhar a distribuição de massa e o aquecimento dos oceanos.
O artigo completo, publicado na revista científica Earth System Science Data, está disponível no estudo sobre o conteúdo de calor dos oceanos. As próximas etapas devem testar o método em séries históricas mais longas e com novas missões espaciais.
Com informações de Universidade de Bonn.
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