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Nova espécie de gato-tigre é identificada na Bolívia após 1,4 milhão de anos de separação

Nova espécie de gato-tigre é identificada na Bolívia após 1,4 milhão de anos de separação
Foto: Chris Simms

Genoma de 38 felinos revelou o tilcayo nas florestas de Yungas e elevou para cinco as espécies conhecidas do grupo.

Um pequeno felino manchado das florestas de Yungas, na Bolívia, acaba de ganhar um nome científico próprio depois de permanecer misturado a outras populações de gatos-tigres sul-americanos. Segundo estudo publicado na revista Current Biology em 17 de setembro de 2026, o animal foi reconhecido como Leopardus tilcayo após a comparação dos genomas completos de 38 indivíduos do gênero, incluindo 26 gatos-tigres.

A descoberta não ocorreu por uma diferença evidente na pelagem ou no tamanho. O tilcayo tem aparência muito parecida com os demais felinos do grupo, é noturno, difícil de observar e mede aproximadamente o mesmo que um gato doméstico. A separação veio do DNA, que indicou uma linhagem própria nas florestas bolivianas localizadas na encosta leste dos Andes.

Um nome para o felino escondido nas Yungas

O novo nome, Leopardus tilcayo, foi escolhido a partir do termo local usado para designar esse gato. O animal tem entre 42 e 50 centímetros de comprimento da cabeça ao corpo e pesa de 1,5 a 2 quilos.

Essas medidas ajudam a entender por que o reconhecimento demorou. Os cinco gatos-tigres conhecidos são espécies crípticas, expressão usada pelos pesquisadores para animais visualmente muito semelhantes, mas geneticamente distintos. Nesse caso, observar o felino na mata não basta para determinar a qual espécie ele pertence.

A análise indicou que a linhagem do tilcayo se separou daquela que reúne Leopardus tigrinus e Leopardus pardinoides há quase 1,4 milhão de anos. O intervalo mostra que não se trata apenas de uma variação recente dentro de uma mesma população, mas de uma história evolutiva independente.

Por que o grupo foi reorganizado

Durante décadas, vários gatos-tigres foram reunidos sob o nome Leopardus tigrinus. A semelhança física, a distribuição ampla e a dificuldade de capturar ou observar esses animais contribuíram para a classificação única.

Os estudos genéticos começaram a alterar esse quadro. Em 2013, a ciência reconheceu oficialmente o gato-tigre-do-sul, Leopardus guttulus. Em 2017, foi retomado o nome Leopardus emiliae para outra linhagem. Já em 2024, o gato-tigre-das-nuvens, Leopardus pardinoides, passou a ser tratado como espécie distinta.

O tilcayo é a quinta espécie identificada nesse conjunto e a primeira espécie de gato a ser descrita cientificamente em cerca de um século, segundo Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, que participou do trabalho.

Montanhas e rios criaram populações isoladas

A geografia sul-americana ajuda a explicar a diversidade escondida entre felinos tão parecidos. Andes, rios e outros obstáculos naturais podem interromper o contato entre populações, reduzindo o cruzamento ao longo de muitas gerações.

Quando grupos isolados acumulam diferenças genéticas durante períodos extensos, podem formar novas linhagens. Foi esse tipo de separação que a equipe identificou nas Yungas bolivianas. A região combina encostas andinas e florestas úmidas, ambientes que funcionam como mosaicos de habitat para espécies de pequeno porte.

O mesmo levantamento encontrou, nas Yungas peruanas, no lado oeste dos Andes, um grupo distinto dentro da linhagem de Leopardus tigrinus. Os pesquisadores o descreveram como uma nova subespécie, L. tigrinus antisuyo. A descoberta indica que a classificação dos gatos-tigres ainda pode passar por novas mudanças.

O que a descoberta muda para a conservação

Reconhecer uma espécie separada altera a forma como sua população deve ser monitorada. Antes, indivíduos do tilcayo poderiam ser contabilizados junto com outros gatos-tigres, mascarando o tamanho real e a distribuição de cada linhagem.

Leopardus tigrinus aparece como espécie vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. O novo tilcayo e a subespécie peruana ainda precisam ser avaliados como unidades próprias de conservação, de acordo com os pesquisadores.

A urgência está ligada à perda de floresta causada pela expansão agrícola. Uma espécie com distribuição restrita pode enfrentar riscos maiores do que os sugeridos pelos números de um grupo mais amplo. Sem separar corretamente os animais, áreas importantes para uma linhagem podem deixar de ser prioridade.

O vínculo com a biodiversidade amazônica

Embora o tilcayo tenha sido identificado na Bolívia, a descoberta interessa diretamente à conservação no Brasil e nos demais países amazônicos. Gatos-tigres do gênero Leopardus ocorrem em uma ampla faixa da América do Sul, incluindo Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador e Peru, além da Bolívia.

Para os estados brasileiros da Amazônia, o caso reforça uma dificuldade prática: espécies de pequeno porte, noturnas e parecidas podem estar subestimadas em inventários de fauna. A presença registrada de um felino não informa necessariamente qual linhagem vive em determinada área. Amostras genéticas, fotografias de armadilhas e dados de habitat precisam ser combinados.

Esse cuidado é relevante em unidades de conservação, licenciamentos ambientais e estudos sobre fragmentação florestal. Rios e áreas abertas podem separar populações, enquanto estradas, queimadas e avanço agropecuário criam barreiras recentes em paisagens antes contínuas.

Mais espécies podem estar escondidas

Os pesquisadores consideram possível que existam outros gatos-tigres ainda não reconhecidos. A América do Sul reúne barreiras geográficas suficientes para manter populações isoladas por longos períodos, mas muitas áreas continuam com pouca amostragem científica.

A descoberta também mostra o limite de uma identificação baseada apenas na aparência. Os cinco gatos-tigres são visualmente próximos, e diferenças discretas na pelagem podem não acompanhar a separação evolutiva revelada pelo genoma.

Os próximos passos são avaliar o estado de conservação do Leopardus tilcayo e do Leopardus tigrinus antisuyo, além de definir medidas de proteção compatíveis com a distribuição de cada unidade. O trabalho que descreveu os animais foi publicado em 17 de setembro de 2026 na Current Biology.

Com informações de Current Biology.

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