
Com o mar até 6°C mais quente, anchovetas e atuns fogem para águas frias e profundas, e pescadores artesanais do Equador, do Peru, do Panamá e da Guatemala voltam com as redes quase vazias. Na Amazônia, a seca de 2023 já mostrou o que um El Niño forte pode fazer com rios, lagos e peixes.
Juan Ollague, de 56 anos, passou a noite no mar e voltou a Santa Rosa, povoado pesqueiro da província de Santa Elena, no sudoeste do Equador, com seis cavalas-fragata (Auxis thazard), um tipo de atum pequeno. “A água está quente”, resume. “Passamos a noite em claro.” No porto, centenas de barcos se apinham, boa parte deles parada. “Antes a pesca era boa, agora está péssima”, diz o colega Darwin Zambrano, de 53 anos, que deixou de ver albacoras e bonitos, peixes grandes da família do atum, caírem na rede.

A cena se repete ao longo do Pacífico oriental, do Peru à Guatemala. O mar aquecido pelo El Niño empurra anchovetas, atuns e pargos para águas mais frias e mais fundas, fora do alcance dos barcos pequenos. Nas águas equatorianas, a temperatura média subiu cerca de 3°C na superfície e até 6°C a 40 metros de profundidade, o que reduziu a produtividade marinha e a captura de algumas espécies, segundo o oceanógrafo Jonathan Cedeño, que acaba de voltar de uma expedição de pesquisa.
O El Niño é a fase quente de um ciclo natural do Pacífico tropical. Os ventos alísios enfraquecem, a água quente se acumula no centro e no leste do oceano e a ressurgência, a subida de águas frias e ricas em nutrientes junto à costa da América do Sul, perde força. Com menos nutrientes, há menos plâncton, e os cardumes que dependem dele se dispersam ou descem em busca de temperaturas mais baixas.
Em 8 de outubro, o Centro de Previsão Climática da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) informou que o fenômeno continuou a se fortalecer em setembro. A anomalia, isto é, o desvio em relação à média, chegou a 2,1°C na região chamada Niño 3.4, no Pacífico central, e a 3,9°C na região Niño 1+2, junto ao litoral do Equador e do Peru. Em partes do Pacífico equatorial leste, a superfície do mar ficou mais de 4°C acima do normal. A agência dá mais de 83% de chance de um El Niño de forte a muito forte até março de 2027 e calcula em 83% a probabilidade de que, entre outubro e dezembro, ele se torne um evento histórico, mais intenso que todos os registrados desde 1950.
O calor aparece também na média do planeta. Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, a temperatura média da superfície do mar entre as latitudes de 60° Sul e 60° Norte chegou a 21,07°C em agosto, recorde para o mês e empatada com março de 2024 como a mais alta já medida. O Copernicus associa os recordes no Pacífico tropical a um El Niño “potencialmente extremo”, que se soma ao aquecimento global.

No Panamá, Rigoberto González, de 59 anos, pesca pargos, serras e barracudas com linha a partir de uma praia em Veracruz, perto da capital. Para encontrar peixe, precisa ir cada vez mais longe da costa e ficar mais horas no mar e gastar mais com comida, gelo e combustível. Ele conta que sai com 100 dólares de gasolina e que a venda rende cerca de 150 dólares, a dividir entre quatro trabalhadores. No cais da Cidade do Panamá, alguns preferem nem sair. “Não podemos continuar perdendo”, diz Jesús Morales, líder do sindicato de pescadores artesanais do país.
No mercado ao lado do atracadouro, que abastece os supermercados da cidade, o vendedor Carlos Nieto, de 46 anos, diz que chegam menos mariscos e, às vezes, “estragados pelo calor”. Ele passou a gastar cerca de 600 dólares por mês só com gelo. “Isso é praticamente um salário.” Mais ao norte, em Iztapa, no litoral pacífico da Guatemala, Eliseo Ovando, de 50 anos, afirma que o que pescava em um dia agora exige três e reclama que só as grandes empresas recebem ajuda do Estado. “O peixe grande come o menor.”
No Peru, maior produtor mundial de anchoveta, peixe que vira farinha para ração animal e adubo, o golpe atinge também a pesca industrial. Em abril, o governo abriu a primeira temporada de 2026 na zona norte-centro com cota de 1,9 milhão de toneladas, a menor em uma década. Em maio, as condições do mar mudaram, e em 10 de junho a pesca foi suspensa com cerca de 25% da cota capturada, segundo a IFFO, organização internacional que reúne a indústria de ingredientes marinhos. O Peru costuma responder por cerca de 20% da farinha de peixe produzida no mundo.

Jessica Luna, presidente da Sociedade Nacional de Pesca (SNP), entidade que representa as empresas do setor peruano, calculou em julho que os desembarques somavam 471 mil toneladas, contra 2,3 milhões no mesmo período de 2025, uma queda de 80%. “É pior que 2023, sem dúvida”, disse, comparando com o último El Niño costeiro, ano em que a primeira temporada nem chegou a ser aberta. A cadeia da anchoveta sustenta cerca de 250 mil empregos diretos e indiretos, segundo a SNP. Com a anchoveta longe, há pescadores que trocaram o mar por outros ofícios, como a construção civil.
A comissão peruana encarregada do Estudo Nacional do Fenômeno El Niño (ENFEN), que reúne o Instituto do Mar do Peru (Imarpe), o serviço meteorológico e outros órgãos, elevou em 28 de setembro para 88% a probabilidade de o El Niño costeiro atingir magnitude extraordinária em outubro e prevê aquecimento intenso do mar até janeiro de 2027. Em comunicado anterior, a comissão avisou que a anchoveta da zona norte-centro deve continuar aprofundada e recolhida junto à costa, enquanto espécies de águas quentes, como o atum-de-barbatana-amarela, se aproximam do litoral.
Do outro lado dos Andes, o efeito do El Niño chega pela atmosfera. Em 2023, um El Niño forte, somado às mudanças climáticas, contribuiu para a seca extrema e a onda de calor no norte do Brasil. No Lago Tefé, no Amazonas, a água chegou a 41°C em toda a coluna, de cerca de 2 metros, segundo estudo publicado em novembro de 2025 na revista Science e liderado pelo engenheiro ambiental Ayan Fleischmann, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. A superfície do lago encolheu cerca de 75%, de 379 para 95 quilômetros quadrados. Em 28 de setembro de 2023, 70 botos e tucuxis foram encontrados mortos; nas semanas seguintes, as carcaças chegaram a 209. Outros lagos e reservatórios da região registraram mortandade de peixes.

Para o biólogo Adalberto Luis Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e coautor do estudo, os peixes enfrentam ao mesmo tempo aquecimento, perda de oxigênio e acidificação da água. “Mesmo aumentos pequenos de temperatura, de 1 ou 2 ºC, já comprometem a reprodução e o metabolismo”, afirma. Na época da seca, a Superintendência Federal de Pesca e Aquicultura no Amazonas estimou que 80% dos cerca de 140 mil pescadores do estado, perto de 112 mil pessoas, haviam sido afetados pela estiagem, e o governo federal liberou duas parcelas extras do seguro-defeso, benefício pago aos pescadores artesanais.

De volta a Santa Rosa, a escassez já chegou ao bolso de quem não vai ao mar. No Equador, segundo maior produtor mundial de atum, atrás da Tailândia, o preço do dourado e da bicuda dobrou, segundo o setor pesqueiro, e estabelecimentos de comida em frente ao porto fecharam temporariamente. “Todos nós estamos passando por dificuldades porque as pessoas não têm como consumir, não têm renda”, diz Janeth Toasa, de 54 anos. Francisco Orlando, de 37, que ganha a vida cortando filés de pescado no porto, depende dos barcos. “Se trouxerem, nós trabalhamos. Se não trouxerem, não trabalhamos.”
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