
Pesquisa conduzida com a Ufam combina arquitetura, planejamento urbano e conhecimento local para avaliar respostas ao calor na Amazônia.
Em uma cidade onde calor, umidade e chuvas intensas interferem diariamente no desempenho das construções, uma solução tradicional passou a ser examinada com ferramentas de pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). A doutoranda Sylvia Jimenez esteve em Manaus durante quase cinco semanas, em agosto de 2026, para investigar o telhado duplo como estratégia de adaptação ao calor urbano, em parceria com o Núcleo de Arquitetura Moderna na Amazônia (Nama), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
O estudo está em andamento há pouco mais de 14 meses e procura entender como essa configuração arquitetônica, comum em regiões tropicais, pode contribuir para melhorar o desempenho térmico dos edifícios. A proposta não é apenas observar a cobertura, mas relacioná-la ao planejamento da cidade, às condições ambientais e ao conhecimento construído localmente.
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O telhado duplo consiste, de forma geral, na utilização de duas camadas de cobertura separadas por um espaço intermediário. Esse intervalo pode favorecer a circulação do ar e reduzir a transferência direta de calor para os ambientes internos. A eficiência, no entanto, depende do desenho, dos materiais, da ventilação e da forma como o edifício está inserido no espaço urbano.
Em Manaus, a pesquisa pretende avaliar essa resposta combinando diferentes fontes e métodos. O trabalho inclui investigação qualitativa, consulta a arquivos, análise estatística e modelagem de cenários futuros a partir de um modelo calibrado de edifício. A combinação permite comparar o comportamento de construções existentes e simular possibilidades para períodos de maior pressão térmica.
Segundo a Ufam, Sylvia Jimenez pesquisa em Manaus, desde agosto de 2026, o uso do telhado duplo como estratégia arquitetônica de adaptação ao calor urbano, em colaboração com o Nama e o Ciel, do MIT.
O que a pesquisa observa na cidade
A escolha de Manaus está ligada à escala e à complexidade do município. A capital amazonense reúne um legado histórico de arquitetura, expansão urbana acelerada, desafios de mobilidade e áreas que precisam conciliar vegetação, solo permeável e ocupação. Esses fatores influenciam tanto o conforto térmico quanto a capacidade da cidade de responder a chuvas fortes e eventos extremos.
Para Jimenez, estudar a realidade local diretamente é diferente de analisá-la à distância. A pesquisadora avalia que a vivência em campo amplia a compreensão sobre os vínculos entre edifícios, infraestrutura, deslocamentos e formas de vida dependentes da navegação fluvial.
“Isso inclui investigação qualitativa, pesquisa de arquivos, análise estatística quantitativa e modelagem de cenários futuros com um modelo do edifício calibrado”, afirmou Sylvia Jimenez.
A investigação faz parte do doutorado da pesquisadora no Departamento de Estudos e Planejamento Urbano do MIT. O foco mais amplo é identificar maneiras de enfrentar o calor urbano por meio de planejamento, infraestrutura e edifícios, considerando os impactos dessas escolhas sobre a saúde e o bem-estar da população.
Arquitetura, planejamento e saúde pública
O calor urbano não é determinado apenas pela temperatura registrada no ambiente externo. A quantidade de vegetação, a presença de áreas impermeabilizadas, os materiais usados nas construções, a circulação de vento e o acesso a espaços confortáveis também interferem na experiência dos moradores.
Por isso, a pesquisa relaciona arquitetura e políticas públicas. A avaliação de um telhado pode produzir informações úteis para projetos de edifícios, mas também pode ajudar a discutir regras de ocupação, reflorestamento, infraestrutura verde e estratégias integradas entre diferentes órgãos públicos.
Sylvia afirma que Brasil, Amazônia e Manaus já possuem instrumentos de planejamento que tratam de ação climática e calor urbano. Na avaliação dela, o avanço depende de planos de reflorestamento e de uma atuação transversal entre ministérios, órgãos municipais, universidades e população.
“As respostas estão no planejamento da cidade; considero-as melhores a partir dos cidadãos e para os cidadãos, de acordo com os atores locais, a academia e a população em geral”, disse a pesquisadora.
O campus da Ufam como parte do campo de observação
Durante a permanência em Manaus, o campus da Ufam também foi observado como referência arquitetônica e ambiental. Sylvia destacou a dimensão do espaço universitário, a variedade de edifícios e o funcionamento das construções diante da alta umidade e das dificuldades de manutenção características da região.
A experiência levou a pesquisadora a aprofundar o interesse pela obra do arquiteto brasileiro Severiano Porto, conhecido por desenvolver projetos relacionados às condições climáticas e culturais da Amazônia. A observação de edifícios concebidos para o contexto regional ajuda a deslocar o debate de modelos importados para soluções associadas ao território.
Esse aspecto é relevante para outras cidades amazônicas. Embora o estudo esteja concentrado em Manaus, a discussão sobre sombra, ventilação, cobertura, vegetação e materiais pode interessar a municípios que enfrentam calor intenso e infraestrutura urbana desigual em diferentes áreas da Amazônia brasileira e do continente.
Uma parceria construída ao longo de cinco anos
A cooperação entre o Nama, da Ufam, e o City Infrastructure EquityLab (Ciel), do MIT, é anterior ao projeto atual e já se estende por cinco anos. Sylvia também havia visitado Manaus em uma etapa anterior de um projeto do MIT dedicado às cidades amazônicas.
A fase atual, contudo, é a primeira em que ela se dedica exclusivamente à pesquisa aplicada em Manaus durante 14 meses. O trabalho recebeu apoio de duas bolsas de financiamento do MIT, o Lloyd and Nadine Rodwin Travel Grant e o CIS PhD Student Grant, além do Jeanne Guillemin 2026 Prize, destinado a pesquisadoras em temas internacionais.
Formada em Arquitetura pela Pontifícia Universidade Católica do Equador, Sylvia Jimenez também tem pós-graduação em Desenvolvimento e Planejamento pela University College London. Sua trajetória inclui estudos sobre arquitetura passiva, análise climática, iluminação natural e conforto térmico, além de atuação em pesquisa, ensino e projetos ligados à saúde nas habitações.
Próxima etapa será compartilhar resultados
A pesquisadora pretende retornar à cidade no inverno de 2027 para apresentar resultados parciais à comunidade acadêmica e ao departamento de planejamento do Instituto Municipal de Planejamento Urbano de Manaus (Implurb). A futura etapa deverá aproximar os dados produzidos no estudo das discussões sobre políticas públicas e planejamento urbano.
Até lá, a análise do telhado duplo permanece como uma das frentes para compreender como escolhas arquitetônicas, conhecimento local e planejamento podem reduzir a exposição ao calor em Manaus e oferecer referências para outras cidades tropicais.
Com informações da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
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