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Em Kerala, moradores leem o clima pela pesca e pelas enchentes, mas só 16,25% veem poder de agir

Em Kerala, moradores leem o clima pela pesca e pelas enchentes, mas só 16,25% veem poder de agir
Foto: acervo

Estudo mostra por que políticas climáticas precisam combinar ciência, conhecimento local e realidades de cada comunidade.

Em uma ilha baixa de Kerala, no sul da Índia, a mudança do clima aparece na rotina como ameaça de enchentes, avanço do mar e afundamento do solo. Em Kozhikode, no trecho continental da mesma região costeira, a percepção passa por outro caminho: moradores relatam a redução da quantidade de peixes e alterações no tamanho das sardinhas. As duas experiências estão no centro de um estudo publicado em 15 de setembro de 2026, que defende políticas climáticas construídas a partir do lugar onde as pessoas vivem.

A pesquisa comparou Vypin, uma ilha sujeita a inundações, e a costa continental de Kozhikode. Embora as áreas estejam em um contexto geográfico e socioecológico semelhante, os moradores não descrevem os impactos nem a própria capacidade de resposta da mesma forma. Para os pesquisadores, essa diferença expõe uma limitação de campanhas que usam a mesma mensagem para comunidades distintas.

Quando o clima é percebido pela pesca, pela água e pela terra

Segundo a Universidade de Turku, o estudo foi realizado em duas regiões costeiras de Kerala e publicado em 15 de setembro de 2026 no periódico Ocean & Coastal Management. O levantamento analisou percepções, crenças e conhecimentos sobre as mudanças climáticas, observando como as pessoas relacionam fenômenos globais às transformações visíveis em seu entorno.

Em Vypin, as preocupações mais citadas foram a elevação do nível do mar, as inundações recorrentes e o afundamento da terra. Alguns participantes disseram temer que o avanço das águas alcance suas casas. Outros mencionaram a possibilidade de migrar caso a vulnerabilidade aumente.

Na costa de Kozhikode, os relatos se concentraram na pesca. A menor abundância de peixes e a mudança no tamanho das sardinhas foram usados como sinais de alteração no ambiente marinho. A comparação mostra que a experiência cotidiana pode registrar mudanças ambientais detalhadas mesmo quando os moradores não utilizam termos científicos para descrevê-las.

A diferença entre perceber o problema e explicar sua causa

O estudo também encontrou uma distância entre a consciência de que o clima está mudando e a compreensão científica sobre as causas do fenômeno. Parte dos participantes associou as mudanças climáticas ao desmatamento, à poluição, ao descarte de plástico e à urbanização. Outros recorreram a visões religiosas e culturais, relacionando os acontecimentos ao controle divino, a punições ou à aproximação do fim do mundo.

Essas interpretações não foram tratadas pelos autores simplesmente como falta de conhecimento. A avaliação é que elas revelam como comunidades tentam dar sentido a um processo complexo e incerto a partir de valores, crenças e experiências acumuladas. O risco, segundo a pesquisa, está em uma explicação local ser usada para atribuir às pessoas uma responsabilidade maior do que elas realmente podem assumir.

Quando alguém entende que o aquecimento do planeta é causado principalmente por hábitos individuais ou pelo lixo de seu bairro, pode acreditar que uma mudança pessoal será suficiente para resolver o problema. Essa leitura tende a deslocar a atenção das obrigações de governos, setores de alta emissão e instituições responsáveis por oferecer infraestrutura de adaptação, financiamento climático e proteção social.

O número que revela a diferença de agência

A percepção de capacidade de ação variou de forma expressiva entre os dois grupos. Em Vypin, 65% dos participantes afirmaram que poderiam fazer algo para enfrentar as mudanças climáticas. Em Kozhikode, esse índice foi de 16,25%.

O resultado não significa que uma comunidade esteja preparada e a outra permaneça inerte. Ele indica que a sensação de poder agir depende da maneira como o problema é vivido, explicado e relacionado às possibilidades concretas de resposta. Uma população que vê a erosão avançar sobre a moradia pode identificar uma ação imediata, enquanto uma comunidade que acompanha a perda de peixes pode não enxergar instrumentos disponíveis para intervir em processos mais amplos.

Os participantes citaram medidas como reflorestamento, redução da poluição por plástico, proteção costeira e soluções baseadas na natureza. Em Vypin, os manguezais apareceram como uma alternativa para diminuir a erosão e proteger assentamentos. Alguns moradores chegaram a plantar mangues próximos de suas casas.

O que a experiência indiana ensina para a Amazônia

A discussão tem relação direta com os desafios de comunicação climática na Amazônia brasileira. Comunidades costeiras do Pará e do Amapá, moradores das margens dos rios no Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso não observam o clima por meio de um único indicador. O sinal pode estar na duração da cheia, na qualidade da água, na produtividade da pesca, na pressão sobre a floresta ou na dificuldade de manter atividades agrícolas.

Essa aproximação regional não permite transferir automaticamente as conclusões de Kerala para a Amazônia. O ponto comum está no método: políticas públicas mais efetivas precisam começar pela realidade de cada território, sem substituir o conhecimento científico por percepções locais nem desconsiderar o que as comunidades já sabem sobre seu ambiente.

Para os autores, materiais de comunicação devem ser adaptados aos lugares, usar exemplos reconhecíveis e abrir espaço para diálogos participativos. A educação baseada em experiências e a produção conjunta de conhecimento também são apontadas como caminhos para conectar explicações científicas às formas culturais de interpretar o mundo.

Uma política feita com quem enfrenta o impacto

A pesquisa argumenta que comunidades expostas às mudanças climáticas não são apenas vítimas passivas. Elas identificam riscos, desenvolvem respostas e acumulam informações que podem ajudar no planejamento. O desafio é transformar essa experiência em participação real nas decisões, incluindo grupos locais na definição de prioridades e na avaliação das medidas adotadas.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores do Indian Institute of Forest Management, da Nature Conservation Foundation-India e do Department of Biodiversity Sciences da University of Turku, na Finlândia. A recomendação central é que governos e comunicadores abandonem abordagens uniformes e aproximem ciência, conhecimento indígena e local, cultura e ação comunitária.

Os próximos passos propostos pelos pesquisadores são a adaptação das estratégias de comunicação e a incorporação dessas práticas às políticas climáticas de Kerala, com mais diálogo e participação das comunidades afetadas.

O estudo completo está disponível na publicação da Universidade de Turku sobre experiências locais e reformas nas políticas climáticas.

Com informações de University of Turku.

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