
Encontro em Palau reúne crise climática, dependência energética e disputa militar no oceano.
O preço do combustível e o risco de novos testes militares chegam ao mesmo fórum que tenta manter viva a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C. O primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, está em Palau nesta semana para o Fórum Anual das Ilhas do Pacífico, encontro em que segurança, energia e clima serão tratados como partes do mesmo problema.
Para os países insulares, a ameaça não se resume à presença de armas no oceano. Ciclones mais intensos, recifes de coral em declínio, acidificação da água e contas elevadas para manter geradores e usinas funcionando já afetam a segurança econômica e social da região.
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A agenda do fórum foi enfraquecida pela ausência de alguns líderes. O primeiro-ministro das Ilhas Salomão, Matthew Wale, deixou Palau poucas horas depois de chegar para enfrentar um desafio iminente à sua liderança no país.
Também não participarão o presidente de Kiribati, Taneti Maamau, o primeiro-ministro de Samoa, Laʻauli Leuatea Schmidt, e o primeiro-ministro de Vanuatu, Jotham Napat. A presença do primeiro-ministro de Fiji, Sitiveni Rabuka, permanece incerta.
Mesmo com a composição incompleta, as decisões do encontro podem influenciar a estratégia regional para a COP31, que terá a Austrália na presidência das negociações climáticas em novembro. Fiji e Tuvalu também ajudam a organizar uma cúpula preparatória para a conferência, prevista para outubro.
O teste chinês mudou o debate sobre segurança
Em julho, a China lançou um míssil de teste com capacidade nuclear que atravessou o espaço sobre vários países do Pacífico e caiu em águas próximas à zona econômica exclusiva de Tuvalu. O episódio levou governos insulares a defenderem uma nova forma de coordenação regional.
Matthew Wale classificou o lançamento como
“não foi um ato de um amigo”
. A declaração ganhou peso porque as Ilhas Salomão assinaram um acordo de segurança com a China em 2022, decisão que alterou o equilíbrio de uma região historicamente ligada aos Estados Unidos e à Austrália.
O movimento chinês ocorre em um oceano onde os Estados Unidos mantêm bases e uma marinha de águas profundas desde a Segunda Guerra Mundial. Washington também realiza testes de mísseis de longo alcance na área. A diferença agora é que o avanço militar de Pequim passou a pressionar os governos insulares a discutir um acordo coletivo de segurança.
Canberra já havia firmado compromissos bilaterais com Tuvalu, em 2023, Naoero, antigo Nauru, em 2024, Papua Nova Guiné, em 2025, e Vanuatu, em 2026. Negociações com Tonga e Ilhas Salomão continuam. Em julho, Austrália e Fiji assinaram uma Aliança para um Oceano de Paz, pacto de defesa mútua aberto à adesão de outros países do Pacífico.
O combustível consome mais que saúde e educação
A dependência energética torna as ilhas especialmente vulneráveis a guerras e interrupções no comércio internacional. Cerca de 80% da energia do Pacífico vem de derivados de petróleo importados, usados em usinas, geradores, barcos e veículos.
Antes mesmo do conflito entre Estados Unidos e Irã, os países insulares destinavam entre 10% e 25% do Produto Interno Bruto à compra de combustíveis fósseis. A proporção supera as médias regionais de 8% para educação e 6% para saúde.
Em Fiji, a persistência do petróleo caro pode elevar em US$ 375 milhões, ou A$ 520 milhões, o gasto anual com combustíveis refinados. Segundo o material apresentado no fórum, esse valor supera todo o orçamento de saúde do país.
Solar e baterias entram como resposta imediata
A substituição de geradores a diesel por usinas solares de maior escala, combinadas com baterias, é apresentada como uma resposta simultaneamente econômica e climática. A estimativa é que a mudança evite cerca de US$ 700 milhões, ou A$ 520 milhões, por ano em custos de combustível na região.
O presidente eleito do Fórum das Ilhas do Pacífico, Surangel Whipps Jr., de Palau, defende que o conjunto de países seja o primeiro do mundo abastecido integralmente por fontes renováveis. Para Palau, a instalação de 60 megawatts de geração solar e armazenamento exigiria US$ 120 milhões, ou A$ 166 milhões, e poderia levar as fontes renováveis a 90% do consumo nacional.
Segundo o Fórum das Ilhas do Pacífico, os países da região consideram a mudança climática a maior ameaça à segurança regional desde as discussões realizadas no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas em 2007.
Por que a discussão interessa à Amazônia
A experiência do Pacífico oferece um alerta direto para a Amazônia brasileira. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins também enfrentam desafios de distância, logística, custo de energia e acesso desigual a infraestrutura. A transição para fontes renováveis precisa considerar armazenamento, transporte e atendimento a comunidades isoladas, não apenas a instalação de painéis.
O ponto comum é a dependência de sistemas vulneráveis a eventos extremos e a cadeias de abastecimento caras. No Pacífico, o risco aparece na importação de diesel por rotas marítimas. Na Amazônia, a discussão sobre segurança energética também exige olhar para localidades distantes dos grandes centros e para a adaptação de serviços essenciais às mudanças do clima.
O financiamento climático defendido pelas ilhas pode ter importância além da geopolítica. A proposta é criar um fundo controlado pela própria região para apoiar projetos comunitários de adaptação. Para territórios amazônicos, o modelo reforça a necessidade de recursos que cheguem aos municípios e às comunidades, em vez de permanecerem concentrados em grandes obras ou capitais.
A meta de 1,5°C ainda não foi abandonada
A temperatura média global em 2025 ficou 1,44°C acima da média de longo prazo. Os oceanos também alcançaram, nesta semana, o maior nível de calor já registrado, em um cenário agravado pelo fortalecimento rápido de um fenômeno El Niño.
Com esses dados, tornou-se quase certo que o aquecimento ultrapassará temporariamente 1,5°C. Ainda assim, o limite pode ser retomado até o fim do século, mas somente com cortes imediatos e profundos nas emissões e com a retirada de parte do dióxido de carbono já acumulado na atmosfera.
O lema das nações costeiras do Pacífico, “1,5°C para sobreviver”, resume a dimensão política da negociação. Seus representantes ajudaram a incluir a meta no Acordo de Paris de 2015 e agora esperam que a Austrália defenda o compromisso na COP31, além de ampliar o financiamento para adaptação.
O fórum em Palau deve definir como a região combinará cooperação climática, segurança e energia renovável nos próximos meses, antes da cúpula preparatória de outubro e da COP31, em novembro.
Com informações de The Conversation.
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