×
Próxima ▸
El Niño ameaça a próxima safra enquanto ONU projeta queda…

Seca eleva extremos de calor em 3,2 °C na Amazônia preservada e amplia risco para rios e florestas

Seca eleva extremos de calor em 3,2 °C na Amazônia preservada e amplia risco para rios e florestas
Foto: Liana Anderson/Inpe

Pesquisa com 53 cientistas mostra que o centro-norte do bioma aquece mais nos períodos extremos, mesmo longe do desmatamento.

Rios mais baixos, florestas submetidas a maior perda de água e períodos de calor intenso já fazem parte do novo retrato climático de uma das áreas mais preservadas da Amazônia. No centro-norte do bioma, uma extensão superior a 700 mil quilômetros quadrados registrou aumento de pelo menos 3,2 °C nas temperaturas extremas da estação seca entre 1981 e 2023. O resultado foi publicado em 10 de setembro de 2026 na revista Communications Earth & Environment, a partir de uma pesquisa que reuniu 53 cientistas, incluindo pesquisadores brasileiros.

A área analisada equivale quase ao território do Chile e está distante das regiões mais pressionadas pelo desmatamento. Mesmo assim, os episódios de calor e déficit hídrico avançaram em ritmo mais acelerado que a temperatura média anual da floresta tropical. A elevação mínima observada foi de 0,75 °C por década, contra 0,2 °C por década no aquecimento médio anual da Amazônia.

O calor mais intenso aparece longe do arco do desmatamento

O estudo não encontrou uma mudança uniforme em todo o bioma. No sul da Amazônia, o aquecimento médio ganhou velocidade. Já no centro-norte, os pesquisadores identificaram a progressão mais rápida das condições extremas, justamente em uma área com grandes blocos de floresta, savanas naturais, unidades de conservação e territórios indígenas.

Segundo o estudo publicado em 10 de setembro de 2026, a temperatura máxima da estação seca aumentou pelo menos 3,2 °C desde 1981 em mais de 700 mil quilômetros quadrados do centro-norte da Amazônia. A conclusão amplia a explicação sobre a origem do problema: a perda florestal continua sendo um fator decisivo para as emissões brasileiras, mas não explica sozinha o avanço observado nessa parte mais preservada do bioma.

“As taxas de mudança dos extremos climáticos são muito superiores às alterações do clima médio na Amazônia. As regiões mais afetadas também diferem quando comparamos os extremos com as condições médias. Isso é importante porque mostramos que o clima da floresta não está mudando de maneira uniforme”, afirmou Nathália Carvalho, pesquisadora do Centro Ambiental da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e uma das autoras correspondentes do artigo.

Como os cientistas separaram a média dos anos críticos

Para identificar as áreas mais vulneráveis, a equipe dividiu a Amazônia em células de 11 quilômetros. Em cada uma, combinou dados de satélites e estações meteorológicas para definir quando ocorria a estação seca. Esse procedimento evitou tratar o bioma como se tivesse o mesmo calendário climático em todos os lugares.

Outra diferença foi a forma de medir a falta de água. Em vez de considerar apenas a chuva acumulada, os cientistas incluíram o efeito do calor sobre a evaporação e a perda de água. Assim, o déficit hídrico passou a refletir não somente quanto choveu, mas também quanto a vegetação e o solo perderam em condições de temperatura elevada.

A velocidade das mudanças foi calculada em duas frentes. A primeira acompanhou a tendência central, ligada ao comportamento médio ao longo dos anos. A segunda deu maior peso aos extremos, como os períodos excepcionalmente quentes ou secos. Para Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster e principal autor do estudo, essa segunda medida é essencial porque os danos mais graves tendem a ocorrer quando as condições atingem os maiores níveis de calor e aridez.

Seca eleva extremos de calor em 3,2 °C na Amazônia preservada e amplia risco para rios e florestas
Foto: Liana Anderson/Inpe

O impacto começa na água e chega à vida cotidiana

As consequências não ficam restritas aos termômetros. Secas recentes reduziram o nível dos rios amazônicos, dificultando deslocamentos, pesca, abastecimento e circulação de mercadorias em comunidades dependentes das vias fluviais. O calor e a falta de água também tornam a floresta mais suscetível ao fogo, especialmente quando áreas degradadas ou próximas a focos de incêndio entram em períodos prolongados de estiagem.

Liana Anderson, pesquisadora da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, alertou que os extremos climáticos atingem sistemas conectados. “Os dados apontam para extremos cada vez mais críticos e acelerados. E, quando se manifestam, há uma deterioração com impactos sociais, ambientais e econômicos profundos”, disse à Agência FAPESP.

Na seca entre 2023 e 2024, ainda sob influência do El Niño, a área queimada cresceu em média 9%, enquanto os alertas de degradação florestal aumentaram 19%. Até 4,2 milhões de hectares foram impactados pelo fogo. O período também foi associado a fumaça intensa, piora da qualidade do ar e mortes de mamíferos registradas em pesquisas sobre a estiagem de 2023 no Amazonas.

Por que a preservação não elimina o risco

O centro-norte estudado inclui territórios como Coatá-Laranjal, Waimiri-Atroari, Yanomami e Trombetas-Mapuera, localizados no Amazonas e em Roraima. São áreas fundamentais para a conservação da biodiversidade e para a proteção de modos de vida indígenas, mas a cobertura florestal, sozinha, não impede a influência do aquecimento global sobre a temperatura e a disponibilidade de água.

Essa conclusão é relevante para toda a Amazônia Legal, que também envolve Acre, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Embora os números mais intensos do estudo estejam concentrados no centro-norte, os efeitos de secas prolongadas podem repercutir sobre agricultura, geração de energia, transporte, saúde e abastecimento em diferentes estados da região. O prolongamento da estação seca, que pesquisas recentes estimam ter passado de quatro para até seis meses em algumas áreas, aumenta essa pressão.

Luiz Aragão, também do Inpe e líder do laboratório TREES ao lado de Anderson, observa que a velocidade dos extremos preocupa porque ocorre em uma região considerada mais resistente aos distúrbios causados diretamente pela ação humana. Para ele, a resposta precisa combinar redução de emissões, combate ao desmatamento, conservação de florestas nativas e restauração de áreas degradadas.

O que ainda precisa ser acompanhado

O estudo não prevê sozinho como cada comunidade, rio ou unidade de conservação responderá aos próximos períodos de seca. A intensidade dos impactos dependerá da combinação entre aquecimento global, ocorrência do El Niño, condição da floresta, presença de áreas degradadas e capacidade local de adaptação.

Os pesquisadores também alertam para a possibilidade de novos episódios de calor e estiagem severos, diante da expectativa de um El Niño muito intenso. O cenário reforça a necessidade de sistemas de alerta, planejamento para o transporte fluvial, proteção contra incêndios e políticas públicas que considerem os extremos climáticos, e não apenas as médias históricas.

O trabalho foi financiado pela FAPESP por meio dos projetos AmazonFACE e Vozes da Recuperação. Novas pesquisas da rede devem avaliar como florestas modificadas respondem ao clima, como a Amazônia influencia as chuvas em áreas agrícolas brasileiras e quais são os efeitos de diferentes formas de manejo do fogo. O artigo completo está disponível na revista Communications Earth & Environment.

Com informações de FAPESP.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA