Antártida tem terceiro menor pico de gelo marinho em 48 anos, e Ártico empata no 10º pior nível

Antártida tem terceiro menor pico de gelo marinho em 48 anos, e Ártico empata no 10º pior nível
Foto: Carbon Brief

Dados de setembro de 2026 mostram cobertura polar persistentemente baixa, mas ainda não confirmam uma mudança estrutural na Antártida.

A cobertura de gelo que se forma sobre o oceano ao redor da Antártida terminou o inverno de 2026 muito abaixo da média. O pico anual alcançado em 14 de setembro foi de 17,59 milhões de quilômetros quadrados, o terceiro menor desde o início das observações por satélite, há 48 anos. No extremo oposto do planeta, o gelo marinho do Ártico chegou ao mínimo de verão em 12 de setembro, empatando com 2025, 2010 e 2008 como o décimo menor registro da série.

Os números são provisórios e medem extensão, isto é, a área do oceano coberta por gelo, não necessariamente seu volume ou espessura. Ainda assim, o resultado mantém os dois polos em uma faixa de atenção para os cientistas, especialmente porque a Antártida passou várias décadas com condições de inverno estáveis ou até de crescimento da cobertura.

O sinal mais persistente aparece no inverno antártico

Segundo o US National Snow and Ice Data Center, o pico de gelo marinho antártico de 2026 ocorreu em 14 de setembro e alcançou 17,59 milhões de quilômetros quadrados. A organização ressalta que oscilações de grande amplitude são comuns perto do máximo sazonal, por isso a posição definitiva do ano ainda pode sofrer pequenos ajustes.

Mesmo com essa cautela, a sequência recente chama atenção. A pesquisadora Lettie Roach, do Alfred Wegener Institute, classificou o valor como muito inferior ao esperado para a estação. Para ela, é preocupante observar números baixos persistindo depois de décadas de relativa estabilidade, mas ainda são necessários mais anos de observação para saber se existe uma mudança estrutural ou se a variabilidade natural continua desempenhando o papel principal.

A pesquisadora Clare Eayrs, do Korea Polar Research Institute, acrescenta que a extensão de julho foi a quinta menor já registrada e a de agosto ficou na quarta posição entre as menores. Todos os cinco menores valores de julho ocorreram desde 2022. No caso de agosto, os quatro menores registros apareceram desde 2023.

O gelo não diminuiu da mesma forma em toda a Antártida

Um dos aspectos mais importantes do resultado é a distribuição regional desigual. No começo da temporada de crescimento, em abril, o mar de Bellingshausen estava quase sem gelo, enquanto o mar de Amundsen apresentava mais cobertura do que o habitual. Até o fim de agosto, a configuração havia mudado.

Antártida tem terceiro menor pico de gelo marinho em 48 anos, e Ártico empata no 10º pior nível
Foto: Carbon Brief

Alterações na pressão atmosférica e nos ventos ajudaram a recompor parte do déficit no mar de Bellingshausen. Ao mesmo tempo, o gelo ficou excepcionalmente escasso no mar de Amundsen e em grandes áreas da Antártida Oriental. Isso mostra por que uma média continental não conta sozinha toda a história: ventos, temperatura do oceano e circulação atmosférica podem deslocar o gelo de uma região para outra ao longo da estação.

O estudo dos polos, portanto, precisa combinar a extensão observada por satélites com outros indicadores. Espessura, idade do gelo, concentração e distribuição regional podem revelar se uma área perdeu apenas cobertura superficial durante um período específico ou se o sistema está armazenando menos gelo de forma duradoura.

Ártico tem o décimo menor mínimo, mas a tendência continua descendente

No Ártico, a área mínima de 2026 ficou em 4,60 milhões de quilômetros quadrados. O valor não bateu o recorde de menor extensão, mas foi inferior a qualquer mínimo registrado antes de 2007. O NSIDC também informa que os 20 menores valores de extensão de gelo ártico da série ocorreram nos últimos 20 anos.

A ausência de um novo recorde anual não significa recuperação. A cientista Lettie Roach explica que o aquecimento provocado pela atividade humana já reduziu a cobertura e a espessura do gelo no Ártico, deixando a região em uma condição fundamentalmente diferente da observada décadas atrás.

As condições meteorológicas ajudam a explicar por que um ano pode ser menos extremo que outro. Zack Labe, da Climate Central, afirma que a pressão mais baixa no centro do Ártico favoreceu nuvens e temperaturas mais amenas em algumas áreas, atrasando o início do derretimento em partes dos mares de Beaufort e Chukchi. Já o lado atlântico passou por um verão mais severo, com o mar de Barents registrando o derretimento mais precoce da série.

O contraste regional também apareceu nas temperaturas. Partes do oeste da Sibéria permaneceram por boa parte do verão mais de 5 graus Celsius acima da média de 1981 a 2010. Esse calor avançou em direção ao mar de Kara e contribuiu para uma perda expressiva de gelo na área.

Antártida tem terceiro menor pico de gelo marinho em 48 anos, e Ártico empata no 10º pior nível
Foto: Carbon Brief

O que os polos têm a ver com a Amazônia

A Amazônia não possui gelo marinho, mas o comportamento dos polos integra o mesmo sistema climático que influencia o Brasil. Mudanças na circulação atmosférica e oceânica podem alterar a distribuição de calor, umidade e padrões de chuva em diferentes regiões do planeta. Isso não permite atribuir automaticamente uma seca ou uma cheia amazônica ao gelo de um determinado ano, mas reforça que os sinais polares precisam ser acompanhados junto com oceanos, atmosfera e uso da terra.

Para os estados amazônicos, incluindo Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a conexão mais segura é a necessidade de interpretar eventos extremos em escala global. O gelo marinho também exerce influência sobre o clima por refletir parte da radiação solar, embora seu derretimento não tenha o mesmo efeito direto sobre o nível do mar que o derretimento de geleiras sobre terra.

Uma lacuna ameaça acompanhar a espessura do gelo ártico

Além dos valores de extensão, os pesquisadores enfrentam uma dificuldade operacional. O sistema PIOMAS, usado desde 1979 para acompanhar a espessura do gelo do Ártico por meio de uma reanálise, deixou de receber atualizações depois que a NOAA encerrou, em março de 2026, um conjunto global de dados de pressão atmosférica utilizado no cálculo.

O próprio projeto afirma que será necessário tempo e esforço consideráveis para encontrar dados alternativos e retomar uma série confiável. Sem essa continuidade, fica mais difícil avaliar se um ano com extensão relativamente maior também apresenta gelo mais espesso e resistente.

Segundo o NSIDC, o mínimo de gelo marinho do Ártico ocorreu em 12 de setembro de 2026, com 4,60 milhões de quilômetros quadrados, empatado como o décimo menor da série por satélite. O dado pode ser consultado na página de análise do mínimo anual do gelo ártico.

Na Antártida, a principal dúvida permanece aberta: os baixos picos recentes são uma nova tendência de longo prazo ou uma sequência de oscilações naturais? A resposta dependerá de mais anos de medições, de observações sobre espessura e de modelos capazes de separar o efeito do aquecimento causado pela humanidade da variabilidade própria do sistema polar.

Com informações de Carbon Brief.

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