
Estudo ainda em revisão por pares usa dados de satélite para estimar o enfraquecimento da AMOC e pode abrir caminho para um alerta antecipado.
O oceano Atlântico Norte está devolvendo menos calor à atmosfera do que há quatro décadas, e isso pode ser o sinal mais claro até agora de que a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC), sistema de correntes que mantém ameno o clima europeu, está perdendo força. Segundo um estudo liderado por Richard Allan, da Universidade de Reading, no Reino Unido, divulgado em outubro de 2026, o fluxo de calor do Atlântico Norte para o ar caiu 18% em 40 anos, e a circulação encolheu 14% em 30 anos.
O trabalho ainda não foi publicado em revista científica: está em avaliação por pares e disponível na plataforma Research Square, sob o DOI 10.21203/rs.3.rs-10854125. Por isso, os números devem ser lidos como resultado preliminar.
Como o calor entrega a pista
A AMOC inclui a Corrente do Golfo. Ela leva água quente e salgada do Golfo do México para o Atlântico Norte. Lá, a água esfria, afunda e volta para o sul pelo fundo do mar. Ao esfriar, libera calor para a atmosfera.
A lógica dos pesquisadores é simples: se a corrente transporta menos calor para o norte, menos calor deve sair do oceano naquela região. Medir um lado da equação ajuda a inferir o outro.
“Esperamos que a AMOC leve calor para o norte e que esse calor saia pela superfície do oceano para a atmosfera, então, se uma dessas coisas muda, esperamos que a outra mude”, diz Neil Fraser, da Scottish Association for Marine Science, que não participou do estudo. Para ele, “este é um dos indícios mais fortes até agora de que a AMOC enfraqueceu nos últimos 40 anos”.
O método: satélites no lugar de modelos puros
Como o fluxo da AMOC varia de ano para ano, a equipe usou a primeira década de dados para estimar uma média de referência e comparou esse valor com as décadas seguintes. Daí saiu a queda de 14% em 30 anos.
A novidade está na origem dos dados. Segundo Allan, é a primeira estimativa de enfraquecimento da AMOC feita com fluxos de calor calculados em parte a partir de medições de satélite. Há décadas, o desequilíbrio entre a energia solar que a Terra recebe e o calor que irradia de volta ao espaço vem crescendo. Os pesquisadores combinaram essas medições de satélite com reanálises e modelos para estimar quanto calor a mais o Atlântico Norte deixou de liberar.
“O fluxo líquido ar-mar inferido é comprovadamente de melhor qualidade que outras estimativas, o que o torna mais adequado para inferir mudanças na AMOC”, afirma Michael Mayer, da Universidade de Viena, integrante da equipe.
Por que as outras provas não bastavam
Boias espalhadas pelo Atlântico registram variações de pressão da água que correspondem a uma queda de cerca de 10% na força da AMOC desde 2004. Mas, como o fluxo pode diminuir por décadas e depois se recuperar, esse intervalo curto não prova uma tendência de longo prazo.
Cientistas recorreram então a indícios indiretos, como a chamada “mancha fria” no Atlântico Norte, a única região do planeta que esfriou desde o século 19. Uma análise de 2018 sobre essas temperaturas de superfície estimou um enfraquecimento de 15% desde a década de 1950. A leitura tem ressalva: o resfriamento também poderia vir de mudança nos ventos da corrente de jato ou de mais sombreamento por nuvens.
O fluxo de calor, argumenta David Thornalley, da University College London, está “um passo mais perto daquilo que move a AMOC”. Um estudo do ano passado calculou esse fluxo a partir de reanálises atmosféricas, que são modelos de computador ajustados às observações esparsas disponíveis, e não encontrou queda na AMOC entre 1963 e 2017.
Divergências e o peso do conjunto
Nem todos concordam que o fluxo de calor seja um indicador melhor. Stefan Rahmstorf, da Universidade de Potsdam, na Alemanha, lembra que a temperatura da superfície do mar pode ser medida diretamente. Ainda assim, para ele, as duas abordagens se somam e reforçam a preocupação de que a AMOC esteja se aproximando de um ponto de virada.
Outro estudo recente, baseado em reanálises do oceano e não da atmosfera, também achou um enfraquecimento de 15% em 30 anos. “A evidência mais forte é a combinação de várias linhas diferentes de evidência, todas apontando para uma AMOC mais lenta”, diz Rahmstorf.
Os modelos climáticos indicam que o degelo da Groenlândia injeta água doce no Atlântico Norte, dilui a salinidade e dificulta o afundamento da água, o que enfraqueceria a circulação. Algumas pesquisas apontam que um colapso poderia ocorrer já em 2060, com invernos muito rigorosos na Europa, tempestades mais fortes e secas extensas. Trata-se de projeção de parte da literatura, não de consenso.
O que isso significa para a Amazônia
A AMOC não é assunto só europeu. Pesquisas citadas em discussões científicas sobre o tema associam mudanças na circulação atlântica a deslocamentos da chuva tropical, e a região amazônica depende do regime de chuvas do Atlântico tropical. O estudo de Allan, porém, trata do calor liberado no Atlântico Norte e não avalia impactos na Amazônia, de modo que essa conexão segue como tema de pesquisa e não como resultado desta análise.
Um possível alerta antecipado
Como os dados de satélite são atualizados com regularidade, o método, se resistir ao escrutínio, poderia “fornecer um novo método de alerta antecipado para detectar mudanças nessa corrente vital”, diz Allan. O Reino Unido investe 81 milhões de libras em pesquisa para criar, até 2030, um sistema de alerta para o colapso da AMOC, embora este estudo não faça parte da iniciativa.
O próximo passo é a conclusão da revisão por pares, que dirá se os cálculos se sustentam e se o método pode ser incorporado ao monitoramento do Atlântico.
Com informações de New Scientist e da Universidade de Reading.
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