
Sedimentos de 240 mil anos mostram como o aquecimento pode transformar água doce em sal em uma mesma bacia.
Hoje, o Great Salt Lake é raso e extremamente salgado. Mas houve momentos em que a paisagem de Utah, nos Estados Unidos, parecia pertencer a outro continente: a água avançava sobre áreas dez vezes maiores que a superfície atual, alcançava quase 305 metros de profundidade e transformava cadeias de montanhas em ilhas. Uma pesquisa publicada em 11 de agosto de 2026 reconstruiu como esse cenário apareceu e desapareceu ao longo de quase 240 mil anos.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da University of Southern California, a USC Dornsife, a partir de um testemunho de sedimentos com quase 122 metros de comprimento, extraído do fundo do lago em 2000. As camadas preservadas no material funcionam como páginas de um arquivo natural. Nelas, os cientistas encontraram sinais de duas fases de grandes lagos de água muito mais doce que a atual: Little Valley, entre aproximadamente 140 mil e 135 mil anos atrás, e Lake Bonneville, entre cerca de 30 mil e 16 mil anos atrás.
Um lago que cresceu e encolheu duas vezes
O episódio mais conhecido foi o Lake Bonneville, formado durante a última era glacial. Suas antigas margens ainda podem ser vistas em diferentes pontos do oeste de Utah, mas as linhas deixadas nas montanhas são apenas fotografias isoladas da paisagem. O testemunho retirado do leito permitiu acompanhar também a mudança gradual da salinidade e do tamanho do lago.
Os pesquisadores dataram os sedimentos por meio do decaimento radioativo de minerais, um método que funciona como um relógio geológico. Também examinaram moléculas produzidas por microrganismos que viveram na água. A proporção dessas moléculas muda conforme a concentração de sal, permitindo estimar se o lago era de água doce, salobra ou hipersalina.
Segundo a University of Southern California, o Great Salt Lake registrou duas fases de expansão e água mais doce entre 140 mil e 16 mil anos atrás, durante diferentes ciclos glaciais no oeste dos Estados Unidos.
O que os sedimentos revelam sobre a secagem
A sequência encontrada pelos cientistas se repetiu nos dois grandes episódios. Em períodos mais frios, a evaporação diminuía e tempestades mais frequentes levavam água para a bacia. O lago crescia aos poucos, “uma tempestade de cada vez”, como explicou Sarah Feakins, professora de Ciências da Terra da USC Dornsife e autora sênior do estudo.
Quando o clima esquentava e ficava mais seco, o processo se invertia. A evaporação aumentava, a entrada de água diminuía e o nível baixava. Com menos água para diluir os sais, a concentração salina subia até que minerais começassem a cristalizar e se depositar no fundo.
Rachel So, autora correspondente e recém-doutora em Ciências da Terra pela USC Dornsife, comparou o registro a uma poça que permanece quase igual durante muito tempo, cresce rapidamente até virar uma lagoa e depois volta a diminuir. A diferença, neste caso, é a escala: a “poça” ocupava uma vasta parte do oeste norte-americano.
Uma história antiga, mas não uma desculpa para o presente
O fato de o lago ter secado parcialmente no passado não significa que a redução atual seja apenas um fenômeno natural. A bacia não possui saída para o mar, por isso perde água principalmente pela evaporação. Esse tipo de sistema responde com rapidez a alterações na temperatura, na chuva e no volume dos rios que chegam ao lago.

Hoje, porém, existe uma pressão adicional que não estava presente nas antigas fases de Lake Bonneville e Little Valley: o uso humano da água, sobretudo na agricultura. A retirada de água reduz o fluxo que alcança o Great Salt Lake, enquanto o aquecimento provocado pela atividade humana aumenta a capacidade da atmosfera de extrair umidade do solo e dos corpos d’água.
“As pessoas não devem usar a defesa de que ‘as mudanças climáticas aconteceram naturalmente no passado e, portanto, o lago encolheu’ para justificar que a redução dos lagos hoje seja normal ou um fenômeno natural”, afirmou Rachel So.
O estudo encontrou sinais semelhantes de transição entre períodos úmidos e secos em registros de Nevada, Califórnia e Arizona. Isso indica que o Great Salt Lake não reagia sozinho: ele fazia parte de uma mudança mais ampla no balanço hídrico do oeste dos Estados Unidos.
O contraste com a Amazônia
A experiência do Great Salt Lake não pode ser transportada diretamente para os rios e lagos amazônicos. A maior parte da Amazônia é formada por sistemas conectados a grandes bacias fluviais, com circulação de água muito diferente da de um lago fechado e sem saída. Ainda assim, a pesquisa ajuda a explicar um princípio que também interessa aos nove estados da região: a quantidade de água disponível depende do equilíbrio entre chuva, entrada pelos rios, evaporação e uso humano.
No Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, além do Maranhão na Amazônia Legal, alterações no regime de chuvas e no transporte de umidade podem afetar rios, lagos de várzea, reservatórios e atividades como pesca, agricultura e abastecimento. A comparação não prevê que os rios amazônicos se tornem salgados como o lago de Utah. Ela mostra, em outra escala e em outro tipo de bacia, como mudanças persistentes no balanço da água podem alterar rapidamente uma paisagem que parece estável.
O que ainda limita a reconstrução
As camadas mais antigas do testemunho apresentam margens de erro de vários milhares de anos. Alguns depósitos de sal também foram difíceis de datar. A equipe tentou reconstruir as temperaturas do passado, mas a elevada salinidade do lago tornou esse cálculo pouco confiável.
Mesmo com essas limitações, o registro permite comparar dois ciclos glaciais e observar a passagem repetida de água doce para condições hipersalinas. O artigo completo está disponível no estudo publicado na revista Paleoceanography and Paleoclimatology.
A próxima etapa do debate ocorre no presente: diferenciar o que pode ser atribuído ao aquecimento global do que resulta do consumo humano de água será essencial para decidir o futuro do Great Salt Lake e de outras bacias vulneráveis do oeste americano.
Com informações da University of Southern California.
Respostas rápidas sobre a pesquisa
Quanto tempo duraram as fases de água doce?
Lake Bonneville existiu aproximadamente entre 30 mil e 16 mil anos atrás, enquanto Little Valley durou cerca de 5 mil anos, entre 140 mil e 135 mil anos atrás. O lago mais antigo pode ter permanecido parcialmente salobro.
Por que o Great Salt Lake é tão sensível ao clima?
Porque a bacia não tem saída para o mar. A água chega principalmente por rios e chuvas e deixa o sistema sobretudo pela evaporação. Pequenas mudanças nesses componentes alteram o nível e a concentração de sal.
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