×
Próxima ▸
Plano da ONU contra poluição e clima pode elevar PIB…

Ação climática pode render US$ 15 por dólar e reduzir o aquecimento na nova era do overshooting

Ação climática pode render US$ 15 por dólar e reduzir o aquecimento na nova era do overshooting
Ilustração: Revista Amazônia

Relatório do PNUMA mostra que acelerar medidas já disponíveis pode proteger a economia, o clima e a saúde.

O atraso na ação climática deixou de ser apenas uma escolha política de longo prazo. Ele já representa perdas econômicas, mortes prematuras e mais tempo de exposição a temperaturas perigosas. Um relatório divulgado em setembro de 2026 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, PNUMA, em parceria com a Coalizão Clima e Ar Limpo, mostra que cada dólar investido em 25 medidas conhecidas pode gerar até US$ 15 em benefícios globais.

A conta aparece em um momento de mudança na forma como o mundo encara o limite de 1,5°C do Acordo de Paris. A ultrapassagem desse patamar passou a ser considerada inevitável pelo próprio PNUMA. Mesmo no cenário mais favorável, a temperatura média do planeta pode atingir um pico próximo de 1,8°C antes de começar a cair.

O custo passou a ser o da espera

O estudo “Ativos Ocultos: os argumentos econômicos e de saúde a favor de ações climáticas e de ar limpo” desloca o centro do debate. A pergunta já não é apenas quanto custa reduzir emissões, mas quanto custa manter políticas que prolongam a dependência de atividades poluentes.

As 25 medidas analisadas abrangem energia, indústria, agricultura, transportes e gestão de resíduos. Em conjunto, elas exigiriam cerca de 0,7% do Produto Interno Bruto mundial por ano. O valor é inferior a um terço dos subsídios explícitos concedidos aos combustíveis fósseis, segundo os dados apresentados no relatório.

Os retornos estimados correspondem a 2,8% do PIB mundial em 2035, 4,5% em 2050 e 11,4% em 2100. Uma implementação mais rápida poderia evitar perdas equivalentes a US$ 10 trilhões até 2040. Em menos de uma década, os ganhos econômicos já superariam os custos de adoção.

O que muda quando o limite é ultrapassado

Overshooting é o período em que a temperatura global permanece acima de 1,5°C antes de uma eventual redução. O problema não está apenas no pico, mas também na duração dessa permanência. Quanto mais alto e prolongado for o aquecimento, maior tende a ser a pressão sobre ecossistemas, economias, sistemas de saúde e populações vulneráveis.

Segundo o PNUMA, o relatório divulgado em setembro de 2026 reúne 25 medidas capazes de evitar cerca de 0,34°C de aquecimento até 2050, além de reduzir aproximadamente 50% das emissões globais de dióxido de carbono, 60% das emissões de metano e quase 70% dos principais poluentes atmosféricos.

O metano ocupa um lugar estratégico nessa transição. O gás responde por cerca de um terço do aquecimento observado, tem poder de aquecimento superior a 80 vezes o do dióxido de carbono em um período de 20 anos e permanece aproximadamente 12 anos na atmosfera. Isso significa que cortes nas emissões de metano podem produzir efeitos climáticos mais rápidos do que ações voltadas apenas ao carbono de longa permanência.

Saúde entra no centro da equação

A vantagem das medidas avaliadas não aparece somente nos gráficos de temperatura ou nas projeções econômicas. A poluição do ar externo esteve associada a 6,4 milhões de mortes prematuras em 2025. A poluição dentro das residências contribuiu para outras 2 milhões de mortes, incluindo aproximadamente 300 mil crianças.

Até 2050, a adoção das ações estudadas poderia evitar 144 milhões de mortes prematuras. Também seriam prevenidos 62 milhões de casos de asma infantil, 87 milhões de infartos, 56 milhões de casos de diabetes, 45 milhões de acidentes vasculares cerebrais e 36 milhões de casos de demência.

Essa conexão ajuda a explicar por que a política climática deixou de ser uma agenda restrita à proteção ambiental. Reduzir queimadas, emissões industriais, poluentes dos transportes e gases liberados por resíduos pode significar menos doenças e menor pressão sobre os serviços públicos de saúde.

O retrato brasileiro e a conexão com a Amazônia

Para o Brasil, a discussão envolve decisões sobre agropecuária, energia, combustíveis, transporte, resíduos e uso do solo. O país reúne uma matriz energética relevante, uma produção agrícola de grande escala e diferentes realidades regionais. Cada setor exige soluções próprias, mas todos participam da mesma equação de emissões e qualidade do ar.

Na Amazônia, essa agenda alcança os nove estados da região, do Acre ao Tocantins. A transição pode envolver a redução de emissões associadas ao uso do solo, o aproveitamento mais eficiente de resíduos agropecuários e urbanos, a melhoria do transporte e o acesso a energia com menor impacto. O relatório não apresenta uma política específica para cada estado amazônico, mas seus setores de análise ajudam a organizar decisões que precisam considerar as condições locais.

A dimensão regional também aparece na estimativa para a América Latina e o Caribe. Para cada dólar investido em ações integradas de clima e ar limpo, o retorno econômico pode chegar a aproximadamente US$ 9. O dado reforça que a adaptação e a redução de emissões não precisam ser tratadas como despesas isoladas, mas como investimento em saúde, produtividade e segurança econômica.

O gargalo está na execução

O relatório aponta que as principais barreiras não são a ausência de tecnologias ou a falta de alternativas econômicas. Problemas de coordenação entre instituições, limitações de governança, dificuldades de financiamento e baixa capacidade de implementação atrasam em cerca de oito anos a adoção das medidas disponíveis.

Esse intervalo tem preço. Cada ano perdido representa mais de US$ 1,5 trilhão em benefícios que deixam de ser obtidos. O número traduz o que o conceito de overshooting significa na prática: não se trata de esperar por uma solução inédita, mas de perder tempo enquanto soluções já conhecidas permanecem em escala insuficiente.

O estudo também muda a maneira de avaliar políticas públicas. Uma ação para reduzir metano pode ser climática, sanitária e econômica ao mesmo tempo. Uma melhoria no transporte pode reduzir emissões e poluentes. A modernização da gestão de resíduos pode diminuir gases de efeito estufa e riscos à saúde. Separar essas agendas pode esconder parte importante do benefício real.

O próximo passo é transformar os resultados em orçamento, metas verificáveis e capacidade de execução nos governos e setores produtivos, com decisões mais rápidas nos próximos ciclos de planejamento climático.

Com informações do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA