
Relatório internacional dedica pela primeira vez um capítulo ao leito oceânico e mostra como pesca de arrasto, mineração e navegação ameaçam um dos maiores estoques de carbono da Terra.
A pesca de arrasto de fundo já alcança cerca de 4 mil metros de profundidade e revolve, a cada ano, até 2% de todo o leito oceânico do planeta. O dado está no Planetary Health Check 2026, relatório anual sobre o estado do sistema terrestre publicado em 21 de setembro, que pela primeira vez dedica um capítulo inteiro à integridade do fundo do mar.
O capítulo foi elaborado por pesquisadores do Instituto Leibniz de Pesquisa do Mar Báltico de Warnemünde (IOW), da Universidade de Kiel (CAU) e do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK), todos na Alemanha. O relatório é produzido desde 2024 pelo Planetary Boundaries Science Lab, do PIK, com base no conceito de limites planetários. A edição deste ano conclui que sete dos nove limites já foram ultrapassados e seguem piorando.
Os oceanos cobrem dois terços da superfície da Terra e têm profundidade média de quase quatro quilômetros. Por muito tempo, essa distância protegeu o fundo do mar da ação humana em larga escala. Isso mudou. Além do arrasto, uma única operação de mineração de nódulos de manganês pode afetar diretamente mais de 200 km² de leito marinho. Áreas de fundeio, rotas de navegação, cabos, dutos e outras estruturas deixam marcas da costa até mais de 6 mil metros de profundidade.
Os autores insistem que o fundo do mar não é um simples chão debaixo d’água. Recifes, bancos de esponjas e de mexilhões, animais que escavam o sedimento e comunidades de micróbios formam habitats e regulam a troca de carbono e nutrientes entre o sedimento e a coluna d’água.
“Precisamos entender o fundo do mar como parte integrante do sistema terrestre”, afirmou o geocientista marinho Jacob Geersen, do IOW, autor principal do capítulo. “Quando revolvemos sedimentos ou alteramos profundamente os ecossistemas marinhos, não se trata apenas de uma perturbação local. Podemos estar interferindo em processos que armazenam carbono, reciclam nutrientes e estabilizam cadeias alimentares marinhas inteiras”, explicou.


O carbono é o exemplo mais claro. Centenas de bilhões de toneladas de carbono orgânico estão guardadas nas camadas de sedimento das plataformas continentais, que respondem pela maior parte do sequestro de longo prazo no fundo oceânico. Quando esse material é revolvido repetidas vezes, o carbono pode voltar ao ambiente na forma de dióxido de carbono (CO2). Modelos globais indicam que só a pesca de arrasto pode liberar mais de 100 milhões de toneladas de carbono dos sedimentos por ano. Ainda há grande incerteza, porém, sobre quanto disso chega de fato à atmosfera como CO2 adicional.
“O relatório de 2026 destaca, entre outras coisas, que os sumidouros naturais de carbono estão sob pressão crescente. Não podemos limitar nossa atenção às florestas e aos solos em terra firme”, afirmou a climatologista Levke Caesar, do PIK, codiretora do Planetary Boundaries Science Lab. “O capítulo mostra que o fundo do mar também faz parte desse sistema, e estamos apenas começando a entender as consequências de comprometer sua função de armazenamento de longo prazo.”
O papel do leito oceânico vai além do carbono. Os organismos que vivem sobre ele e dentro dele influenciam as cadeias alimentares e, com os micro-organismos e a química dos sedimentos, regulam a circulação de nitrogênio, fósforo e carbono entre o fundo e a água. No mar profundo, as consequências da destruição desses sistemas ainda são pouco conhecidas, mas experimentos de mineração mostraram que elas podem durar décadas.

Para ilustrar até onde a degradação pode chegar, o capítulo usa o mar Báltico, onde décadas e até séculos de interferência humana se somam ao aquecimento global, à acidificação, ao excesso de nutrientes e à falta de oxigênio. Considerando a estrutura do leito, a biogeoquímica e os ecossistemas de fundo, os autores concluem que nenhum metro quadrado do fundo do Báltico está em estado original, livre de alteração humana. Muitas mudanças são de longo prazo e algumas, irreversíveis. “O mar Báltico pode, portanto, oferecer uma janela para o futuro de outras regiões marinhas se a pressão humana sobre o fundo do mar continuar a crescer”, disse Geersen.
Os pesquisadores recomendam que o planejamento espacial marinho e os estudos de impacto ambiental passem a considerar não só espécies e habitats, mas também funções como o sequestro de carbono e a ciclagem de nutrientes. Ecossistemas de mar profundo, que se recuperam muito devagar, e sedimentos ricos em carbono deveriam ser protegidos de intervenções intensivas.
Há também um nó jurídico. Pesca, navegação, mineração e biodiversidade costumam ser regidas por normas separadas, embora seus impactos sobre o leito se sobreponham. O Acordo da ONU sobre a Conservação da Biodiversidade Marinha além das Jurisdições Nacionais (BBNJ, na sigla em inglês), em vigor desde janeiro de 2026, prevê a criação de áreas marinhas protegidas e endurece as exigências de avaliação de impacto ambiental. A regulação da extração de minérios em águas internacionais, porém, continua nas mãos da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos.

“O passo decisivo seria deixar de tratar os diferentes usos e seus impactos cumulativos como questões isoladas, sobretudo diante da falta de pesquisa suficiente sobre as atividades humanas no mar profundo”, afirmou Nele Matz-Lück, codiretora do Instituto Walther Schücking de Direito Internacional, da Universidade de Kiel.
A integridade do fundo do mar, que mede o quanto a estrutura física, as comunidades biológicas e as funções químicas do leito estão preservadas, ainda não é reconhecida como um limite planetário. Diferentemente dos nove já definidos, não há para ela um indicador global de monitoramento nem um valor-limite com base científica sólida. Construir essas medidas, com dados melhores sobre pressão, sensibilidade e recuperação dos ambientes, é agora a principal tarefa da pesquisa, segundo os autores.
Fotos: Open Planet Studios/Silverback Films, CSIRO Marine Research e ROV KIEL 6000/Geomar
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