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Um peixe subterrâneo avermelhado aparece em poços de 4 a…

Cinquenta e cinco espécies nativas foram selecionadas para restaurar Rondônia e uma árvore usada havia sido confundida com ipê por mais de uma década

Um levantamento publicado em 2026 reuniu 55 árvores e palmeiras com potencial para recuperar áreas degradadas de Rondônia. A lista cruzou estudos de florestas secundárias, observações de campo desde 2016 e mais de 450 exemplares de herbário. No meio da seleção, surgiu uma história reveladora: uma árvore chamada localmente de ipê-verde e plantada em restauração desde 2010 era tratada como Handroanthus. Material fértil enviado a um especialista mostrou que se tratava de Godmania aesculifolia. A muda crescia bem; o nome, porém, estava errado — e isso poderia distorcer coleta de sementes, manejo e avaliação dos resultados.

Folhas parecidas esconderam diferenças que só flores e frutos revelaram

A confusão é compreensível. Godmania, Handroanthus e Tabebuia compartilham folhas palmadas e traços que sustentam o nome popular ipê. A diferença aparece melhor em estruturas reprodutivas: Godmania apresenta frutos em cápsulas espiraladas e estriadas, corola campanulada e anteras gibosas e pilosas. Sem flores ou frutos, a identificação de campo fica mais difícil. Em restauração, entretanto, plantar sob um nome incorreto significa aplicar recomendações de outra espécie.

O caso expõe um gargalo pouco discutido. Projetos podem definir hectares, espaçamento e número de mudas com precisão, mas falhar no primeiro dado: quem está sendo plantado. Exigências de luz, velocidade de crescimento, época de frutificação e interação com fauna variam entre espécies. Uma etiqueta errada contamina planilhas e relatórios e impede comparar experiências. A taxonomia é infraestrutura da restauração.

As 55 espécies foram divididas por velocidade, função e forma de dispersão

Das 55 espécies selecionadas, 22 eram pioneiras, 29 secundárias e três de clímax; uma ficou sem classificação sucessional. Trinta e três — 60% — dispersam sementes por animais. Vinte e sete foram consideradas espécies de diversidade e 19 de cobertura rápida. A maioria ocorre em floresta de terra firme, mas a lista também inclui representantes de várzea, igapó, campinarana, cerrado e florestas semideciduais. Não existe uma árvore universal para todos os solos e regimes de água.

Os herbários revelaram outro desequilíbrio. As 55 espécies tinham registros em 45 dos 52 municípios rondonienses, mas a concentração de coletas era enorme: Porto Velho reunia 53 espécies documentadas, Itapuã do Oeste 38 e Guajará-Mirim 27. Uma ausência no banco de dados pode refletir falta de coleta, não falta da planta. Os autores ressaltam que espécies comuns no campo aparecem pouco nas coleções.

Godmania aesculifolia tinha apenas 50 registros em diferentes biomas brasileiros no levantamento consultado. Em Rondônia, ocorria em áreas antropizadas próximas ao Madeira e em pastagens. Seu uso em recuperação pode ter uma consequência dupla: cobrir áreas degradadas e conservar uma espécie possivelmente rara regionalmente. Mas esse benefício só se torna visível quando a identidade está correta.

Restaurar não significa simplesmente plantar o maior número possível de mudas

O estudo também alerta contra plantar automaticamente as colonizadoras mais óbvias. Tucumã, lacres, embaúbas e jurubebas já podem se estabelecer espontaneamente e, em excesso, dificultar outras espécies. Restauração não é maximizar qualquer verde; é reconstruir diversidade e funções. Às vezes, a melhor decisão é não plantar aquilo que chegará sozinho.

A lista das 55 espécies funciona como ponto de partida, não receita fechada. Disponibilidade de sementes, procedência genética, tipo de solo e objetivo do projeto precisam orientar cada combinação. A história do falso ipê-verde resume o desafio: uma floresta pode crescer mesmo quando a planilha está errada, mas será difícil aprender com ela. Dar o nome certo a uma árvore muda o manejo, permite repetir o sucesso e transforma uma muda anônima em parte consciente da conservação amazônica.

Os números também ajudam a desenhar um plantio mais resiliente. Espécies de cobertura fecham o solo e reduzem condições hostis; espécies de diversidade ampliam funções e trajetórias futuras. As dispersas por animais podem atrair fauna e estimular regeneração, enquanto pioneiras respondem rapidamente à luz. Misturar papéis é mais importante que somar mudas sem estratégia.

Por fim, os mais de 450 exemplares consultados mostram que restauração começa antes do viveiro. Começa em etiquetas de herbário, coletas férteis e especialistas capazes de comparar estruturas. Investir em parabotânicos e taxonomistas pode parecer distante do canteiro, mas evita que milhões de mudas sejam produzidas sob identidades equivocadas. O caso de Rondônia transforma um erro corrigido em lição para projetos de toda a Amazônia.

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