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Superpoluentes podem cortar pela metade o ritmo do aquecimento global…

Oceano passa 100 dias em recorde de calor, enquanto El Niño amplia riscos para clima, pesca e saúde

Oceano passa 100 dias em recorde de calor, enquanto El Niño amplia riscos para clima, pesca e saúde
Foto: Grigory Heaton via iNaturalist (CC BY-NC 4.0)."},{

Temperaturas marítimas excepcionais devem continuar elevadas e pressionam ecossistemas, economias costeiras e populações.

O calor acumulado no oceano já atravessou a marca de três meses consecutivos em níveis recordes, alterando as condições que influenciam o clima, a vida marinha e atividades econômicas em várias partes do planeta. Entre 2 de junho e 10 de setembro de 2026, a temperatura média da superfície do oceano global, fora das regiões polares, ficou acima do registrado para o mesmo dia em qualquer outro ano desde 1982.

O episódio foi identificado por dados do Climate Reanalyzer, plataforma supervisionada pelo Climate Change Institute da Universidade do Maine, nos Estados Unidos. A persistência do calor ocorre enquanto um El Niño se intensifica no Pacífico, fenômeno natural que pode elevar ainda mais as temperaturas globais, embora os cientistas apontem a mudança climática provocada por atividades humanas como a causa principal da tendência.

Por que 100 dias de calor no oceano chamam atenção?

A duração é importante porque não se trata de um pico isolado, mas de uma sequência prolongada de recordes diários. Em cada um dos 100 dias analisados, a média da superfície marítima superou a temperatura observada na mesma data de todos os anos anteriores da série histórica, iniciada em 1982.

Um dos maiores registros ocorreu em 22 de agosto, quando o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, calculou uma média global de 21,10 graus Celsius. O Climate Reanalyzer apontou valores ainda mais altos entre 22 e 27 de agosto, com a média chegando a 21,18 graus Celsius.

Segundo o Climate Reanalyzer, o oceano global registrou temperaturas superficiais recordes durante 100 dias consecutivos, entre 2 de junho e 10 de setembro de 2026. A base utiliza dados de temperatura da superfície do mar reunidos pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA.

O calor está apenas na superfície do mar?

Não. O aquecimento alcança camadas mais profundas, além da faixa superficial de aproximadamente 200 metros. Essa penetração torna o problema mais persistente, porque uma quantidade maior de energia fica armazenada no oceano e pode continuar influenciando o sistema climático mesmo quando as condições atmosféricas mudam.

Em 2025, o oceano absorveu 23 zettajoules de energia, segundo uma análise publicada na revista Advances in Atmospheric Science. A quantidade equivale à energia liberada por cerca de 12 bombas atômicas explodindo no oceano a cada segundo, durante todos os dias do ano.

O valor representou aumento de mais de 43% em relação aos 16 zettajoules absorvidos em 2024. A comparação mostra que o oceano funciona como o principal reservatório do excesso de calor associado às emissões de gases de efeito estufa.

Como o recorde afeta peixes, corais e cadeias alimentares?

A elevação da temperatura desloca as áreas adequadas para diferentes espécies e pode reorganizar toda a cadeia alimentar marinha. Animais que dependem de determinada faixa térmica podem migrar, reduzir a reprodução ou enfrentar escassez de alimento quando suas presas se movimentam para outras regiões.

O calor também aumenta o risco de branqueamento e mortalidade de corais. Esses organismos abrigam comunidades inteiras de espécies e ajudam a proteger áreas costeiras. Quando perdem as algas que vivem em seus tecidos, devido ao estresse térmico, tornam-se mais vulneráveis a doenças e à morte.

As consequências chegam à pesca, ao turismo e à segurança alimentar. Mudanças na distribuição dos peixes podem reduzir capturas em algumas áreas, criar oportunidades temporárias em outras e aumentar a instabilidade para comunidades que dependem do mar como fonte de renda e alimento.

O que o oceano quente muda no clima das cidades?

O calor do mar não fica restrito ao ambiente marinho. Oceanos mais quentes fornecem mais energia e umidade para a atmosfera, condições que podem intensificar ondas de calor em áreas costeiras e alterar a formação de chuvas e tempestades.

Claire Bergin, pesquisadora do ICARUS Climate Research Centre, da Universidade de Maynooth, na Irlanda, afirmou que existe uma ligação direta entre o aumento da temperatura do mar e a intensidade das ondas de calor em terra. Segundo ela, temperaturas marítimas elevadas também contribuem para aumentar a temperatura de bulbo úmido, indicador que considera calor e umidade.

Quando a umidade do ar é alta, o suor evapora mais lentamente. Isso reduz a capacidade do corpo de liberar calor e eleva os riscos à saúde, especialmente para idosos, trabalhadores expostos ao sol e pessoas com doenças cardiovasculares ou respiratórias.

Qual é o papel do El Niño neste episódio?

O El Niño começou em junho de 2026 e integra o ciclo conhecido como El Niño-Oscilação Sul, ou ENSO. Durante sua fase quente, os ventos alísios enfraquecem e águas mais quentes se acumulam no Pacífico, junto à costa oeste da América do Sul. Esse rearranjo ajuda a elevar a temperatura média do planeta.

O fenômeno natural pode amplificar o calor já produzido pelo aquecimento global. Especialistas esperam que o El Niño atinja o pico perto do fim de 2026 e continue influenciando o clima em 2027. A NOAA classifica o evento previsto como muito forte. A atualização oficial de previsões pode ser consultada no documento de acompanhamento do El Niño da NOAA.

O que isso representa para a Amazônia?

A relação com a Amazônia aparece principalmente na faixa costeira e nas atividades que dependem do oceano. Pará e Amapá têm comunidades, cadeias de pesca e cidades sujeitas à influência das condições marítimas. Alterações na temperatura da água podem mudar a distribuição de espécies, pressionar a renda de pescadores e afetar a disponibilidade de alimentos.

O oceano também participa da circulação de umidade que influencia o clima da América do Sul. Por isso, mudanças persistentes no Pacífico e no Atlântico podem repercutir sobre chuvas, períodos de estiagem e calor em áreas amazônicas, embora os efeitos variem conforme a região e a combinação de outros fatores atmosféricos.

O recorde deve terminar com a mudança do El Niño?

Os especialistas avaliam que não. O El Niño pode reforçar o aquecimento no curto prazo, mas a tendência de fundo é determinada pelo aumento contínuo das concentrações de gases de efeito estufa. Mais de 90% do excesso de calor decorrente da queima de combustíveis fósseis e dessas emissões é absorvido pelo oceano, segundo Zachary Labe, cientista climático da organização Climate Central.

Para Labe, a redução das emissões é necessária para interromper a trajetória de aquecimento. Peter Thomson Pickerell, diretor global do programa de oceanos do World Resources Institute, também defendeu que grandes emissores abandonem petróleo e gás, destacando que a resposta depende sobretudo de decisões industriais e políticas.

O El Niño deve continuar em monitoramento até 2027, enquanto novas medições indicarão se o calor oceânico permanece em níveis recordes e como os impactos se distribuem entre ecossistemas, cidades e economias costeiras.

Com informações de Mongabay.

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