
Glaciologista alerta que o aquecimento das montanhas pode aumentar a frequência de avalanches e transbordamentos catastróficos.
Uma cidade pode desaparecer em poucos minutos quando uma encosta coberta por gelo, rochas, sedimentos e água perde estabilidade. Foi o que ocorreu em Yungay, no Peru, em 31 de maio de 1970, quando um terremoto de magnitude 7,9 desencadeou uma avalanche no monte Huascarán. O material desceu a cerca de 300 km/h e soterrou a cidade em três minutos, matando mais de 20 mil pessoas.
O episódio ajuda a dimensionar o alerta feito pelo glaciologista brasileiro Jefferson Cardia Simões após o desastre recente no Nepal, que matou pelo menos 669 pessoas, além de sete no Tibete chinês, e deixou mais de três mil desaparecidos. Para o pesquisador, eventos desse tipo não são comuns, mas também não podem ser tratados como exceções improváveis.
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O perigo não está apenas na geleira. Ele aparece quando uma grande quantidade de gelo se desprende, atinge lagos formados nas montanhas ou se mistura à água do derretimento. Se a barreira natural de sedimentos não suporta a pressão, o lago pode transbordar e formar um fluxo destrutivo pelos vales.
Esses movimentos carregam água, gelo, terra e blocos de rocha. A velocidade e o volume transformam o fenômeno em uma ameaça imediata para comunidades instaladas nas áreas mais baixas. Nos Andes e no Himalaia, muitos vales são estreitos e afunilados, o que concentra a força da correnteza em uma faixa relativamente pequena.
“Vem ladeira abaixo e atinge tudo o que estava nos vales. Não só no Himalaia, mas também nos Andes, esses vales são afunilados e, infelizmente, muitas vezes ali existem povoados”, afirmou Jefferson Cardia Simões.
Segundo o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, o aquecimento das regiões montanhosas acelera o derretimento de geleiras e aumenta o volume de água disponível para esses eventos. A elevação da temperatura também faz a linha de congelamento subir, levando neve e gelo a derreterem em altitudes antes mais frias.
O aquecimento muda a altitude onde a água congela
Geleiras são grandes massas de gelo formadas pela acumulação e compactação de neve durante centenas ou milhares de anos. Elas funcionam como reservatórios naturais, armazenando água congelada e liberando parte desse volume ao longo do tempo.
Com o aumento da temperatura, a altitude em que a água permanece congelada se desloca para cima. O resultado pode ser mais água de derretimento em áreas elevadas, justamente onde existem lagos glaciais, encostas instáveis e canais estreitos de escoamento.
“A temperatura está mais quente. A temperatura zero grau que ocorria em uma altitude X na montanha agora ocorre em lugares mais altos. Então derrete neve e gelo em lugares mais altos. O volume de água é maior”, explicou o glaciologista.
Esse processo não significa que todo derretimento provocará uma avalanche. A ocorrência depende da inclinação das encostas, da presença de lagos, da resistência das barragens naturais, de terremotos e de outros fatores locais. O alerta está no aumento das condições que podem alimentar um fluxo de grande proporção.
Um risco conhecido nos Andes tropicais
A preocupação é especialmente forte no Peru, país que concentra a maior massa de gelo tropical do mundo. Bolívia e Colômbia também possuem áreas montanhosas expostas a processos semelhantes. Na porção sul do continente, a maior parte das geleiras da América Latina está na fronteira entre Argentina e Chile, incluindo as calotas de gelo da Patagônia, que também vêm perdendo massa.
O desastre de Yungay permanece como um dos exemplos mais severos do risco. Na tarde de domingo, às 15h23, o terremoto provocou o desprendimento de gelo e rocha do Huascarán. A massa atingiu o estádio de futebol, que estava lotado, e avançou sobre a cidade antes que a população pudesse escapar.
Para Simões, a frequência desses episódios tende a crescer. “O que posso dizer, com certeza, é que a frequência desses eventos, infelizmente, tende a aumentar”, declarou. A avaliação está alinhada a estudos da comunidade glaciológica, que há décadas acompanha a redução das geleiras e a formação de lagos de risco.
O monitoramento tenta ganhar tempo para as cidades
O Peru criou o Instituto Nacional de Investigación en Glaciares y Ecosistema de Montaña, conhecido como INAIGEM, para produzir pesquisas sobre geleiras e ecossistemas montanhosos. O órgão realiza trabalhos de campo, acompanha o recuo do gelo e analisa as mudanças climáticas nos Andes tropicais.
Uma das frentes é o monitoramento de lagoas glaciais consideradas perigosas. A observação permite identificar alterações no nível da água e emitir alertas para as comunidades situadas abaixo. Em desastres desse tipo, poucos minutos podem separar uma evacuação bem-sucedida de uma tragédia.
O acompanhamento sistemático de geleiras de montanha é feito há mais de 120 anos, segundo o glaciologista. A série histórica ajuda a comparar a posição do gelo, a evolução dos lagos e as mudanças na temperatura, mas não elimina o risco nem substitui os planos locais de emergência.
O que os Andes ensinam às áreas alagadas da Amazônia
Não há geleiras na Amazônia, e uma cheia dos rios amazônicos não tem a mesma origem de um aluvião glacial. A comparação precisa ser feita com cuidado. Ainda assim, a experiência andina oferece uma lição importante para os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins: áreas ocupadas próximas à água precisam de monitoramento, rotas de fuga e comunicação rápida.
Na região amazônica, comunidades ribeirinhas e cidades convivem com a subida sazonal dos rios e com a ocupação de áreas sujeitas a alagamentos. O fenômeno é diferente, mas o princípio da prevenção é semelhante: conhecer o território, acompanhar os níveis de água e evitar que populações fiquem sem resposta diante de uma mudança rápida.
O caso do Nepal também reforça que o risco climático não se limita a secas, ondas de calor ou inundações urbanas. Em regiões de montanha, o aquecimento pode alterar a estabilidade de encostas e ampliar a quantidade de água acumulada em áreas elevadas. Nos Andes, pesquisadores já tratam essa combinação como uma ameaça que exige vigilância permanente.
A análise de Jefferson Cardia Simões foi divulgada em 29 de agosto de 2026, no contexto do desastre registrado no Nepal. Os próximos passos dependem da continuidade do monitoramento, da atualização dos mapas de risco e da preparação das comunidades localizadas nos vales andinos.
Com informações do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera.
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