
Rede internacional quer acompanhar água, microrganismos e contaminantes em um sistema de mais de 1.000 quilômetros.
Quando a chuva extrema atingiu o Sul do Brasil em maio de 2024, a água não avançou apenas sobre cidades e estradas. Ela também alterou uma extensa rede de lagos rasos conectados ao longo da costa atlântica. Em algumas áreas, foram registrados mais de 200 milímetros em um único dia e mais de 500 milímetros ao longo de dez dias. Para os cientistas, o episódio expôs a vulnerabilidade de um sistema que pode se tornar um laboratório natural para investigar as mudanças climáticas.
O conjunto é formado por mais de 100 lagos de água doce distribuídos por mais de 1.000 quilômetros entre o sul do Brasil e o Uruguai. A proposta apresentada em um estudo publicado na revista One Ecosystem é criar uma rede internacional de acompanhamento capaz de comparar água, sedimentos, microrganismos, poluentes e imagens de satélite em diferentes pontos dessa paisagem.
Um sistema costeiro que permaneceu doce
A origem dos lagos está ligada às oscilações do nível do mar ocorridas milhares de anos atrás. A formação de barreiras costeiras isolou áreas que, com o tempo, passaram a receber água da chuva, de rios e de fontes subterrâneas. O resultado foi uma configuração pouco comum: ambientes próximos do oceano, mas predominantemente de água doce.
Os lagos também são rasos. Essa característica permite que o vento misture a coluna d’água com frequência, movimentando nutrientes e oxigênio e dificultando a formação de camadas muito separadas. Como existem áreas mais preservadas e outras cercadas por cidades, lavouras e atividades industriais, o sistema oferece condições para comparar diferentes graus de impacto ambiental.
“Most of what we know about lakes comes from the Northern Hemisphere”, afirmou Mariana Kluge, autora principal do estudo e pesquisadora da Swedish University of Agricultural Sciences. A frase resume uma lacuna importante: grande parte do conhecimento usado para compreender lagos foi produzida em regiões temperadas da Europa e da América do Norte.
Quatro áreas ajudam a ler a paisagem
Os pesquisadores dividiram o sistema em quatro grandes conjuntos. O Sistema do Rio Tramandaí reúne cerca de 40 lagos conectados e sofre pressão do crescimento urbano. Em alguns trechos, o tratamento de esgoto continua limitado, embora os corpos d’água sejam usados no abastecimento de comunidades locais.
O Sistema da Lagoa dos Patos inclui uma das maiores lagunas do mundo e tem ligação com o oceano por um canal estreito. A área sustenta atividades pesqueiras, mas recebe impactos de cidades próximas. Já o sistema Mangueira-Mirim reúne lagos compartilhados por Brasil e Uruguai, com importância para a biodiversidade e a agricultura.
No Uruguai, uma cadeia de lagoas costeiras pode se conectar ao oceano em determinados períodos. Intervenções humanas que controlam essas ligações para reduzir riscos de inundação também modificam processos naturais. A divisão permite observar como urbanização, agricultura, circulação da água e gestão de cheias produzem efeitos diferentes em uma mesma faixa geográfica.
Poluição e clima agem ao mesmo tempo
O problema não se resume à elevação da temperatura. O escoamento de áreas agrícolas e o lançamento de esgoto aumentam a quantidade de nutrientes na água, processo conhecido como eutrofização. O excesso pode estimular a proliferação de algas e reduzir o oxigênio disponível para peixes e outros organismos.
Também foram identificados microplásticos, medicamentos e outros contaminantes emergentes. Em alguns lagos, as concentrações de microplásticos chegam a centenas de partículas por 100 metros cúbicos. Ao mesmo tempo, os efeitos do El Niño e da Oscilação Sul influenciam a distribuição de chuva e temperatura na região.
Segundo o estudo publicado na revista One Ecosystem em 2026, a cadeia de mais de 100 lagos costeiros se estende por mais de 1.000 quilômetros entre o sul do Brasil e o Uruguai e reúne ambientes submetidos a diferentes níveis de urbanização, agricultura e poluição.
A enchente de 2024 como teste em escala real
As inundações de maio de 2024 funcionaram como uma espécie de teste involuntário. A água permaneceu por mais de um mês em alguns locais, alcançando níveis muito acima do normal e se espalhando por lagos conectados. O evento afetou centenas de municípios e milhões de pessoas, além de modificar temporariamente as condições físicas e químicas dos ambientes aquáticos.
Para a ciência, episódios assim permitem acompanhar a reação de um ecossistema a uma mudança rápida. Eles também mostram o risco de combinar chuvas intensas com poluição acumulada. Em períodos secos, a redução do nível dos lagos pode concentrar substâncias e aumentar a pressão sobre espécies que dependem de condições mais estáveis.
DNA ambiental pode detectar sinais antes da crise
Uma das frentes previstas na rede de monitoramento é o uso do DNA ambiental. A técnica identifica vestígios genéticos deixados por organismos na água e pode indicar a presença de espécies sem a necessidade de capturá-las diretamente. Como microrganismos respondem rapidamente a alterações no ambiente, eles também podem servir como indicadores precoces de poluição e estresse ecológico.
Satélites complementam esse trabalho ao acompanhar mudanças de temperatura, extensão das áreas alagadas e possíveis florações de algas em grandes superfícies. A combinação de análises laboratoriais, coleta de campo e sensoriamento remoto pode revelar transformações que passariam despercebidas em visitas isoladas.
Christian Wurzbacher, da Technical University of Munich, descreveu os lagos como “sentinel ecosystems”, ou ecossistemas sentinela. A ideia é que eles funcionem como sinais de alerta sobre alterações que também podem atingir outras águas continentais.
O que essa pesquisa tem a ver com a Amazônia
O sistema estudado não fica na Amazônia, mas as ferramentas propostas têm aplicação direta em pesquisas sobre rios, lagos e áreas de várzea da região. No Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão, o DNA ambiental e as imagens de satélite podem ajudar a acompanhar biodiversidade, qualidade da água e efeitos de cheias e secas, desde que sejam adaptados às características de cada ambiente.
A comparação também ajuda a evitar uma leitura única sobre os ecossistemas de água doce. Um lago raso costeiro, um lago de várzea amazônico e um reservatório urbano respondem de maneira diferente ao calor, à chuva e à entrada de nutrientes. Ampliar a presença de dados de regiões tropicais e subtropicais torna os modelos climáticos e ecológicos mais representativos.
O plano de monitoramento foi discutido em um workshop internacional realizado em Porto Alegre, com participação de pesquisadores do Brasil, Uruguai, Alemanha e Suécia. Os próximos passos dependem da articulação entre instituições e da manutenção de séries históricas capazes de acompanhar os lagos por muitos anos.
O estudo completo sobre os lagos costeiros sul-americanos está disponível na publicação da revista One Ecosystem.
Com informações de One Ecosystem.
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