
Boletim do Inmet aponta aquecimento acima do normal e efeitos opostos sobre rios, lavouras e incêndios.
Rios mais baixos, captação de água comprometida e maior risco de incêndios devem marcar o Norte do Brasil entre outubro e novembro, enquanto o Sul continua sob ameaça de cheias. O alerta aparece em um novo boletim do Instituto Nacional de Meteorologia, o Inmet, que estima em 95% a chance de o El Niño alcançar intensidade muito forte no próximo trimestre.
O fenômeno também deve manter as temperaturas acima da faixa normal em quase todo o país. A previsão indica chuva acima da média em áreas do Sudeste e no leste do Nordeste, mas o padrão dominante será de contrastes regionais, com estiagem e calor no Centro-Norte e excesso de água no extremo Sul.
Na Amazônia, o impacto já aparece nos rios
Os efeitos mais urgentes para a região amazônica estão concentrados nos níveis dos rios e na disponibilidade de água. Segundo o boletim, a persistência de condições quentes e secas deve manter elevado o risco de incêndios em áreas agrícolas e pastagens da Região Norte.
Roraima, Acre e Amazonas registraram piora rápida no quadro de seca. Em alguns municípios, a população já enfrenta dificuldade para captar água, e a navegação foi comprometida pela redução dos níveis dos rios.
Em Roraima, os rios Branco e Negro estão com níveis baixos, e a previsão aponta chuva abaixo da média. A combinação afeta o deslocamento de pessoas, o transporte de mercadorias e o abastecimento de comunidades que dependem diretamente dos cursos d’água.
O alerta interessa também aos demais estados da Amazônia Legal. A persistência de calor e baixa umidade aumenta a vulnerabilidade de áreas rurais no Pará, em Rondônia, no Amapá e no Tocantins, além de manter sob pressão os territórios já atingidos no Amazonas, Acre e Roraima.
Seca extrema se espalha em setembro
Dados parciais de setembro do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, mostram uma piora expressiva. O número de municípios classificados em seca extrema passou de quatro para 24 em apenas um mês.
Na categoria de seca severa, o total subiu de 153 para 197 municípios. Os maiores aumentos foram registrados no Amazonas, na Bahia, no Amapá, em Alagoas e em Sergipe.
Segundo o Cemaden, 16% da Região Nordeste está em seca grave, considerada a classificação mais severa do país. No Norte, a deterioração foi mais rápida em Roraima, no Acre e no Amazonas, onde a baixa dos rios já produz consequências práticas para moradores e operadores de transporte.
O que o El Niño muda no clima brasileiro
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e pode deslocar os corredores de chuva, provocando respostas diferentes em regiões distantes.
Segundo o Inmet, o fenômeno foi confirmado em junho e o aquecimento do Pacífico Equatorial vem aumentando continuamente. A projeção é de que o episódio possa ser o mais intenso desde 1950 e permaneça pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.
Segundo o Inmet, o El Niño tem 95% de probabilidade de atingir intensidade muito forte entre outubro e novembro, com tendência de seca e maior risco de fogo no Centro-Norte e chuva acima da média no Sul.
A previsão, no entanto, não determina sozinha o que acontecerá em cada município. O próprio boletim ressalta que os impactos dependem da evolução das condições meteorológicas. Uma mudança na distribuição das chuvas pode aliviar uma área e agravar outra em poucos dias.
Chuvas elevam o risco no Rio Grande do Sul
No Sul, o problema é oposto. A maior disponibilidade hídrica favorece o desenvolvimento do milho de primeira safra, mas a umidade excessiva no solo pode aumentar doenças fúngicas no trigo, atrasar a colheita e reduzir a qualidade dos grãos.
O excesso de chuva também pode dificultar o plantio da soja e do arroz irrigado. Para os produtores, a água em excesso não representa apenas uma perda de janela de trabalho. Ela interfere na qualidade da produção, na circulação de máquinas e na condição do solo.
As chuvas volumosas já elevaram o nível dos rios e provocaram inundações no Vale do Taquari e ao longo do rio Caí, no Rio Grande do Sul. Municípios de Santa Catarina também registraram impactos associados à elevação dos cursos d’água.
O Serviço Geológico do Brasil, o SGB, emitiu mais de 190 boletins de alerta hidrológico para a região em 2026. A expectativa do Inmet é de que o risco de cheias continue no Sul, embora possa diminuir até dezembro.
Por que a previsão exige atenção local
Uma tendência nacional não substitui o acompanhamento municipal. Em áreas amazônicas, a combinação de rios baixos, estradas dependentes de travessias fluviais e fogo em propriedades rurais pode ampliar o isolamento de comunidades. No Sul, a preocupação se concentra em encostas, margens de rios e áreas agrícolas com solo saturado.
O mesmo fenômeno climático, portanto, produz problemas distintos. Na Amazônia, a prioridade é preservar o acesso à água, reduzir o uso do fogo e acompanhar a navegabilidade. Nas áreas sujeitas a cheias, é necessário observar os níveis dos rios e os alertas hidrológicos antes de deslocamentos ou atividades próximas às margens.
A previsão do Inmet descreve tendências sazonais, não uma sentença para todos os municípios. Os próximos boletins meteorológicos e hidrológicos devem detalhar a distribuição das chuvas, enquanto o monitoramento seguirá sendo decisivo para orientar medidas de prevenção durante o período previsto.
Com informações do Instituto Nacional de Meteorologia.
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